Os dias de ontem e os de amanhã

Por a 23 de Dezembro de 2022

Vítor Cunha, administrador da JLM&A

E assim, com pressa, chegamos ao fim de mais um ano.

No Ocidente libertámo-nos das grilhetas do vírus, fomos confrontados com uma guerra estúpida e desnecessária, enquanto a crise se instalava devagar, mas com determinação e sem misericórdia. Os pobres estão a ficar mais pobres (os ricos vivem bem com crises) e a classe média vê o sonho minguar porque não ganha para pagar juros nem para aguentar a inflação. Tem sido assim o nosso destino desde 2009: crises, pequenas recuperações e novas crises sem fim nem aparente sentido.

As elites ocidentais, no meio de tudo isto, entretiveram-se a discutir pequenas e grandes bizantinices: o sexo dos anjos continua a despertar grande interesse e discórdia entre os humanos.

A Europa perdeu referências, líderes decentes, e o Vaticano, o último esteio moral do Ocidente, luta desesperadamente para salvar e salvar-se das penas da pedofilia e do abuso sexual, a maior vergonha escondida.

A abundância de regimes duros ou “iliberais” vai normalizando o fenómeno enquanto, no mundo democrático, medram outros fenómenos extremos, como Trump ou Bernie Sanders, perante a inoperacionalidade do centro, cada vez mais caquético, incompetente e egoísta, liderado por egoístas impreparados e incompetentes.
Por cá, o Partido Socialista chega-se à esquerda e por lá estabiliza. Temos hoje o melhor dos mundos: uma “geringonça” sem PCP nem Bloco de Esquerda, na adaptação pelos socialistas da velha máxima “um partido dois sistemas”.

O PS é muito de esquerda em Lisboa e pouco de esquerda em Bruxelas, o que lhe permite falar para públicos distintos com a mesma convicção e certezas. Já o PSD, ainda não é nada. O PS incentiva a tenaz que o deixou de fora no passado e traz Ventura para o debate, que agradece e retribuiu. Se na minha juventude assistimos à mais espúria aliança entre PSD e PCP, hoje vivemos outra não menos sombria entre PS e Chega, igualmente perigosa e radical.
No meio destas desgraças coletivas temos o Natal. Para além de uma enorme feira, devia ser tempo para reflexão e paragem. Parar para pensar no que somos e no que queremos ser, para evitar a descrença e o caminho certo para um abismo sem referências nem quadro de valores. O ceticismo crónico e o desalento ideológico ganham terreno perante tamanha desordem.

Defender a liberdade, a democracia, a justiça, o equilíbrio, a dignidade das pessoas, um Estado contido, o direito à livre escolha e a defesa da ambição natural para que ninguém nasça condenado a ser pobre ou mal remediado deviam continuar a ser as escolhas dos moderados. Mas os moderados perderam a agenda e entregaram-na aos radicais.

A guerra trouxe fome, morte e miséria à Europa como já não víamos há muito tempo. Mas também convocou o que há de melhor em todos nós, como a coragem do presidente Zelensky e de uma nação decidida a não capitular, a solidariedade entre povos, o isolamento do ditador do Kremlin, e a noção exata de que há momentos definidores, aqueles em que não se pode estar bem com Deus e com o Diabo, e que há que fazer escolhas difíceis. O Diabo, como se sabe há muito, é um sedutor desavergonhado.

É isso que fica de bom deste ano, mas para isso foi preciso o extremo da violência e da barbárie.

O ano de 2023 está perto e não será a viragem da folha do calendário a trazer mudança. A mudança começa por nós, por cada um de nós: temos de ser exigentes e convergentes, temos de recusar a facilidade, e temos de fingir surdez sempre que cânticos de alegria e felicidade eterna nos forem vendidos pelos vigaristas e pilha galinhas do costume. Bom ano.

Artigo de opinião assinado por Vítor Cunha, administrador da JLM & Associados

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