O desafio da ética nos negócios

Por a 16 de Novembro de 2022
Jorge Faustino

Jorge Faustino, business development director na Fullsix

Quando refletia sobre qual o tema que deveria versar este artigo de opinião recebi um e-mail de um cliente, diretor de marketing de uma das maiores marcas portuguesas, que me fez ter vontade de escrever, não sobre os habituais temas de marketing de conteúdo, customer experience, user-centric marketing, data, entre outros, mas sobre ética. Ética nas relações e, consequentemente, ética nos negócios.

Primeiro, esclarecer que a temática da ética me é muito querida e que, noutros contextos da minha vida, sobretudo no âmbito desportivo, recorrentemente a abordo, sendo uma área sobre a qual, inclusive, tenho tido a oportunidade de ministrar algumas sessões de formação e esclarecimento.

Voltando ao e-mail. Nele era abordada a renovação do contrato de prestação de serviços que a minha agência presta à referida marca. De forma telegráfica, era revisitado o âmbito de serviços, quais os valores de avença e, no final, uma nota sobre a inflação… Este diretor de marketing e esta marca, por iniciativa própria, contactaram-me a informar do ajuste (aumento) do valor da avença em função do valor de inflação previsto!
Esta atitude não deveria ser merecedora de destaque. Este acerto, a acompanhar a inflação, é “apenas” justo e ético. Mas também é, infelizmente, pouco comum. E por que não temos mais comportamentos éticos como este caso que referi?

Segundo John Maxwell, um autor americano com vários bestsellers sobre liderança e ética, entre os quais Ethics 101: What Every Leader Needs To Know, existem três razões para que, ao enfrentarmos dilemas éticos nos negócios, nem sempre sejamos capazes de tomar a melhor decisão:

1. Agimos naturalmente de acordo com a nossa conveniência – muitas vezes a decisão eticamente correta não é aquela que vai ao encontro do nosso interesse individual e não é a escolha mais confortável para nós. Tomar a iniciativa de pagar mais x por cento, de forma a fazer um ajuste à inflação, é o correto, mas não é a escolha/iniciativa mais fácil de se tomar por ter impacto negativo direto nas nossas contas e orçamento.

2. Não gostamos de jogar para perder – quem está no mundo dos negócios quer vencer. Alcançar o sucesso. Muitas vezes enfrentamos dilemas onde sentimos que ser ético pode prejudicar esse objetivo de vencer. E ninguém gosta de perder…

3. Relativização das escolhas – muitos acreditam que adotar comportamentos éticos vai limitar as suas possibilidades de negócio e a capacidade de ser bem-sucedido. Assim, relativizamos as nossas escolhas para poder optar pelo que é melhor para nós individualmente sem termos de enfrentar e/ou valorizar os nossos comportamentos não éticos.

Identificadas as razões que tantas vezes nos limitam e toldam a capacidade de tomar as melhores decisões, eticamente falando, há que encontrar “ferramentas” que nos ajudem nesses momentos. Para tal, o mesmo autor identifica uma referência moral utilizada por pensadores, filósofos e religiões que diz que devemos “tratar os outros do modo como gostaríamos de ser tratados”.

Escrever todo um artigo para chegar a esta conclusão/sugestão pode parecer simplista. Mas também sabemos que o mais difícil é fazer simples. Se experimentarmos aplicar este princípio, talvez venhamos a descobrir que, mesmo num contexto de crise económica, social e política, podemos evoluir para uma sociedade mais ética e, consequentemente, mais próspera.

Artigo de opinião assinado por Jorge Faustino, business development director na Fullsix

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