Meta em versão beta, ou metapeta?

Por a 4 de Novembro de 2021

Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

Zuckerberg parece decidido a reinventar a internet. Ou será apenas uma forma de desviar as atenções das polémicas em torno o Facebook e do Instagram e salvar a empresa no longo prazo? A verdade é que a conversação em torno quer da marca corporativa META quer do mundo virtualizado captaram atenção e debate. E poderá haver algumas razões para isso.

Meta refere-se etimologicamente a uma “meta-chave”, um comando no teclado onde, assim pressionada a tecla em simultâneo com outra, ativa dessa forma uma função. Será talvez um detalhe, mas serve para introduzir os acontecimentos recentes. De recordar: entre os vários GAFA, o Facebook terá sido a empresa mais exposta aos recentes escrutínios do Congresso Americano, mas quiçá por mea culpa da própria empresa, desde o escândalo da Cambridge Analytica até agora aos Facebook Papers… talvez porque não tenha endereçado o tema tão seriamente quanto devia.

Enfim, o ano horribilis de 2020 já lá vai e 2021 quase no fim. Viva portanto 2022, o ano do Metaverso e do crescimento da empresa mãe, agora batizada de META.

Mas afinal, para que precisamos de mais uma novidade?

Convém explicar aos leitores de que não há uma novidade em termos de conceito. É, aliás, já bastante datado na literatura de ficção científica. E se em 2002 nascia a primeira verdadeira rede social digital – o Friendster – a verdade é que só com o MySpace, Linkedin, Hy5, Twitter e Facebook as redes sociais se aprimoraram no que hoje é a realidade para milhões de utilizadores. Mas já nessa altura havia algo chamado Habbo (menos popular em Portugal) e Second Life. Corria o ano 2000 no primeiro caso e de 2003 no segundo, com a Linden Lab a prometer uma rede social em formato 3D onde podíamos imaginar-nos com avatares em mundos fantásticos. Para quem não viveu isto, pode sempre ir à caixa de pesquisa da internet ou imaginar um Fortnite mas em versão Spectrum (ok, os mais novos poderão também não perceber esta parte… adiante.)

Zuckerberg surge agora a apostar tudo (juntamente com a sua equipa de Relações Públicas) no Metaverso. Como se de repente a sua divisão de realidade virtual, a OCULUS RIFT, tivesse passado para primeiro plano. Mas não é bem assim. A aposta nesta ideia já remonta a 2014 quando Zuckerberg comprou a Oculus por 2 mil milhões de dólares (ainda assim bem menos que os 4 mil milhões em dinheiro e mais 12mM em acções pagos pelos Whatsapp). Mas os tempos eram outros. Quem queria saber de realidade virtual em 2014? Adiante.

Voltemos a 2021.

A verdade é que já não é apenas a META a defender o metaverso. Também a Microsoft já se juntou ao movimento e lançou uma camada de realidade virtual na plataforma Teams (anunciada no seu evento Microsoft Ignite). Depois disso veio a Nike. E de certeza mais se seguirão. Ao que parece, voltaremos aos tempos da luta do sistema operativo mobile, qual Windows, Nokia, iOS ou Android, onde agora no Metaverso cada GAFA quererá ser o vencedor e definir a propriedade de um dos metaversos que vingará (e neste ponto Zuckerberg aposta numa abordagem a-la Android, querendo criar um ecossistema aberto onde todos possam contribuir com hardware e software).

Olhando para os tempos mais recentes, pós-Covid, focando a atenção nos jovens e jovens adultos, para eles este conceito metaverso, esta para-realidade, não é mais do que uma simples alternativa para conjugar com quaisquer outras. Nada é melhor ou pior. Simplesmente são mundos possíveis de acordo com o ‘mood’ do dia e dos amigos com quem queremos estar. Tanto é plausível uma saída à noite com os amigos ao restaurante, como um concerto ao ar livre, como um evento no Twitch ou no Fortnite.

Mas, e aqui tendo a concordar com a publicação The Verge, poderá haver algo mais neste nascimento da marca META do que simplesmente querer tapar a má fama criada em torno do aborrecido Facebook e do inundado Instagram. Pode, tão simplesmente, ser apenas Sillicon Valley a ser Sillicon Valley. Ou digo eu por outras palavras, se a web 1.0 morreu há 20 anos, se a web 2.0 se uniu à IA, machine-learning, mobile, cloud computing e 4G, porque não fazer emergir a web 3.0 com a computação quântica, o 5G e a realidade virtual (finalmente)?

Se Hollywood varre desesperadamente o planeta à procura do próximo franchise capaz de gerar parques temáticos, merchandising e décadas de sequelas (o que vem a seguir dos super-heróis?), talvez para Sillicon Valley e as milhares de Venture Capitals seja a altura ideal para criar a “next big thing” para onde fazer confluir novas bolhas e startups, porque depois da ida ao espaço e a Marte por parte de Elon Musk e Jeff Bezos alguém tem de continuar na Terra a cuidar dos negócios, e os negócios precisam de algo em que todos acreditemos e depositemos confiança no que será a próxima vaga.

Zuckerberg está confiante de que será esta. E já vimos que não está sozinho. Olhando para a conferência Connect de há poucos dias, onde o Facebook (perdão, a empresa META) apresentou as suas novidades, nada há que não reitere esta aposta. O mundo não deu sinais de precisar um metaverso, mas também não disse que não. E se a idolatria em torno dos GAFA advoga que são eles quem mais percebe disto, olhando para a evolução bolsista, como duvidar?

Os investidores precisam de acreditar que há algo mais para além das redes sociais (“Been there! What’s next?”). São já apenas crescimentos incrementais mas não exponenciais. O próprio Zuckerberg percebe que face ao TikTok já não conseguirá fazer nada de muito diferente no Instagram que não seja replicar fórmulas (tal como já havia feito no Facebook e depois no Instagram). E os jovens adultos de hoje serão os adultos consumidores de amanhã. Esses que daqui a 10 anos comandarão as tendências das decisões de compra. Curiosamente ou não, este é o tempo que a tecnologia precisa para amadurecer, democratizar e massificar para tornar o metaverso palpável a todos (e valer triliões! “Ladies and gentlemen, place your bets!”).

Ninguém quer investir hoje para vender ações amanhã com 4% a 10% de margem de rentabilidade quando pode comprar hoje e acreditar que daqui a 10 anos fará 500% ou mais. E no mundo das BigTech há inúmeros exemplos disso (sim, vamos evitar aqui falar das NFTs, embora também isso se possa vir aplicar aos metaversos).

O mundo crê que a evolução passa por dar o salto em novas plataformas que nos maravilharão na forma de nos ligarmos uns aos outros tal como sucedeu há mais de 10 anos com as redes sociais. Porque não haveria de ser assim novamente num mundo digital que sabemos corre a uma velocidade incompreensível? Aliás, quanto mais entendível for uma ideia, é porque não vale grande coisa; só vale se a disrupção for ininteligível (diz-se… mas eu não vou por aí).

A realidade é que sendo por motivos de distração da opinião pública ou por crença absoluta no conceito (diz o Facebook que está a investir 10 mil milhões num ecossistema para hardware e software), o tema pegou. E se pegou, não é apenas porque Mark Zuckerberg esteja a insistir nele, mas porque desde há décadas que vivemos fascinados por livros de ficção científica sobre mundos paralelos, universos distantes e uma realidade alternativa, pelo que de mais fascinante todas estas pontes para o futuro têm: fazer-nos sonhar.

E disso não há dúvida. A nova marca META já o conseguiu – fazer-nos sonhar, imaginar algo novo, perigoso, tumultuoso, fascinante, delirante, incrível, estranho e austero, mas cativante. Poderemos achar que pode ser suspeito, vindo do Facebook, mas abstraindo-nos disso e sabemos cá no âmago que queremos explorar. Porque somos inevitavelmente atraídos pelo novo, pelo desconhecido, pelo estranho, pelo incrivelmente perigoso e inexplorado. E essa tentação nata de avançarmos a desbravar novos mares está gravada no nosso ADN.

A preocupação, novamente, tal como sucedeu com a emergência brutal e desregulada das redes sociais, é que não sabemos com que custo. E pelo meio estão vidas, empresas e todos os que delas dependem. Os jovens logo cedo explorarão essas plataformas de forma pioneira, sabendo nós todos que nos primeiros anos tal como sucedeu com os GAFA no início do milénio crescerão sem regulação nem controlo, incompreendidas, com um halo de fascínio inebriante. Anos depois, lá saberemos dos impactos que provocaram. E vamos ter de nos adaptar.

O universo está repleto de estrelas, mas também tem buracos negros. Venha pois o metaverso. Onde se compra o kit de instalação?

*Por Ricardo Tomé, director-coordenador da Media Capital Digital e docente da Católica Lisbon School of Business and Economics

 

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