Capricho ou genialidade?

Por a 21 de Junho de 2022

João Paulo Luz, diretor de negócios digitais e publishing da Impresa

Quando olhamos para os sucessos empresariais na área da tecnologia, muitos são marcados pelo carisma dos seus fundadores. Lembramo-nos imediatamente de Steve Jobs e Elon Musk, mas também de Bill Gates, Jeff Bezos, Larry Page e Sergey Brin, e claro, Mark Zuckerberg. Existem muitos mais, como Michael Dell, que contornou uma cadeia de distribuição conservadora com uma abordagem de vendas diretas, ou Jack Ma, antigo professor de inglês e fundador do Alibaba, provavelmente o homem mais rico da China.

Mas o que nos faz recordar os mais carismáticos é que todos nós gostamos muito de heróis, dos que venceram contra outros muito maiores do que eles, ou porque com o seu carisma perseguiram o sonho de deixar um grande impacto no mundo, mais até do que o crescimento racional do seu negócio.

É provavelmente aqui que se separam os trajetos destas personalidades. Alguns, como Larry Page e Sergey Brin, desde muito cedo, ou Bill Gates mais tarde, entenderam que a vida de uma empresa de sucesso passa muito mais por não falhar no retorno aos seus acionistas do que por inovar a qualquer custo. Estes cedo escolheram equipas profissionais que os ajudaram a criar uma cultura empresarial, dotada de processos e uma gestão de recursos cuidada. A Apple de Tim Cook será outro bom exemplo. Dificilmente com Steve Jobs se teria tornado tão lucrativa, não só pelo gosto pelo risco, como pela vertigem de lançar novidades antes de esgotar o retorno da anterior. Desde 1997, o ano em que Jobs voltou à Apple, quando esta comprou a sua NeXT, que provavelmente seria um total fiasco financeiro, até ao iPhone em 2007, a mudança e os lançamentos sucederam-se. No entanto, a Apple, que se tornou a companhia mais valiosa do mundo no ano em que Jobs morreu, tem hoje uma muito maior diferença para todas as outras. Apesar disso, ou talvez por causa disso, o ritmo da inovação não é certamente o mesmo.

Do outro lado, em que os fundadores se mantêm na liderança das suas companhias, temos os maiores exemplos em Mark Zuckerberg e Elon Musk. Para sermos corretos teremos que fazer de Jeff Bezos a exceção. Talvez pelas origens de Wall Street, e apesar de só ter abandonado a liderança executiva em 2021, a Amazon sempre foi uma empresa com um cultura corporativa comparável com outras grandes empresas. Já Zuckerberg e Musk são conhecidos por gerirem as suas empresas com uma cultura próxima de uma enormíssima startup, com tudo o que isso tem de bom mas também de menos confiável para os investidores.

É neste contexto que se entende o entusiasmo de Mark Zuckerberg por uma aposta quase total no metaverso. Tem a convicção de que a socialização hoje já é mais frequente pelos devices do que pela presença física, e que essa tendência só tende a aumentar. A globalização, o trabalho remoto, o ritmo cada vez mais rápido em que insistimos viver, tudo isso vai levar-nos a viver cada vez mais virtualmente. É muito provável que Zuckerberg esteja certo e que a aposta colossal que está a fazer esteja certa. No entanto, é uma decisão que está longe de reunir consenso e que dificilmente seria perseguida com tanto foco numa empresa “normal”.

O caso de Elon Musk é o mais próximo dos génios que iremos recordar. Depois de fazer fortuna com a venda do PayPal, em que encaixou mais de 150 milhões de dólares, arriscou a sua fortuna em empreendimentos de elevadíssimo risco. A Tesla surge com a ambição de competir mesmo em desvantagem de preço face aos fabricantes europeus e asiáticos, como em apostar tudo na disrupção. Só faria carros elétricos e apostava que rapidamente iríamos adotar o auto-pilot, e já nos esquecemos que quase ninguém apostava no seu sucesso.

Criou também a SolarCity, investindo forte nos painéis solares. Ambas as empresas tinham como maior ambição causar impacto no mundo e alterar a forma como usamos energia sem destruir o planeta. As opções não foram todas pacíficas mas a direção em que Musk corria era clara. Mas ainda mais clara seria quando apostou na SpaceX com a missão extrema de iniciar a procura de alternativas à vida humana fora do nosso planeta. Ao mesmo tempo que pretendia contribuir para o salvar, parecia cético indicando que a solução também terá que passar por Marte.

É este Elon Musk, que também persegue o desenvolvimento seguro da inteligência artificial, que quer comprar o Twitter. Alguns dizem que aproveitou a cotação das ações da Tesla para vender sem sinalizar que tinha menor compromisso com a companhia. Outros dizem que não resistiu ao apelo de ter a capacidade de influenciar a sociedade. As plataformas tecnológicas, como o Twitter, não produzem conteúdo mas distribuem-no, controlando com isso o seu impacto.

Independentemente da nossa perspetiva sobre o tema, só o futuro dirá o que o motiva. Algo pouco nobre como conseguir que a maioria pense como ele, ou novamente o sonho de lutar por uma alternativa perante as dificuldades das restantes ofertas atuais. Vamos ter que esperar mas todos gostaríamos de ser mais uma vez surpreendidos pela genialidade.

Artigo de opinião assinado por João Paulo Luz, diretor de negócios digitais e publishing da Impresa

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