APCT: Imprensa generalista incapaz de contrariar erosão das vendas no papel

Por a 30 de Novembro de 2021

As quebras na circulação impressa paga não pouparam nenhum dos títulos generalistas nos primeiros nove meses de 2021, período no qual praticamente todas as publicações sofreram recuos na ordem dos dois dígitos. A excepção foi o Expresso, com uma quebra menos expressiva, ao recuar 2,6% face à circulação impressa paga registada no período homólogo. Mesmo com o crescimento no digital registado por vários títulos, o balanço final continua a ser negativo para a maioria das publicações. Só Expresso e Público conseguem compensar as quebras no papel e alcançar uma evolução positiva da circulação paga.

Os números divulgados pelo mais recente relatório da APCT, relativos ao período compreendido entre Janeiro e Setembro deste ano, dão conta das dificuldades enfrentadas pela imprensa portuguesa na tentativa de contrariar uma tendência de erosão das vendas no papel que já se fazia sentir há vários anos e que acabaria por ser agravada, no último ano, com a chegada da pandemia. Mesmo após a reabertura dos quiosques e passada a fase de maiores restrições à circulação de pessoas, praticamente todos os títulos de informação geral voltam a perder expressão nas bancas nestes primeiros nove meses de 2021. A excepção continua a ser o Expresso, título que, depois de ter sido aquele que melhor resistiu à covid-19 em 2020, volta agora a surgir como caso isolado ao ser o único generalista a crescer, ainda que residualmente, nas vendas em banca. O semanário da Impresa vendeu nas bancas, em média, 52.665 exemplares por edição entre Janeiro e Setembro de 2021, um pouco mais do que os 52.453 exemplares vendidos em banca no período homólogo (+0,4%).

No entanto, o semanário da Impresa, que tinha sido também o único a apresentar uma evolução positiva da circulação impressa paga no relatório do primeiro semestre, não escapa agora às quebras que afectam todos os generalistas. Apresenta, ainda assim, a quebra menos expressiva, fixando-se nos 54.793 exemplares vendidos por edição, em média, nos primeiros nove meses de 2021, números que traduzem uma diminuição de 2,6% relativamente aos 56.270 exemplares vendidos em igual período de 2020 mas permitem manter o estatuto e jornal com maior circulação impressa paga no mercado português, assumido pela primeira vez no primeiro semestre deste ano.

O Correio da Manhã, que historicamente tem mantido esse estatuto ao longo dos anos e vendia, em média, 59.193 exemplares por edição entre Janeiro e Setembro de 2020, ocupa agora a segunda posição com 52.041 exemplares vendidos, em média, nos primeiros nove meses deste ano. O diário da Cofina regista assim uma quebra de 12,1%. O Jornal de Notícias, que continua a ser o terceiro jornal mais vendido, apresenta igualmente uma evolução negativa. O título detido pelo Global Media Group desce de uma média de 28.665 exemplares vendidos por edição entre Janeiro e Setembro do último ano para uma média de circulação impressa paga de 23.833 exemplares nestes primeiros nove meses de 2021, uma quebra de 16,9%.

A tendência de quebra estende-se ao Público e ao Diário de Notícias. Com uma média de 11.922 exemplares vendidos por edição, o diário da Sonaecom regista uma quebra de 11,2% face aos 13.431 exemplares vendidos em média nos primeiros nove meses de 2020. Já o título detido pelo Global Media Group, o mais castigado entre a imprensa diária, recua 18,7%, passando de uma média de 3.466 exemplares vendidos por edição entre Janeiro e Setembro de 2020 para 2.817 exemplares em igual período deste ano. No entanto, recorde-se, o título da Global Media regressou ao formato diário desde o passado dia 29 de Dezembro, pelo que os números agora registados na circulação diária comparam com números de vendas de uma edição com periodicidade semanal no período homólogo em 2020.

No quadro geral, os números do mais recente relatório da APCT vêm confirmar que o mercado está ainda longe de recuperar dos danos infligidos pelo contexto pandémico sobre a venda de jornais. Correio da Manhã, Diário de Notícias, Jornal de Notícias e Público, os quatro diários generalistas auditados, venderam em média, e no seu conjunto, menos 14.142 exemplares por edição, o que representa uma queda na ordem dos 13,5% relativamente à circulação impressa paga registada entre Janeiro e Setembro de 2020, altura em que as vendas de jornais eram já significativamente afectadas pela pandemia.

Entre as newsmagazines as quebras rondam os 19,4%. Apesar de uma redução de 10,7%, dos 30.948 para os 27.639 exemplares vendidos por edição, a Visão mantém a liderança do segmento, assumida pela primeira no primeiro semestre deste ano. Para esse resultado contribuiu a quebra da Sábado, que vendia em média 32.867 exemplares por edição nos primeiros nove meses de 2020, caindo para os 23.795 exemplares vendidos em média no período entre Janeiro e Setembro deste ano, o que representa uma quebra na ordem dos 27,6% para a publicação detida pela Cofina.

Analisando isoladamente as vendas em banca, com a já referida excepção do Expresso, todos os outros títulos registam igualmente uma perda de expressão, agravada pelas restrições à circulação que voltaram a fazer-se sentir no primeiro trimestre deste ano e pelo encerramento de alguns pontos de venda em virtude do contexto pandémico. O semanário da Impresa regista uma subida de 0,4% nas vendas em banca. Em sentido contrário, com quebras na ordem dos dois dígitos, estão o Diário de Notícias (-43%), Jornal de Notícias (-14,7%) e o Correio da Manhã (-11%). Com quebras menos acentuadas surgem a Visão (-8,6%), o Público (-7,14%) e a Sábado (-7,06%).

Os números do digital

O Expresso reforça o estatuto de líder no digital ao ver a sua circulação digital paga atingir os 48.114 nos primeiros nove meses deste ano, uma subida de 17,5% relativamente ao período homólogo do ano anterior. O Público, que permanece na segunda posição no digital, encerra os primeiros nove meses deste ano com uma circulação digital de 39.475, que compara com os 30.079 registados entre Janeiro e Setembro do último ano. Além dos dois títulos que se destacam na circulação digital paga em Portugal, só o Correio da Manhã, o quarto em circulação digital paga, regista também uma evolução positiva. O diário da Cofina apresenta um crescimento na ordem dos 58,3%, passando dos 1.527 para os 2.417.

Em sentido contrário, os dois títulos do Global Media Group somam às quebras no papel um recuo também na circulação digital paga nestes primeiros nove meses de 2021. O Jornal de Notícias, que se mantém como o terceiro título em circulação digital paga, desce dos 7.871 para os 3.879 (-50,7%). Já o Diário de Notícias desce dos 3.978 para os 2.097 (-47,3%) entre Janeiro e Setembro deste ano. Entre as newsmagazines, a Visão, que assumiu este ano a liderança do segmento na circulação impressa, cedeu, por outro lado, a posição no digital. A publicação editada pela Trust in News vê a sua circulação digital paga recuar 7%, para os 2.345, números insuficientes para suster o incremento alcançado pela Sábado, detida pela Cofina, que dispara 237,6% no digital, passando de apenas 1.307 para 4.417.

Apesar do crescimento registado por vários títulos na circulação digital paga, continuam a ser escassos os casos em que este incremento se revelou capaz de compensar as quebras registadas na circulação impressa paga. Expresso e Público são os únicos títulos de informação geral a registar saldo positivo, com crescimentos igualmente ao nível da circulação total paga. No caso do Expresso, que lidera na soma da circulação impressa paga e da circulação digital paga, com 102.907, o recuo de 2,6% na primeira é compensado pelo crescimento no digital, com a circulação total paga a subir 5,85% nestes primeiros nove meses de 2021 quando comparada com os números alcançados no período homólogo de 2020 (97.223).

Também com balanço positivo, o Público compensa a quebra de 11,2% na circulação impressa paga graças a um crescimento de 31,2% na circulação digital que coloca a circulação total paga nos 51.397, uma subida de 18,1%. Com saldo negativo ficam o Correio da Manhã, com 54.458 (-10,3%), o Jornal de Notícias, com 27.712 (-24,2%) e o Diário de Notícias, com 4.914 (-34%). Nas newsmagazines, também com saldo negativo, a Visão lidera com 29.984 (-10,4%), seguida pela Sábado, com 28.208 (-17,5%).

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