Web3 ou Web3.0: Ainda podemos salvar a internet?

Por a 14 de Janeiro de 2022

Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital e docente na Católica Lisbon School of Business and Economics

A web como um ecossistema interoperacional aberto já viu melhores dias. Do apogeu do hipertexto e do email até ao open-source vieram depois os walled-gardens, ecossistemas poderosos e virtuosos detidos pelas big tech, como Apple, Amazon, Google, WeChat, Meta… enfim, grandes empresas que hoje tentam oferecer – nos seus ecossistemas – uma experiência rica e que promova o retorno e o maior tempo possível aí despendido (e dinheiro investido, pois claro).

Estamos, portanto, no apogeu da Web 2.0 e, dirão alguns, a evoluir para a versão 3.0, com a virtualização e o livestreaming e o live-shopping, os deepfakes, a computação quântica, a realidade virtual e a realidade aumentada, o 5G, o WiFi6, etc…

Mas não fique espantado se, ao invés de ler que estamos na Web 3.0, há quem esteja a trabalhar na Web3. Isso mesmo. Sem zero. Sem ponto. E não é um erro. É mesmo assim.

Web3 ou Web 3.0?

A distinção ainda é confusa e, direi mesmo, polémica; não há propriamente um ‘acordo’ assinado algures que determine o que é uma e outra, mas vai-se assumindo a distinção da seguinte forma (tentativamente):

A Web 3.0 podemos assumi-la como a evolução sobre a Web actual (2.0), tal como descrito acima; as regras do jogo não se alteram, mas a tecnologia que sustenta o jogo faz evoluir as possibilidades do que nela se pode fazer. Até mesmo o conceito de web semântica aqui se pode manter como válido, ou seja, a visão de Tim Berners-Lee de uma web onde qualquer máquina consegue aceder e interpretar qualquer tipo de data, sem “esbarrar” com protocolos ou linguagens que assim impeçam uma interoperabilidade global.

Já com a Web3 devemos explorar o conceito de um outro prisma, que é o de uma descentralização total. Um movimento a que parecem ter aderido alguns dos pioneiros da web actual para relançar a mesma com os mesmos princípios idealistas de outrora. Ou seja, devolvendo à web a sua natureza totalmente aberta e sem qualquer interferência de muitos ou de poucos para a “conduzirem” e decidirem, transformando-a numa verdadeira entidade autónoma, orgânica e sem poderes com capacidade para a alterar, muito menos os actuais (financeiros, tecnológicos, regulatórios…). E para tal acreditam e baseiam a viabilidade da Web3 na Blockchain e nos NFTs, sem walled-gardens a dominar, sem entidades aglutinadoras, sem autoridades decisórias ‘per se’ e entre si.

Alguns dos que defendem esta nova web colocam inclusive a seguinte ilustração para explicar o conceito:

— Uma sociedade pré-web rege-se por bancos centrais e governos locais:

— A web atual pelos GAFA e outras Big Tech;

— A Web3 reger-se-á pela matemática.

A defesa é que a Web3 trará a real independência e liberdade, considerando que a web actual não o permite, a partir do momento em que basta actuar sobre algumas empresas (de novo as Big Tech) para alguém conseguir invadir e hackear sistemas ou ter o quase total controlo e impedir outrem de ter uma presença digital. Ao invés, na Web3, por ser uma web totalmente não censurável e controlável, só assim a premissa de uma “verdadeira web” pode ser verificada.

O paradigma pode parecer e ser revolucionário, lembrando que desde milénios que confiamos em instituições que são quem rege, gere, decide, intermedeia, determina as regras de quem tem o quê, quem deve a quem, etc. Neste novo conceito de Web3, as instituições são abolidas pois, acreditam os seus arquitectos serão sempre falaciosas pelo simples facto de serem geridas por… pessoas, e as pessoas são falíveis (são humanas, são passíveis de enviesamentos pessoais, são corrompíveis, etc.). Dessa forma só um sistema não corrompível (daí a raiz assente na matemática) e verdadeiramente descentralizado pode ser a solução como “instituição reguladora e verificadora”.

Por que é isto importante e por que figuras como Jack Dorsey, fundador e ex-CEO do Twitter que saiu (novamente) para se dedicar à blockchain noutra sua empresa (agora baptizada de Block, antiga Square) estão na ribalta das notícias por estes dias? Apliquemos então os conceitos acima ao contexto do Twitter. Se tudo aquilo que você faz hoje no Twitter é propriedade do Twitter (que guarda as suas publicações nas suas bases de dados e monetiza depois com o tráfego a plataforma Twitter) numa visão Web3 tudo aquilo que você publica em qualquer rede social é propriedade do utilizador, é sua, e não da plataforma, podendo mover para qualquer lado a foto, o post, o vídeo, podendo apagar, reescrever, vender, licenciar os seus tweets guardados sob a forma de NFTs, portanto podendo ser você a monetizar o que você escreveu/publicou em qualquer plataforma. Há lá conceito mais provocador para se debater à mesa da reunião?

Esta até poderia ser a explicação para a saída do cargo de CEO do Twitter de Jack Dorsey… só que não. O próprio Jack Dorsey fez questão de tweetar recentemente (a par de Elon Musk) que desacredita na Web3 e argumentando que será apenas mais uma web onde nada muda porque serão os mesmos poucos a mandar: a saber, as venture capital firms que já hoje estão por trás dos que já mandam na Web2.0 pelas mesmas razões de sempre – porque acham que aí fazem mais dinheiro do que ali.

Portanto, se Musk e Dorsey parecem estar mais centrados na blockchain para a Web2.0 evoluir numa Web3.0, outros são os que apostam numa Web3, verdadeiramente descentralizada e tentativamente/conceptualmente fora do domínio de muitos ou de poucos, numa nova arquitectura que pode mudar, acreditam, a sociedade por completo.

Se assim será, para melhor ou para pior, veremos. Até porque muito disto que aqui falamos ocorreu neste milénio e à velocidade exponencial verificada teremos certamente uma boa imagem lá para os finais da presente década. Um facto é evidente: os investimentos em tecnologias e empresas ligadas à blockchain não cessam de aumentar, até porque servirá tanto uma visão como outra. E num ponto ambas as abordagens alinham: Web3 ou 3.0 pelo menos no número estão de acordo.

*Por Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital e docente na Católica Lisbon School of Business and Economics

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