Qual vai ser a sua super app?

Por a 24 de Maio de 2022

Ricardo Tomé, diretor coordenador da Media Capital Digital e docente na Católica Lisbon School of Business and Economics

Em 2021 foram descarregadas apps 230 mil milhões de vezes, crescendo 5 por cento na comparação com o ano anterior, segundo dados da AppAnnie. O investimento em publicidade mobile em apps subiu 23 por cento, alcançando os 295 mil milhões de dólares. E para quem pensa criar apps, saiba que as receitas distribuem-se numa imensa “long-tail”, onde apenas 233 apps faturam mais de 100 milhões de dólares por ano e apenas 13 acima de mil milhões de dólares por ano. Mas, no final, por que tantas apps tentam ser uma boa base de sustentabilidade no negócio?

A Apple e Steve Jobs conceberam com o iPhone o smartphone como hoje o conhecemos, mas as apps não estavam previstas ser abertas ao público developer. A ideia original de Jobs e equipa era de apps “made by Apple” e um conjunto restrito de parceiros. Mas na rapidez reconhecida de qualquer GAFA, percebendo a recetividade do mercado e o feedback dos utilizadores, um ano depois e eis que em 2008 a Apple anunciava o seu programa e a AppStore prevista para todos. O mundo mudava uma vez mais.

É inegável o tempo que todos passamos em frente dos nossos smartphones. Nesse ecossistema a Apple conseguiu “empurrar” boa parte do domínio do Google (via search no browser) para dividir espaço com esta forma direta de relação com os conteúdos, produtos e serviços: as apps.

Todos desejamos o mesmo. Ter a nossa app no primeiro ecrã do smartphone do cliente. Mas o caminho até lá varia de negócio para negócio. Como utilizadores, cada um terá as suas razões para usar mais ou menos determinada app, mas o que vamos assistindo cada vez mais no mercado é a evolução de mini apps para super apps. Basta rever o estudo de 2019 da FaberNovel em redor do WeChat.

Quem trabalha em apps compreende o erro que é arrancar com algo exageradamente grande. Um novelo de funcionalidades e ecrãs que o utilizador, só de abrir a app, já desistiu… Sabemos que precisamos começar pequeno e crescer a base de forma gradual. À medida que a app ganha mais utilizadores, incorporamos melhorias, mas o cuidado é que as mesmas não dificultem o seu uso. Basta vermos o Instagram. A quantidade de ecrãs, botões e opções que hoje temos, quando lembramos da app de 2017! Ainda assim, os utilizadores foram evoluindo o uso sem abandonar a app, devido às melhorias incrementais e não ruturais.

Mas se o propósito de um serviço numa app é forte, ela pode em si mesma galvanizar o chamado efeito de rede: alcançamos cada vez mais utilizadores que, com cada vez mais funcionalidades úteis, sentem mais difícil trocar a app por outra. E a app com os ganhos de escala permite-se reinvestir cada vez mais em novas funcionalidades e oferecer benefícios que até aí eram quase inviáveis.

Quando vemos o já referido WeChat claro que o conceito é mais elucidativo: nela marcamos as consultas do médico, as viagens, pagamos contas, gerimos as obrigações ao Estado, etc. A mesma coisa com super apps como a Uber, que hoje serve para viajar de carro, para pedir comida, para deslocar de trotinete ou bicicleta, para enviar ou receber encomendas ou até fazer compras de supermercado, e em breve adicionará viagens de avião e comboio ao leque de serviços.

O conglomerado indiano da Tata anunciou já este ano também a sua super app, a TataNeu, para lutar contra outras super apps: Amazon e Jiu.

Para além de serviço de farmácia, a TataNew incluirá a possibilidade de envio de dinheiro, pagar a conta de TV, eletricidade, pedir empréstimos ao consumo, …

Com naturalidade podemos especular que soluções como Netflix ou Disney+ poderão evoluir nos próximos 10 anos, incluindo, além do streaming de vídeo, os já sabidos videojogos, mas também e-commerce, música, eventos, merchandise, etc.

E quando olhamos para Portugal?

À nossa escala podemos obter bons sinais. A app MBWay já hoje vai além do simples pagamento, permitindo enviar dinheiro, dividir a conta, apoiar instituições e até ter vales de descontos. A ViaVerde já deu os mesmos sinais de se querer expandir, indo além das portagens e incluindo o estacionamento, carregamentos, simuladores e calculadores, câmaras de trânsito, planificadores, etc. Na área da saúde (MyCuf, Lusíadas), banca (CGD, Millennium, etc.), energia (EDP, Galp), retalho (Continente, Auchan, Lidl)… Muitas empresas estão a investir em experimentar ideias em pequenas apps, posteriormente fazendo sentido no seu propósito de serviços alargados integrando mais tarde esses ‘pilotos’ na super app (um exemplo como exercício será olhar para as apps do Continente – Continente Online, Cartão e Siga – e imaginar uma super app onde isso é apenas o ponto de partida).

O ponto de partida de muitas apps pode ser resolver uma necessidade particular. Mas não há por que não aprender com cada pequena experiência, acertando a trajetória à medida que as evidências vão demonstrando o que funciona e não funciona e traçar uma estratégia onde a riqueza esteja na congregação de serviços que façam sentido para a marca e uma forte base de utilizadores fidelizados.

Artigo de opinião assinado por Ricardo Tomé, diretor coordenador da Media Capital Digital e docente na Católica Lisbon School of Business and Economics

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