Um ano em branco

Por a 18 de Janeiro de 2022

Luís Mergulhão, CEO do Omnicom Media Group Portugal

Interessante, o ano que agora começa. Temas velhos tornados novos, temas mortos que são ressuscitados, temas esperados pelo evoluir das circunstâncias, e temas inesperados, por novos, e como tal desafiantes.

Um ano, assim, por escrever e, por isso mesmo, um ano onde poderemos deixar uma forte e inovadora impressão digital.

Inflação: Mais do que a inflação, que já está aí – por ela própria importante – é relevante como as pessoas a vão incorporar no seu quotidiano comportamental e de consumo; quanto às empresas, essas, na maior parte dos casos ainda não existiam ou já não têm memória dos tempos em que a inflação era uma realidade, e os seus gestores actuais não têm experiência ou conhecimentos (salvo raras excepções de vivências noutros continentes), de como actuar e gerir negócios num ambiente inflacionista. Os bancos centrais, os governos, poderão de alguma forma tentar atrasar o seu crescimento, mas ela já se instalou e veio para ficar.

E-commerce: Tornado uma realidade, mas na maior parte das marcas uma realidade atemorizante, mesmo tendo muitas delas já uma larga presença em plataformas digitais. É um negócio sem fronteiras, onde a logística se tornou parte do negócio, e onde a data é parte imprescindível para o desenho da oferta, de alternativas para a sua escassez, e para os contactos e argumentos/narrativas de prescrição. Se nem o Google escapou de um susto com a entrada da Amazon em Portugal (nem precisou de se instalar, basta Espanha e um parceiro logístico português de peso, os CTT), o que não terá acontecido com as outras empresas, muitas delas sem terem sequer um core tecnológico?

Talento: Falta de talento para novas áreas e competências necessárias para dar resposta aos desafios que se colocam às marcas. Podem desculpar-se com os salários baixos (de que infelizmente beneficiam), podem desculpar-se com o êxodo dos jovens (para onde, nos dias de hoje?), mas a realidade é outra: não só o nosso sistema de ensino não está preparado para gerar conhecimentos novos e avançados – nem o podia estar por não haver procura interna das empresas nessas áreas –, como, na realidade, muito desses conhecimentos nas áreas tecnológicas e de data science e analytics são verdadeiramente adquiridos on-the-job, live. Acresce que muitas empresas pararam de criar internamente essas capacidades, por pressões derivadas do corte de investimento e de recursos humanos, ou simplesmente porque o país “é pequeno”, embora queiram cá vender.

Conteúdos: Cada vez mais importantes, cada vez mais valiosos. Num início de ano em que se soube que os direitos autorais das canções de David Bowie foram vendidos por 250 milhões de dólares à Warner, sabemos bem que a luta pela compra deste tipo de direitos autorais vai determinar a sobrevivência (ou não) de muitas plataformas de distribuição de conteúdos, sejam de entretenimento, de ficção, de jogos ou informativos.

Ameaças: Algumas das quais já são realidade em termos mundiais ou em determinadas regiões: crescentes restrições à livre circulação de bens e serviços em termos mundiais; taxas alfandegárias erráticas e por vezes galopantes; instabilidade/especulação nos preços tanto de comodities agroalimentares como de energia, sob o pretexto das mudanças climáticas ou dos aumentos das tensões políticas; eminentes restrições à livre circulação de data, em prejuízo das empresas e países mais fracos ou frágeis.

Fait-divers: Mudança (sempre atrasada, nada de novo aqui, muda apenas a justificação) de um sistema de medição de audiências de televisão já com mais de 10 anos; privatização da RTP de novo na “baila”, falta de receitas dos privados “oblige”.

Grave: O ciberataque à Impresa, por tudo o que isso significa, mas também como um mostruário do que pode acontecer a qualquer empresa ou instituição, quer sejam invocadas “boas” ou “más” razões para esse facto, ou mesmo não sendo dito nada. O feito é, per se, devastador.

Estamos no início do ano: Uma folha em branco é bom. Podemos escrever nela, errar, riscar e voltar a escrever. Talvez mesmo passar a limpo e chamar-lhe caminho, visão, propósito. Uma folha em branco nunca é uma derrota. Excepto se for amarrotada, deitada ao lixo. Mas esse não é o nosso papel, nem a nossa obrigação. Pelo contrário, temos de raciocinar, começar de novo, não deitar fora o património de ideias, de clientes, de parceiros. Temos de acreditar nas pessoas, chamá-las para junto de nós, trabalhar com elas, seja isso empresas, marcas ou equipas. Temos de investir. Temos de não ter medo de ter medo. Pois o risco é isso, mas a inovação também.

*Por Luís Mergulhão, CEO do Omnicom Media Group Portugal

Deixe aqui o seu comentário