Lula e a força dos símbolos na comunicação política

Por a 2 de Janeiro de 2023

Jair Bolsonaro viajou para um “resort” dos Estados Unidos na última semana de 2022, saindo da presidência do Brasil pela porta do cavalo para não estar presente na tomada de posse de Luiz Inácio Lula da Silva e, assim, evitar a transmissão da faixa presidencial para o seu sucessor – um símbolo da transição do poder na quarta maior democracia do mundo.

A ausência de Jair Bolsonaro, que há várias semanas era expectável, permitiu a Lula decidir que, pela primeira vez, fosse o povo a entregar a faixa presidencial ao novo Presidente do Brasil, naquela que foi uma das maiores surpresas da cerimónia da tomada de posse.

Deste modo, Lula da Silva – cujo governo adotará a frase “União e Reconstrução” como assinatura de um Brasil diverso e multicolorido – deu uma simbologia ainda mais forte e ampla à transmissão da faixa, criando um momento de comunicação política muito expressivo e, ao mesmo tempo, emotivo.

Entre os representantes da sociedade brasileira que transmitiram a faixa a Lula, uns conhecidos e outros anónimos, estavam o Raoni Metuktire, o maior líder da etnia caiapó do Brasil; um jovem com deficiência chamado Ivan Baron, que teve paralisia cerebral causada por uma meningite; Murilo de Jesus, professor de português; Jucimara dos Santos, uma cozinheira; Francisco, um menino negro de 10 anos que mora em São Paulo; e Aline Souza, que trabalha apanhando lixo nas ruas. Todos subiram a rampa do Palácio do Planalto, ao lado do novo Presidente, que trazia consigo a cadela Resistência, assim batizada em homenagem à resistência de Lula quando esteve preso em Curitiba.

No alto da rampa, e com a multidão em delírio no horizonte, o símbolo da transição do poder brasileiro passou de mão em mão até chegar a Aline Sousa, uma mulher negra, de 33 anos, mãe, que ganha a vida nas ruas a catar lixo reciclável. Foi das mãos dessa mulher trabalhadora que Lula, também ele de origem proletária, fez questão de receber a faixa presidencial.

Foi um momento pleno de simbolismo na cerimónia da tomada de posse de Lula. Ou não fosse a política uma atividade onde a semiótica assume particular importância pelo facto de os sinais e as formas simbólicas significarem acontecimentos concretos.

A simples transmissão da faixa presidencial, pela sua força simbólica, tornou-se maior do que a própria tomada de posse. Quando chegou ao Presidente, a faixa deixou de ser um pano enriquecido pela joalheria e representativo do poder político brasileiro para se transformar num símbolo da diversidade étnica, cultural e social do Brasil; da reunificação e da reconstrução do país; da reaproximação entre governantes e governados; do combate às desigualdades sociais; e da vitória da tolerância e da democracia, depois de quatro anos marcados pelo discurso de ódio e pelas fake news que marcaram o governo de Jair Bolsonaro.

Artigo de opinião de Luís Paulo Rodrigues, consultor de comunicação e autor do blogue Comunicação Integrada (www.luispaulorodrigues.com)

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