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“Os negócios de conteúdos têm apresentado uma performance financeira e de valorização muito apetecíveis”

Por a 1 de Julho de 2021



Miguel Chambel analisa o sector do cinema, numa altura em que a Cinemundo vai passar a distribuir o catálogo da Warner Bros em Portugal, que até aqui era da responsabilidade da NOS

A Cinemundo foi fundada em 2014, com dois canais de cinema no portfólio: Cinemundo e DStv Pipoca, “mas foi progredindo para o digital, cinema e licenciamento de conteúdos, sempre com o acesso ao retalho a partir de uma extensa rede de parceiros em cada uma das actividades. A nossa disponibilidade de ocupar espaços livres no mercado foi recompensada com um crescimento consistente e que recentemente se tem mostrado resiliente aos fortes impactos da pandemia”, descreve ao M&P o CEO da Cinemundo, Miguel Chambel. Entretanto, a empresa de capitais nacionais vai passar a assegurar a distribuição do catálogo de cinema da Warner Bros em Portugal, que até aqui era da responsabilidade da NOS. O acordo tem efeitos a partir de Julho e representa cerca de 35 por cento do mercado nacional de cinema em sala. A Cinemundo tinha desde Abril de 2020 o catálogo da Universal Studios, detendo até aqui uma quota de 9,3 por cento do mercado. As vendas da Cinemundo passaram de 3,6 milhões de euros em 2015 para os 6,2 milhões em 2019. Em 2020 situaram-se nos cinco milhões. Em entrevista, o ex-CEO da Zon Lusomundo Audiovisuais e ex-CEO da Dreamia analisa as oportunidades de mercado.

Meios & Publicidade (M&P): A Cinemundo reforça a área da distribuição num momento complicado para o meio cinema. Como é que avalia a retoma do sector em Portugal?

Miguel Chambel (MC): Acreditamos que o negócio de cinema, nomeadamente na sua componente de exibição cinematográfica em sala, é sustentável e viável a longo prazo. É um negócio que, mesmo com o decréscimo das camadas mais jovens da nossa população, tem crescido de forma regular nos últimos anos — excluindo o impacto da pandemia —, demonstrando uma propensão crescente dos portugueses para irem ao cinema em sala. Neste momento, o negócio ainda está muito impactado por restrições legais à operação, nomeadamente horários, ocupação, exploração de venda de bebidas e comida, pela disponibilidade de lançamentos fortes e pelo conforto de várias faixas da população para estar em espaços fechados. Mas há uma evolução positiva em todos estes indicadores e o inegável impacto da crescente vacinação irá continuar a reforçar esta tendência. Sabemos de outros mercados, nomeadamente China, Japão, Coreia, mas mesmo exemplos mais próximos como França, que a retoma do hábito de ir ao cinema é relativamente rápida para, pelo menos, 70 a 80 por cento dos valores históricos. E acreditamos que o “intervalo” que falta é facilmente explicável pela conjugação da falta de produto que precisa de um mercado mundial para ser reposto.

M&P: Os sucessivos confinamentos vão levar os portugueses a trocar o cinema em sala pelas plataformas de streaming?

MC: O streaming e a sala de cinema são experiências complementares e não substitutas. Ambas têm o seu espaço na preferência dos consumidores. O importante é ter cada vez mais opções para disfrutar de bom cinema. Claro que, durante o confinamento, o streaming teve de preencher uma componente acrescida das necessidades de entretenimento, mas as pessoas estão com muita vontade de regressar ao cinema. Esse regresso vai já poder ser feito este Verão com títulos que precisam de ser vistos em sala como Velocidade Furiosa 9, Bem Bom, O Esquadrão Suicida e muito outros. As salas vão ter muitos títulos imperdíveis nos próximos meses e para todos os públicos.

M&P: Os próprios estúdios norte-americanos não estão a reconfigurar os seus negócios tendo em conta as novas formas de consumo de cinema? A Warner e a Discovery fundiram-se recentemente, sendo público que um dos eixos de desenvolvimento será uma nova plataforma de streaming para concorrer contra o Netflix e o Disney+.

MC: Sim, todos os negócios estão em permanente reconfiguração. É uma reconfiguração hiperacelerada nas últimas duas décadas pelo binómio digitalização e globalização. Os conteúdos e os media são um dos sectores onde a evolução de modelos de negócio mais se tem sentido. Mas, curiosamente, se compararmos a percentagem de receita dos seis principais estúdios americanos — Disney+Fox, Warner, Universal, Sony e Paramount, todos empresas cotadas e, portanto, com visibilidade sobre fontes de receitas —, o que vemos é que a percentagem de receita em sala de cinema sobe de 26 por cento em 2000 para 46 por cento em 2019. Contra-intuitivo? Não, se nos lembrarmos da evolução do negócio de DVD e Blu-Ray neste período. O streaming está a preencher mais este espaço de homevideo do que o espaço dos cinemas. O próprio tipo de produções em que estas plataformas tipicamente apostam está mais perto dos chamados títulos direct-to-video e da televisão do que dos grandes blockbusters de cinema.

M&P: O Miguel Chambel foi CEO da Lusomundo Audiovisuais, actual NOS, e esteve à frente da Dreamia, pelo que conhece os negócios de concorrentes como o canal Hollywood e os TV Cine e TV Séries. O negócio da distribuição é apetecível?

MC: Os negócios de conteúdos, nomeadamente os que têm integrada a componente de distribuição, têm apresentado uma performance financeira e de valorização muito apetecíveis nos últimos anos. Basta ver a evolução dos múltiplos de vários operadores nos mercados bolsistas ou as transacções recentes, como é o caso da MGM. Mesmo aqui ao lado, no mercado espanhol, o último ano tem assistido a várias transacções de empresas de distribuição de conteúdos por valores que eram impensáveis há cinco ou 10 anos. Aqui em Portugal, e no próprio grupo NOS, que sendo uma empresa cotada disponibiliza alguma visibilidade sobre as suas contas, podemos constatar que a margem EBITDA do segmento Cinema e Audiovisuais subiu de 36,1 por cento em 2013, o último ano em que lá estive, para 55,1 por cento em 2020. Neste momento, tem uma margem EBITDA claramente superior à do negócio de telecomunicações, por enorme mérito da actual equipa de gestão, mas são números que só são possíveis em negócios muito apetecíveis.

M&P: Com o acordo com a Warner Bros, têm como objectivo chegar ao primeiro lugar em termos de distribuição em Portugal?

MC: Temos a ambição de continuar pró-activamente a crescer de forma sustentada. Mas temos os pés no chão. Esse chão eram 4,6 por cento de quota em 2019, foram 9,3 por cento de quota em 2020 e acreditamos que poderá continuar a subir. Para o primeiro lugar há um caminho a percorrer e muitas valências que teremos de continuar a desenvolver.

M&P: O consumidor irá sentir alguma diferença pelo facto de a distribuição de filmes não estar concentrada num único operador?

MC: A teoria consensual é a de que os mercados com mais operadores são mais competitivos e desenvolvidos. Em mercados de baixa dimensão relativa, como o português, é importante não cair no extremo da pulverização que impeça uma escala mínima necessária à eficiência. No caso português, pensamos que uma maior proximidade de dimensões entre os maiores operadores será benéfica para a confiança dos agentes do próprio mercado que, muitas vezes, dada a integração vertical do maior operador, se confrontam com situações de comprador e vendedor único. Isto leva a que uma percentagem crescente de produto chegue ao nosso mercado apenas através de decisões globais com centros de decisão externos e que não têm em conta especificidades e nuances culturais do nosso mercado, que acreditamos serem importantes para preservação da nossa identidade, nomeadamente no que diz respeito ao “frágil” cinema português. A prazo acreditamos que será benéfico para os consumidores existirem vários distribuidores economicamente robustos com centro de decisão nacional, mas não existirão no imediato diferenças óbvias para o consumidor de retalho. Agora, se me pergunta se, para um grupo Jerónimo Martins, para uma Galp, para uma Delta Cafés, para uma Padaria Portuguesa, a existência de mais opções para acesso a conteúdos de cinema lhes pode dar maior confiança de integrar estes conteúdos na sua oferta como já fazem uma Amazon, uma Tesco, uma Nespresso ou uma McDonald’s nos seus mercados base e nas suas ofertas globais… Claro que sim, e por aí os consumidores portugueses poderão beneficiar de um ecossistema empresarial local mais forte e concorrencial.

M&P: O facto de assegurarem a distribuição dos catálogos da Universal Studios e da Warner Bros Pictures terá impacto na programação do canal Cinemundo?

MC: São actividades distintas. Apenas seremos distribuidores dos catálogos da Universal Studios e da Warner Bros para sala de cinema. Estes estúdios continuarão a fazer directamente os licenciamentos de conteúdos digitais e de televisão para Portugal. Desde o início da empresa em 2014 que licenciamos filmes da Universal Studios e Warner Bros para os nossos canais e não prevemos mudar substantivamente a nossa política de programação no curto prazo.

M&P: São também responsáveis pelo DStv Pipoca, que se apresenta como um canal de cinema integralmente falado em português, uma vez que conta com as dobragens do Brasil. Pode dar-nos uma ideia de como está o negócio da Cinemundo ligado à televisão?

MC: O canal DStv Pipoca é um elemento muito importante da nossa oferta ao disponibilizar para os PALOP uma oferta de cinema especialmente pensada para esses mercados. O canal é integramente falado em português com base nas dobragens que existem em português e em português do Brasil quando a versão de Portugal não está disponível. É importante entender que, em Angola e Moçambique, mais de 50 por cento da população tem menos de 15 anos. E que o acesso à internet é iminentemente feito por telemóvel, mas com fortes limitações de volume de tráfego, o que impede a prevalência de streaming que temos em Portugal, em particular nestas faixas mais jovens. É fácil concluir que o que o consumidor procura num canal de cinema em Portugal ou em Angola e Moçambique são produtos muito distintos. Daí o enorme sucesso de podermos fazer um produto a pensar num mercado específico. Essa é a essência de valor acrescentado de um distribuidor.

M&P: O canal Cinemundo está disponível na grelha da Meo, Vodafone, Nowo e DSTV. Alguma vez o canal entrará no operador NOS?

MC: Isso é uma pergunta que terá de colocar à NOS. Ou melhor, que os clientes da NOS terão de colocar ao seu operador, porque é que têm de se contentar com menos do que os outros.

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