Who wants to change the world?

Por a 5 de Maio de 2022

João Paulo Luz, diretor de negócios digitais e publishing da Impresa

“Think different” foi o slogan publicitário usado pela Apple entre 1997 e 2002, e marcou o regresso de Steve Jobs à empresa que tinha ajudado a fundar e da qual havia sido despedido. O copy da campanha, numa tradução que aqui arrisco, era mais ou menos este: “Isto é para os loucos. Os rebeldes. Os criadores de casos. Os que veem as coisas de forma diferente. Enquanto alguns os veem como loucos, nós vemo-los como génios. Porque as pessoas que são loucas o suficiente para achar que podem mudar o mundo são as que, de fato, mudam.”

A campanha é brilhante, com imagens de Bob Dylan, Martin Luther King, Muhammad Ali, John Lennon, Mahatma Gandhi e muitos outros que mudaram o mundo e nos inspiraram a todos. Mas o brilhantismo da campanha torna-se ainda mais evidente quando ouvimos a explicação do próprio Steve Jobs. Geralmente achamos que quando se tem que explicar é porque algo falhou, mas esta será uma exceção em que a explicação consegue ser tão inspiradora quanto a própria campanha.

E o que Steve Jobs disse numa apresentação interna na Apple em vésperas do lançamento da campanha foi que “o marketing é sobre valores. Este mundo é muito complicado, com muito ruído, e nós não temos a possibilidade que as pessoas se lembrem muito de nós. Nenhuma companhia tem. Portanto, temos que ser muito claros sobre o que queremos que as pessoas saibam e lembrem de nós. E a Apple acredita que as pessoas com paixão podem mudar o mundo para melhor”.

Quando estamos em 2022, ainda a tentar sair de uma pandemia que ninguém pensava possível e envolvidos numa guerra, tão cruel e estúpida quanto todas as guerras, e que já recuperou os fantasmas de um conflito global que julgávamos ultrapassados, a explicação de Steve Jobs emerge com enorme atualidade.

Faz-nos lembrar que todos podemos fazer a diferença, mas também que todos os que escolhem tentar mudar o mundo para melhor arriscam.

Desde os anos 90 que as marcas evitaram colar-se a qualquer tipo de conflito militar por razões muito óbvias. Não há guerras boas, nenhuma parte sai imaculada de uma desgraça dessa dimensão, pelo que se percebe que nenhuma marca queira ter proximidade a qualquer conflito.

No entanto, em 2022, as marcas tomaram partido. É hoje mais claro do que era em 1997 que as marcas têm que ser genuínas, têm que ter propósitos e ser consistentes, e isso muitas vezes passa por estarem ao lado dos sentimentos dos seus consumidores. Quando todo o mundo ocidental se aterrorizou com a invasão da Rússia à Ucrânia, também as marcas tomaram partido. Mudaram-se logos para as cores da Ucrânia, lançaram-se e apoiaram-se iniciativas de apoio a refugiados e participou-se em sanções à Rússia e ao seu mercado. Não significa nada contra os russos, significa tudo contra a invasão que esta liderança russa lançou. É um esforço coletivo de nos juntarmos por um mundo melhor que todos devemos aplaudir e sentir orgulho. Um mundo de paz que todos temos a obrigação de defender mesmo correndo riscos.

Se há quem tenha responsabilidades acrescidas neste momento são as redações dos grupos de media. Felizmente os jornalistas de todo o mundo estão a fazer o seu trabalho, com a imparcialidade possível num conflito desta violência, mas criando e mantendo na opinião publica a consciência do que está aqui em jogo. Se a Ucrânia pode apenas resistir militarmente e se a desistência da Rússia só será possível pelo desgaste que a guerra e as sanções lhe causarão, é imprescindível que os jornalistas continuem todos os dias a trazer-nos os relatos desta tragédia. As sanções obrigam a sacrifícios que facilmente não quereremos fazer se a ideia da guerra se tornar distante e normalizada.

É neste contexto que fica muito difícil entender que algumas marcas ainda insistam em bloquear sites de informação nas suas campanhas digitais. Claro que nenhuma marca quer estar próxima de desgraças, mas perante o que aqui está em jogo exige-se que se vá para além do logo com azul e amarelo. Prejudicar financeiramente quem traz as notícias da guerra não é de certeza a forma como as marcas irão querer ser recordadas. Quando os seus consumidores estão disponíveis para pagar a energia mais cara, para fazer voluntariado, doar bens e dinheiro e até acolher pessoas em suas casas, ninguém as entenderá.

Esta guerra já nos mostrou que é momento de “Think different”. Nunca é tarde.

Artigo de opinião assinado por João Paulo Luz, diretor de negócios digitais e publishing da Impresa

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