Assunção Sá da Bandeira: a evocação de uma pioneira das relações públicas

Por a 7 de Dezembro de 2023

Esta semana não estive onde queria ter estado, na despedida de uma  amiga que permanece na forma como vou vendo a vida e a liderança. Assunção Sá da Bandeira, senadora das Relações Públicas, merece cada uma das palavras que ocorrem a quem a conheceu e admirou. Fez crescer uma empresa num sector em transformação, seguindo a sua intuição e sem olhar para trás. Colaborou na candidatura de Ramalho Eanes à Presidência; foi próxima de João  Soares Louro e Alfredo Sousa;  Sá Carneiro levou-a ao PPD. Nunca se terá pensado feminista mas o seu núcleo duro foi  baseado em mulheres que empoderava, mesmo se integrando a opinião de  consultores e colaboradores masculinos, prosseguia independente e com a sua gente, com alguma displicência. 

Tinha um enorme sentido de humor, ria-se dos wannabe, de convenções e desencantos, seus e dos outros. Era orgulhosa, o telefonema de um cliente insatisfeito estragava-lhe a semana, mas igualmente generosa e sedutora. Quando a Manita (o petit nom com que a tratavam todos, dado por um dos quatorze irmãos)  contratou a miúda que eu era, estava a reposicionar a sua BA&N, acrescentando-lhe uma nova área de negócio, a Comunicação Empresarial. A empresa, que fundara com duas amigas, tinha já afirmado a marca no trabalho temporário e, sobretudo, no serviço de hôtesses  (por certo que chegará ao céu uma vaga de orações delas, a quem a Manita conhecia pelo nome e pelas competências, para dado evento queria a Marina, para outro a Helena, entre centenas de nomes). Para trás tinham ficado as sócias iniciais, numa série de diferendos, e a Manita levava o barco para a frente, sem amarguras, com a experiência do trabalho no Totta e no Citibank. O brasileiro Décio Alves cruzou-se no seu percurso e fê-la perceber o alcance da actividade, mal entendida em Portugal. 

Um dia explicou-me como tinha conseguido atravessar os tempos mais difíceis: «nunca deixei de pagar um ordenado, custasse o que custasse». Nas adversidades fazia um bloco imbatível com o marido, o advogado António Sarafana, que acorria quando ela lho pedia, fleumático e cuidadoso a deixar claro aos funcionários que seguia as instruções da administradora. 

Nos anos 80, e aos quarenta anos, Manita preparava-se para ser a única mulher a dirigir uma agência de comunicação; a Madalena Martins, liderava a Imago em dupla, com o Carlos Sarmento de Matos.  Era uma líder que responsabilizava, exigente, a entrar num campo dominado por ex-jornalistas, com quem aliás se dava bem – o Luís Paixão Martins, o Miguel Almeida Fernandes, o João Carreira Bom. Nas reuniões com clientes a Manita media as palavras e não se assustava com o tamanho das ambições, não foi por acaso que Jorge Arnoso, à frente das Selecções do Reader’s Digest, um dos primeiros clientes na produção de reuniões internacionais, a notara como sendo «a discreta competência». Dentro do escritório fazia com que a rotina fosse divertida e  imprevisível, chamava «Meninas!» e tanto podíamos estar a ser convocadas para o debrief da Proposta que conquistaria as contas da Martini, da Foster’s ou da IBM, como para ir aos saldos ou fazer malas para um fim-de-semana de férias na Quinta da Balaia. Quando se fechava com a amada música clássica, que ouvia bem alto, era sinal que em breve teríamos surpresas, eventualmente algum berro, planos a mudar de rumo ou avaliações negativas aos resultados. A equipa ía mudando sem que ela pestanejasse, sucediam-se agruras, como a da saída de uma directora, respeitável mãe de família,  que montara um esquema oleado e desviava dinheiro da empresa há largos anos. 

A Manita não guardava rancores, e isso não é  pouco.  Seguia em frente, sem tocar no assunto, aristocrata sim, mantendo a vontade de se aventurar e tomar o mundo, elegante nas saias curtas, a moda dos anos 80. A empresa passara de uma excentricidade a ser aquilo que pagava os estudos dos filhos, depois de enviuvar. No capital da BA&N viriam a entrar vários sócios e até uma sociedade  de capital de risco. João Ribeiro da Fonseca e Manuel Shearman de Macedo viram o seu potencial  e a Manita prezava a sua opinião. 

Muitos anos depois, fiz-lhe um pedido. Fizera uma reportagem num bairro social de má fama e esfalfava-me para encontrar trabalho para o Zé, um rapaz vindo de Cabo Verde a quem faltavam oportunidades. Por uns tempos, o Zé foi recepcionista da BA&N,  pontual e em de fato de treino.

Um dia, a Manita desafiou-me a fazer uma reportagem sobre o Movimento Carismático, que transformava as práticas da Igreja Católica e crescia em seguidores. Depois da ser publicada, organizou um jantar em casa dela, para o qual convidou o Padre cujas missas eu tinha retratado. «Já viu, nunca pensou receber um perfume de um Padre» riu-se a Manita de mim, e do meu espanto de perceber que o Padre a tinha incubido de me homenagear, através de um pequeno presente. A descoberta de uma Fé amplificadora e firme foi essencial durante as suas últimas décadas, na doença e na Paz que encontrou.  

Não acompanhei de perto o tempo em que foi dirigente da APECOM, associação do sector, e administradora da Cunha Vaz & Associados, onde terá continuado a ser a pessoa que não sentia a idade, de ironia subtil  na sua «competência discreta», depois de ter vendido a sua empresa à STRAT. Por essa altura o mercado estava maduro e a Manita já não tinha nada a provar, liderara ambiciosos programas de comunicação integrada para clientes relevantes, como a Comissão Europeia  e a Electricité de France.

Conversámos sobre a BAC Speakers Bureau, que criou para agenciar speakers, com o filho, Domingos. Visitei os futuros escritórios, para onde corriam as netas, que a adoravam. A última vez que nos encontrámos foi no IPO, acidentalmente. Esperei com ela até que a chamassem para o tratamento, voltaria depois para casa com Catarina, «a melhor filha do mundo». 

Uma das suas últimas publicações do Facebook  é um texto de José Tolentino Mendonça sobre a Paz. Transcrevo o seu  comentário, a que não colocou ponto final : «A Paz dentro de nós leva-nos a suportar tudo, a alegria, a tristeza, o sofrimento, a vida e a morte». 

Obrigado Manita, os pontos finais que se lixem.

Artigo da autoria de Joana Leitão de Barros

 

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