Pés, cabeça e coração: Uma crónica de Marco Pacheco

Por a 6 de Dezembro de 2023

Estamos no pico do verão. Pela janela do seu gabinete, a presidente da agência observa a rua deserta de transeuntes. Decide ajustar o ar condicionado (AC) que mandou substituir recentemente. Ver o calor lá fora dá-lhe calor. Nisto, ouve a voz rouca do diretor criativo:

— Ora boa tarde.
— Boa tarde — retribui a presidente enquanto baixa mais um grau na temperatura. — Não te ouvi entrar.

Normal: a porta estava aberta e, mais importante, o diretor criativo não traz sapatos, apenas um elegante par de peúgas Burberry com xadrez branco e preto sobre base beije, uma risca encarnada contornado a perna acima do tornozelo, outra laçando o peito do pé. Gosta de andar assim na agência. Diz que é libertador, deixa a energia fluir, ajuda a pensar. A presidente não entende, não há maneira de se habituar àquele hábito bizarro. Já trabalham juntos há anos, mas ainda hoje não consegue disfarçar o incómodo que aquelas meias a céu aberto lhe causam — e não é só a ela, há muita gente na agência que acha aquilo de mau gosto, caprichoso, e até desrespeito para com os colegas. Já tentou convencê-lo a usar sapatos, nem que fossem aqueles ténis tipo pássaro exótico que os criativos adoram, mas a resposta que ouve é sempre a mesma:

— No dia em que calçar os sapatos é para me ir embora.
E a presidente não tem razões para mandá-lo embora, as coisas não têm corrido mal, o melhor ato de gestão é deixar andar os peúgos. Até lhes reconhece um aspeto positivo: as conversas e reuniões com o diretor criativo são sempre muito produtivas, muito focadas, rápidas: todos fazem por mantê-las o mais curtas possível. O pior, pensa a presidente, é para os criativos, que têm de aturar as meias todos os dias, todo o ano, incluindo estes verões cada vez mais quentes. Foi sobretudo por essa razão que também mandou substituir o ar condicionado do departamento criativo.

Quando as duplas apresentam ideias no gabinete do diretor criativo (também com AC novo) é usual depararem-se com um par de pés — sempre impecavelmente vestidos, nunca nus — pousado sobre o tampo da secretária. Como o homem nem sempre é claro nas orientações criativas que dá, pelo contrário, tende a ser até bastante confuso, é comum os criativos virem de lá com queixas como:

— Não entendo a cabeça do homem.
Ao que os colegas mais experientes respondem:
— Não é a cabeça, são os pés.

É para eles que devem olhar, é com eles que devem falar. Os pés dizem tudo. Por exemplo: se um deles está a bater no ar ao ritmo de uma música imaginária, é porque o homem está a gostar; se batem os dois, é porque está a adorar. Se trocam de posição muitas vezes quando estão cruzados, o de cima passa para baixo e o de baixo para cima, é porque ele está agitado com alguma coisa que está a ouvir. Se um dos pés coça o outro, e o outro retribui o favor, é porque o dono está distraído, pode nem estar a ouvir. Se os dedos encolhem todos ao mesmo tempo, como quem cerra os punhos, isso indica tensão, impaciência. Se os pés se espreguiçarem, abrindo os dedos em leque, é porque as ideias são chatas, dão sono. Sabendo isto, os criativos escusam de perguntar:

— Mas não há nenhum caminho de que goste?
Mesmo que haja, ele nunca diz qual. Gosta de procurar ideias até à última. A maioria das vezes só toma uma decisão a horas da apresentação, o que deixa toda gente na agência numa pilha de nervos, sobretudo nas campanhas grandes e nos concursos. Os planeadores estratégicos têm de montar o racional à pressa, a produção tem de fazer maquetas e orçamentar de um dia para o outro, quase sempre com estimativas altas e os accounts têm de fazer contas em cima do joelho. É tudo feito com os pés. O que pode ser complicado para os níveis de stresse de cada um, mas para a agência não. Ninguém aprecia o estilo de direção criativa dos pés, mas todos lhes reconhecem mérito.

Isto fica ainda mais claro quando, faltando cerca de três meses para o Natal, o diretor criativo é internado por causa de um problema grave de saúde. Sem os pés, a agência começa a andar à deriva, os clientes começam a reclamar ainda mais do que já reclamavam, até porque vem aí Natal, a campanha mais importante do ano para muitos deles. De repente, toda a agência tem saudades dos pés, todos sentem falta daquele anjo levitando pelos corredores. A presidente, em especial, sente muito a ausência do seu querido excêntrico e decide fazer-lhe uma visita surpresa, por altura do Natal, com a agência inteira.

O diretor criativo já está em casa a recuperar, mas ainda não pode sair. Encontram-se todos à porta do prédio, sobem, tiram os sapatos (dando à entrada um ar de mesquita em hora de oração) e a presidente, em meias, bate à porta. O diretor criativo abre e, ao reparar que todos estão descalços, lembra-se que tem os pés nus:

— Peço desculpa, não estava à vossa espera, vou calçar uma meias.
Todos riem e entram para a enorme sala onde, com jeitinho, cabe toda a gente. A presidente faz um curto, mas sentido discurso de boas festas, de melhoras e de elogio ao “amigo e companheiro de muitas lutas”. O grupo aplaude efusivamente, incluindo a presidente, que tenta não chorar. O diretor criativo agradece a visita e as palavras e começa então a abrir os presentes. Todos levaram um par de meias.

Crónica de Marco Pacheco, diretor criativo executivo da BBDO e escritor

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