“Uma das coisas que quero é voltar à ficção o mais depressa possível”

Por a 28 de Outubro de 2021

Carlos Rodrigues, director do Correio da Manhã e da CMTV

Carlos Rodrigues assumiu há quatro meses a liderança do Correio da Manhã e da CMTV. Em entrevista ao  M&P traça os objectivos para os projectos e analisa o mercado.

Meios&Publicidade (M&P): A CMTV canibaliza de alguma forma o CM?
Carlos Rodrigues (CR): O discurso da canibalização da CMTV em relação ao papel é uma falsa questão e explico muito facilmente. Sem a CMTV a operação do CM seria hoje muito menor, basta ver por exemplo a operação de outros jornais que não têm um projecto televisivo agregado. Se pensarmos que alguém deixa de comprar o jornal porque vê na televisão – coisa que mesmo assim acho que não acontece -, temos que pensar no outro lado, que a operação do papel, sem as receitas, sem o enquadramento e força da televisão, seria muito inferior. Não há canibalização, pelo contrário, há potenciação. O CM hoje é potenciado pela força da marca CMTV. Aliás, um dos desafios, que faz também parte do plano estratégico, é que o CM tem que se afastar um pouco da televisão. Por uma questão simples, cada vez mais o CM é o jornal da CMTV. E nós precisamos de distinguir muito as marcas.

 

M&P: Já acontece? Inverteu.
CR: Já acontece. E nós temos que reafirmar, para nós é uma evidência, para o público que nos compra também, e para público que não nos compra também deve ser, que o CM tem uma personalidade única e inigualável, mesmo em relação à CMTV. A CMTV ao fim de quase uma década já tem uma força e personalidade própria. O papel deve emancipar-se da televisão.

 

M&P: A CMTV concorre com quem?
CR: Com todos os canais de cabo.

 

M&P: Mais com os canais de informação ou generalistas? Habitualmente dizemos que é um canal de informação, mas está registado como generalista.
CR: Está registado como um canal generalista na ERC, aliás paga taxas superiores por isso, porque tem conteúdos que não só informativos. Historicamente o grande desafio nos canais de cabo internacionais foi “quando não há notícias, como é que se ocupam os tempos mortos”. E aí há diversas propostas. A SIC Notícias faz ou com programas de golfe, de publicidade, com outro tipo de entretenimento. A TVI24 já fez com jogos de futebol, hóquei e basquetebol. A RTP 3 ocupa com os enlatados da CNN, que dá imensos. Nós ocupamos com entretenimento ligeiro. Com uma proposta muito clara. Qual é a diferença estre estes quatro canais? É que nós dizemos claramente ao espectador que damos todo o tipo de conteúdos. Porém, sempre que há uma notícia pára tudo. Temos uma agilidade de grelha total, porque estamos permanentemente escravizados com a prioridade à informação. Porquê generalista? Porque temos uma proposta clara de ocupação dos tempos em que a informação não se impõe como prioridade absoluta. Com entretenimento ligeiro, com o Manhã CM e Tarde CM. Mas somos muito claros na comunicação com o telespectador: assim que há notícias pára tudo. Concorremos directamente com os nossos canais gémeos: SIC Notícias, TVI24 e RTP3.

 

M&P: Ainda têm potencial de crescimento? É preciso somar todos os outros para chegar aos vossos números.
CR: Temos mais do que todos os outros juntos. Estou convencido de que um canal deste género é um canal que os portugueses terão cada vez mais em casa como companhia permanente. Não sei qual é o tecto, nem sequer se terá um tecto. Porém, vamos acrescentar-lhe conteúdos. Uma das coisas que quero é voltar à ficção o mais depressa possível. Tem é que ser uma ficção que seja adaptada ao público da CMTV.

 

M&P: Estamos a falar de novela?
CR: Estamos a falar de formatos adaptados ao público e ao ADN da CMTV, nem mais nem menos.

 

M&P: A experiência da novela não correu bem, tanto que foi interrompida.
CR: A novela mudou de horário, foi emitida na íntegra. O conceito de novela é um conceito de ficção longa. A análise que hoje faço é que não se adequa ao público-alvo da CMTV. O público-alvo gosta do seu canal porque é um canal da realidade, somos a televisão da realidade, da realidade portuguesa. Também a ficção tem que ser destinada ao público que a própria CMTV criou. São formatos particulares, específicos e diferentes, se calhar não existem em mais lado nenhum, mas que vamos ter. Na televisão há dois pontos fundamentais, um é irmos em direcção à ficção e o outro é vermos como é que enfrentaremos o desafio do streaming. É fundamental.

 

M&P: Ainda na ficção…
CR: Será ficção de proximidade. A dessintonia entre a CMTV e o formato novelas é esse, o formato novelas é para um público que não é o da CMTV. Percebemos isso de uma forma abrupta, no ar – nós responsáveis do canal, não me estou a pôr de fora -, mas temos que entender os sinais que nos deu.

 

M&P: Qual é o formato ideal? Séries, filmes?
CR: Não penso que seja ainda o tempo… Gostamos de falar do que fazemos e não do que vamos fazer. Não fazemos grandes anúncios. Vamos voltar à ficção. Somos uma empresa que fez ficção de determinada forma, não é a adequada, vamos mudar. Aprendemos com o público.

 

M&P: Em que horário é que pode entrar a ficção?
CR: Depende de que fiçcão for e que grelha for. Sempre com um princípio, se houver notícia a ficção caí. Prefiro falar do que já fiz, já criámos um jornal diferente num horário onde havia um grande potencial de crescimento, que era às 11h, estamos a criar outro jornal em outro horário no qual precisamos de crescer, que é o Directo CM às 17h, reforçámos a proposta de late night ao fim-de-semana com novas edições do Rua Segura Extra. Isto são coisas que já fizemos, que as pessoas podem avaliar.

 

M&P: O regresso à ficção vai aumentar os custos de grelha.
CR: Necessariamente, isso é óbvio. Mas sempre com os pés bem assentes na terra. Se há coisa que posso afiançar é que as decisões do grupo Cofina são sempre economicamente sustentáveis. E isso é condição sine qua non. Apesar de termos tido essa dificuldade com o tema da novela continuamos muito saudáveis financeiramente, isso nunca colocou em causa a sustentabilidade do projecto. Porquê? Tomamos sempre decisões racionais.

 

M&P: Streaming, o outro tema?
CR: Esse então é ainda mais para o futuro. Temos que enfrentar esse problema, mas ao modo CM. Temos que enfrentar os desafios todos. As pessoas às vezes não entendem… Quando um canal nasce, fica para sempre. Enfim, hoje em dia dizermos isto já é perigoso por causa da morte da TVI24, mas a CMTV ficará para sempre. E para ficar para sempre tem que crescer sempre, tem que fazer coisas novas, tem que encontrar novos públicos, ter novas ideias, contratar jovens, contratar pessoas que pensam foram da caixa.

 

M&P: A Cofina é um grupo sólido, mas é com frequência que se fala da hipótese de ser vendida.
CR: Terá que perguntar ao accionista. Acho que não vai acontecer, mas tem que perguntar aos accionistas. Nós trabalhamos só a pensar no espectador e no leitor, isso é fundamental. Fazemos jornalismo livre e vamos continuar a fazer.

 

M&P: Há poucos grupos, ou até títulos, lucrativos.
CR: Infelizmente, muito poucos mesmo. Até penso que seja só a Cofina e a Impresa. A Media Capital dá prejuízo, a Global Media prejuízo dá. Acho que também há um desafio de gestão, que é importante enfrentar. Mas a mim cabe-me só falar do CM e da CMTV. Continuaremos a tomar sempre todas as decisões com base no interesse do leitor e dos espectadores e esse interesse implica que sejam produtos lucrativos.

 

M&P: Em Março de 2023, quando o CM comemorar os 44 anos, o que é que conta anunciar?
CR: Aí estará concluída e nas bancas a reestruturação que está em marcha no jornal, para mantermos o público que temos e procurarmos novos públicos. A CMTV vai continuar líder e no site vamos continuar a aumentar as receitas. Se tivermos estas três condições cumpridas a equipa terá tido sucesso. Talvez com algumas mulheres também já na equipa.

* A entrevista completa pode ser lida na edição nº895

Deixe aqui o seu comentário