O Porto é uma Nação ou o elogio da francesinha

Por a 27 de Outubro de 2022

Vítor Cunha, administrador da JLM&A

Por estes dias deste outubro canicular sai para as livrarias “O Porto é uma Nação”, de Jorge Afonso Morgado. Este livro é produto de uma escolha de crónicas publicadas pelo autor na imprensa ao longo de duas décadas e meia.
Tive a extrema sorte de o ler (ou melhor, em grande parte reler) na mesma altura em que na Europa se discutem, como não se via há muito, as teses soberanistas e nacionalistas, muitas vezes associadas ao “regresso” do “fascismo” e de outros autoritarismos mais difíceis de catalogar, como o putinismo.

Querer meter esta panóplia alargada de “ismos” no mesmo caldeirão é pouco científico, como é muito pouco rigoroso colocar a Nação Portuense no lote das regiões-Nação europeias, como Jorge Morgado faz questão de salientar logos nas primeiras páginas da obra. Ainda assim, fica por explicar por que razão se inventou em tempos a dita expressão que dá o título ao belo livro, escrito ao longo do tempo por alguém que notoriamente sabe do que fala.
A expressão “o Porto é uma Nação”, conta Morgado, não tem pai ou mãe conhecidos – mas bem sabemos que há muito ilegítimo com grande peso e obra.

Na teoria política e no Direito há várias definições possíveis de “nação” – uma discussão antiga e irrelevante para este efeito. Cultura, língua, tradição, território, história, vontade, “uma sociedade estável” e “sentido de unidade” são elementos suficientes para o que nos interessa. E nenhum deles nem a sua soma fazem do Porto um país e muito menos uma Nação. O Porto é diferente, pode ser, mas é mais: é a essência de Portugal. Este país não seria como é sem a sua marca e peso, a sua diferença, a sua autonomia e sentido profundo do que é a liberdade.

Ao ler as cerca de 180 páginas de crónicas de Jorge Afonso Morgado sou remetido para as catacumbas da memória e da experiência de, não sendo do Porto, lá ter vivido os bons anos da vida (quando somos jovens e mais tolos). Essa experiência poderia ter sido traumática dado que a seguir me instalei em Lisboa, a outra cidade da minha vida. Mas não foi. A única coisa que verdadeiramente divide portuenses e lisboetas é o futebol, mas é também esse passatempo que divide a 2ª Circular.

A afirmação de qualquer segunda cidade faz-se sempre contra a primeira e não contra a terceira, mais ainda se aquela mantém as manias das grandezas e uma grande ignorância sobre tudo o que lhe é exterior. O Porto defende-se como pode, ora exibindo dotes, ora vociferando contra o centralismo.

O livro de Jorge Morgado conta-nos isso: a memória da afirmação de uma cidade (mais do que de uma região) ao longo de duas décadas e meia. Música, artes, arquitetura, empresas, pessoas, mudanças de modelos, uma nova economia a nascer, experiências e pontos de vista que só o Porto pode ter e só quem é do Porto pode conhecer. É um prazer percorrer crónica após crónica e ir sentindo que tudo aquilo é também um pedaço da minha vida e da vida de muitas pessoas que reconheço ao virar mais uma página. E um livro serve também para nos vermos ao espelho do que somos e fomos.

As crónicas de Jorge Morgado serão, sem sombra de qualquer dúvida, uma excelente fonte para daqui a 10 ou 100 anos percebermos e conhecermos a sociedade portuguesa e portuense. Ao ler Morgado sentimo-nos ao volante de um carro aberto a passear tranquilamente pelas ruas da cidade numa viagem no tempo e no modo como nos ligamos ao que nos une e de que gostamos. E não tem quer tripas, basta uma bela francesinha.

* “O Porto é uma Nação”, de Jorge Afonso Morgado, editado pela Primeira Edição

Artigo de opinião assinado por Vítor Cunha, administrador da JLM & Associados

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