Das palavras à ação. O Rock in Rio assume (ainda mais) a sustentabilidade

Por a 22 de Abril de 2022

Quatro anos depois, o festival está de regresso. Com a mesma garra, praticamente o mesmo cartaz, mas com uma nova assertividade: o assumir de metas até 2030 e cada palco debater um tema. A bem da sustentabilidade e de um planeta melhor. Porque chegou o tempo de parar de falar e começar a agir.

Quando um festival atravessa uma pandemia, adia a realização do mesmo por duas vezes, e, quatro anos depois consegue segurar quase a totalidade do cartaz e cerca de 60 mil bilhetes vendidos… isso diz muito sobre a influência desse mesmo festival. Que dá pelo nome de Rock in Rio Lisboa. Como refere Roberta Medina Vice-Presidente Executiva do Rock in Rio, até ao início de abril tinham conseguido garantir 98% do cartaz. Na altura a única artista indisponível era Camila Cabello que não renovou a tournée europeia e que foi, por isso, substituída por Ellie Goulding. E melhor ainda. Há cerca de 60 mil bilhetes, vendidos para a edição de 2020 que continuam vendidos. Ou seja, dos quais não foi pedido reembolso. Isto significa que também o público acredita no festival.

E isso deu ainda mais força a toda a equipa, reconhece Roberta Medina. Fez com que o desafio de fazer da edição deste ano um bom, não, o melhor festival de sempre, fosse ainda maior. Com 60 mil bilhetes vendidos (da edição que não se chegou a concretizar) havia que “honrar e entregar o sonho que as pessoas compraram”, afirma Roberta Medina, acrescentando que houve uma parceria “brutal”, entre o público, artistas e, inclusive, os patrocinadores. Com exceção de uma marca que, devido à pandemia teve de mudar a sua estratégia, “os patrocinadores ficaram todos e só houve 9% de pedidos de reembolso”. E foi com base nesta confiança que “fizemos muita questão e trabalhámos muito para, por duas vezes, reconfirmar o cartaz”. A última mudança no cartaz deve-se a algo completamente alheio ao festival – o falecimento do baterista dos Foo Fighters que os levou a cancelar a digressão.

Mas, talvez, o principal impacto da pandemia no festival foi que esta “obrigou” a organização a ser ainda mais assertiva na sua mensagem por um mundo melhor. O Rock in Rio sempre se assumiu como uma ferramenta de comunicação e há 20 anos que investe em causas sociais e ambientais. Mas este ano decidiu ir mais além do que “apenas” tentar passar a mensagem. Pela primeira vez, explica Roberta Medina, o festival decidiu criar seis metas a atingir até 2030 e que o público possa participar, acompanhar os desenvolvimentos e, inclusive, contribuir.

O que levou o Rock in Rio a tomar essa decisão? E porquê agora? “Porque nunca houve um momento melhor para se discutir, para se dar passos na construção de uma sociedade mais harmónica, mais sustentável”, afirma Roberta Medina, acrescentando que marcas, consumidor e governo, já todos entenderam que agora é altura de parar de falar e começar a agir. E, tendo em conta o poder comunicativo e influenciador do festival, havia que aproveitá-lo e incentivar a mudança de comportamento das pessoas.

O que há de novo este ano

Em todas as edições o Rock in Rio escolhia um tema. Este ano, como confessa Roberta Medina, foi muito difícil escolher um. Pelo que “decidimos ir por um caminho diferente”. Este ano cada palco falará sobre um tema relevante. É claro que o principal intuito do público será a diversão. Mas, nas “entrelinhas, em momentos pontuais, queremos chamar a atenção e afirmar que este assunto é importante”. Mais do que debater profundamente os assuntos – algo que Roberta sabe que não irá conseguir – o importante é “alimentar a presença deles na agenda do debate coletivo”.

Mas de que forma é que esta nova posição se concretiza efetivamente no festival? Um exemplo. Pela primeira vez a Rock Street não é dedicada a único continente ou pais. Ela vai estar dedicada e vai falar de humanidade e de pluralidade. Vai incentivar a relação e interação entre gerações. Já o Galp Music Valley vai abordar o tema das cidades do futuro, com a energia a ganhar destaque. A inclusão digital será o tema do Super Bock Digital Stage. Roberta confessa que ficou assustada ao saber que há dois milhões de portugueses sem acesso à internet, sabendo que a tendência indica que isso leva à infoexclusão. A par disso o Rock in Rio vai, igualmente, abordar o tema da alimentação sustentável – que não é o mesmo de alimentação saudável – na perspetiva de usar o produto local e de época, que tem de ser trabalhada em conjunto com algo extremamente importante e que é a diminuição do desperdício alimentar.

Aliar o entretenimento a temas mais sérios. Aproveitar a ferramenta “brutal” de comunicação que o festival tem, o seu poder de influência e de debate para os temas da sustentabilidade. Porque, para além da diversão, essa é também uma responsabilidade do Rock in Rio. A responsabilidade de um evento que, desde sempre, assume estar a tentar criar um mundo melhor.

Os dias mais apetecíveis

Na versão anterior do cartaz, o dia em que os Foo Fighters subiriam ao palco era o dia em que se previa uma maior afluência. Agora, com o cancelamento do grupo, o tentar fazer essa previsão torna-se, segundo Roberta, mais complicado, porque os dias estão muito equilibrados. Mesmo assim, a Vice-Presidente Executiva do Rock in Rio arrisca dizer que o dia 26 de junho, em que o palco principal recebe Post Malone, Anitta, Jason Derulo e HMB “é um dia muito forte”.

O equilíbrio no cartaz é fruto, também, do cuidado do festival em ter música (e entretenimento) para vários gostos musicais. Há o dia rock, o dia pop, o dia mais “maduro” e o dia pop rock super jovem. “É isso que faz a beleza do festival. Ter pessoas diferentes em cada dia”, constata Roberta Medina, conquistando várias faixas etárias da população. E nem é preciso olhar apenas para o cartaz principal, isso também é visível nas várias atrações que existem no recinto e isso é algo importante para a organização do Rock in Rio. Não só ter uma variedade em termos de idade, mas, também, em termos de perfil. Porque nem todos gostam das mesmas coisas. “Mas, lá dentro, temos a certeza de que cada pessoa vai encontrar o seu espaço”, afirma Roberta Medina.

A intenção “agressiva” de mix de pessoas é reforçada pelo retomar do passaporte família. Por pouco mais o valor de dois ingressos pode entrar cinco pessoas: dois adultos, duas crianças até 10 anos e um idoso (acima dos 65 anos). O objetivo, revela Roberta, é o de valorizar o conceito “família”. Roberta refere que a organização sabe que levar a família inteira ao festival implica um esforço financeiro grande. Por isso mesmo, “fizemos questão de criar um produto a pensar nisso”, acrescentando que o passaporte família está à venda exclusivamente na Galp.

Envolver a comunidade local

Há vários anos que Chelas, e mais precisamente o parque da Belavista, é a “casa” do Rock in Rio. Este ano a organização pegou no sucesso de algo que fez no Brasil e adaptou para a realidade portuguesa. Um aproximar entre o festival e a comunidade onde se insere. Neste caso específico, e através de uma parceria com Chelas é o Sítio, movimento liderado pelo Sam The Kid, o Rock in Rio convida todos a olharem para o que “há de bom em Chelas” e não apenas no que “há de ruim”. O objetivo é atenuar (ou mesmo eliminar) o distanciamento que existe entre a cidade de Lisboa e aquela região (Chelas).

Tudo começou, na verdade, com a abertura da Casa de Pedra, o restaurante do parque. Foi nessa altura que Roberta percebeu, realmente, a imagem que os lisboetas têm de Chelas. Isto porque os comentários mais ouvidos eram “ah, fica muito longe”. E é precisamente essa visão que Roberta quer alterar. Primeiro através do projeto “Prata da Casa” onde artistas locais atuavam na Casa da Pedra. O sucesso fez com que Roberta pensasse “porque não levar isto para o festival?”. Na prática a nova área (e aposta) do Rock in Rio passa por olhar para o talento e procurar a integração e o acolhimento de partes da cidade através da cultura. Lutar contra os preconceitos existentes contra os bairros sociais. O novo palco vai “trazer luz para os talentos de toda a freguesia de Marvila e de Chelas”.

*conteúdo Rock in Rio

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