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“O Tal & Qual vai apostar na leitura em papel”

Por a 4 de Junho de 2021


José Paulo Fafe, CEO da Parem as Máquinas, e Jorge Morais, director do Tal & Qual

As bancas vão contar com mais um semanário. O Tal & Qual regressa, às quartas, desta vez editado pela Parem As Máquinas. O CEO da editora, José Paulo Fafe, e o director do jornal, Jorge Morais, revelam o que se pode esperar da segunda série do icónico título fundado por Joaquim Letria

O semanário Tal & Qual regressa às bancas a 9 de Junho, com 16 páginas e preço de capa de um euro. “Será um jornal de informação geral. Vai mostrar o que está por detrás dos grandes temas, como os bastidores da política, da economia e da sociedade”, afirma ao M&P José Paulo Fafe, um dos nove sócios que compõem a Parem as Máquinas – Edições e Jornalismo, empresa responsável pelo regresso do título às bancas. O semanário, que sairá às quartas-feiras, tem como director Jorge Morais, jornalista que passou pelo República, A Luta, Correio da Manhã e O Independente, e foi director do Tal & Qual e do 24 Horas. José Paulo Fafe é o accionista maioritario e CEO da Parem as Máquinas – Edições e Jornalismo, empresa que vai editar o semanário. O Tal & Qual foi lançado em 1980 com oito páginas pela empresa Repórteres Associados, tendo sido vendido ao grupo suíço Edipresse e posteriormente à Lusomundo. Encerrou em 2007 com vendas a rondar os 10 mil exemplares. O titulo estava no portfólio da Global Media, que o cedeu por 10 anos à Parem as Máquinas. “Será um jornal para ler do início ao fim, bem escrito e para deixar as pessoas bem dispostas”, reforça José Paulo Fafe, que, no ano passado, juntamente com Gonçalo Pereira Rosa, lançou o livro “Tal & Qual – Memórias de um jornalismo”, que reunia as melhores histórias do tablóide que chegou a vender 150 mil exemplares por semana. A expectativa é que agora as vendas em banca rondem os sete a oito mil exemplares. A equipa do jornal tem dez pessoas, das quais sete na redacção. Joaquim Letria, fundador do título, assegura uma coluna de opinião na última página. O Tal & Qual estabeleceu uma parceira com dois jornais regionais: Minho Digital, de Manso Preto, e o Notícias de Coimbra, de Fernando Moura.

Meios & Publicidade (M&P): Esta nova vida do Tal & Qual é um projecto para se divertirem ou é um ponto de partida para uma nova editora que quer ser relevante no mercado?

José Paulo Fafe (JPF): É um misto. Não sabemos fazer jornalismo sem nos divertirmos, sem termos prazer no que estamos a fazer e sem que o leitor também se divirta, no bom sentido. Essa foi a filosofia do Tal & Qual ao longo dos 27 anos de existência antes de o terem morto. Este é um projecto de amigos, na maior parte dos casos de amizades que nasceram no Tal & Qual.

M&P: Foi na sequência do lançamento e da recepção que teve o livro “Tal & Qual – Memórias de um jornalismo” que decidiram avançar com o regresso do jornal?

JPF: De algum modo foi. Esse livro foi uma surpresa ao nível de vendas. Vendeu cerca de três mil exemplares. É um número que hoje em dia permite entrar no “book of records” lusitano em termos de vendas de livros. Percebemos que a marca Tal & Qual estava mais viva do que imaginávamos. Ainda dizia muito a pessoas que tinham sido leitoras, mas também a pessoas que tinham ouvido falar do Tal & Qual sem nunca o terem lido. Isso fez soar as campainhas de alarme entre nós. Começámos a falar da possibilidade de ressuscitar o Tal & Qual, de acordo com a disponibilidade do novo accionista da Global Media, o Marco Galinha.

M&P: O Marco Galinha sabia que o título era da Global Media?

JPF: Não sabia. Falei-lhe por mero acaso, em Cascais, sobre o jornal. No meio da conversa perguntei por que não cedia o título. O Marco Galinha, desde o primeiro momento, teve a disponibilidade para encontrar uma maneira de nos ceder o título. Foi aí que tudo começou. Paralelamente, fizemos as nossas contas, encontramos uma fórmula e uma metodologia de trabalho. A nível financeiro achámos que o projecto era possível.

M&P: Que contas foram essas?

JPF: As contas são simples de fazer: receitas e custos. Temos de ter receitas o mais elevadas que pudermos e os custos o menos elevados que pudermos. Uma das pessoas envolvidas no projecto tem muita experiência de gestão, não tem nada a ver com o jornalismo. Sentámo-nos, analisámos números e fomos vendo orçamentos. Chegámos à conclusão de que o jornal é perfeitamente exequível. É feito, em grande parte, pelo seus próprios accionistas. Precisamos de vender sete a oito mil exemplares. Não vamos dizer que queremos vender 40 mil exemplares. Aliás, quem é que hoje vende sete a oito mil exemplares? Depois, os capitais são próprios.

M&P: Quem está por detrás da Parem as Máquinas?

JPF: Nove sócios. Eu, Jorge Morais, António Nascimento, Paulo Delgado, Frederico Duarte Carvalho, Gonçalo Pereira Rosa, Miguel Major, António Baptista Lopes e Jorge Lemos Peixoto. Não há aqui um capitalista. Há condições asseguradas para os próximos meses, que nos dão algum conforto para não termos de fechar as portas dentro de dois ou três meses. Há orçamentos, prazos de pagamentos e recebimentos bem negociados. Agora temos de fazer um jornal que as pessoas gostem de ler e que comprem.

M&P: Estamos a falar de que valor de investimento?

JPF: Vinte mil euros. É que é mesmo vinte mil euros.

M&P: Quanto vão pagar à Global Media pelo uso do título?

Jorge Morais (JM): Isso está no contrato. Não me vou meter nisso, que é algo que está ao nível administrativo. Quando o livro foi publicado, não só percebemos que havia uma marca muito forte, com valor e eficácia do ponto de vista do mercado, como havia uma avidez por este tipo de jornalismo, que tinha sido o jornalismo do Tal & Qual.

M&P: Que especificidades tem este tipo de jornalismo?

JM: O Tal & Qual, na sua primeira série, distingue-se da generalidade da imprensa por seguir uma escola inglesa de jornalismo, enquanto a restante imprensa diária e semanal seguia uma escola francesa. O padrão inglês tem como objecto do interesse jornalístico tudo o que é do interesse público, não no sentido de o jornal ser um polícia da política, da economia ou da sociedade mas no sentido de contribuir para esclarecer a comunidade. Tudo isto é feito com uma linguagem acessível. Foram estes os princípios da primeira série do Tal & Qual. São princípios que consideramos essenciais na segunda fase do projecto, em que estamos agora: interesse público e linguagem acessível. A partir daí há um conjunto de ingredientes que ajudam a tornar isto num modelo, como por exemplo, o uso da língua portuguesa de uma forma descomplexada ou o recurso ao que podemos chamar a sabedoria popular. Grande parte da equipa vem da primeira série do jornal, queremos repetir essa linguagem. É uma linguagem muito coloquial, mas de grande respeito pela gramática. Existe um grande rigor pelo uso da língua mas ao mesmo tempo uma forma muito coloquial de contar a história. Se nós, a cada semana, por um preço de capa de um euro, com um número muito franciscano de páginas, conseguirmos trazer leitura de duas horas, que ao mesmo tempo seja esclarecedora e que desvende lados menos conhecidos das notícias, teremos cumprido a nossa missão.

M&P: Qual é a vossa concorrência?

JM: Sinceramente não acho que o Tal & Qual tenha concorrência. Não há jornais de investigação de pendor popular, com uma linguagem acessível.

M&P: Esse não é o território do Correio da Manhã?

JM: Não. O Correio da Manhã é um jornal popular mas não no mesmo sentido. É um diário, dá notícias, nós não vamos dar as notícias do dia. Vamos pegar nas notícias que fazem notícia e vamos encontrar o outro lado, os aspectos obscuros, os aspectos menos contados e menos explicados. O Correio da Manhã, já que falou nele, é um jornal respeitável, é um diário de informação geral muito centrado no crime e no futebol. O Tal & Qual não é isso. É um jornal que faz investigação jornalística, que conta histórias e talvez não tenha concorrência. Não estou a dizer que somos os melhores do mundo e que não há concorrência para nós. Infelizmente, em Portugal, não há concorrência. Penso que o Tal & Qual, desde a sua fundação em 1980, ocupou um espaço que continua desocupado.

M&P: Qual é o perfil dos leitores a que pretende chegar nesta nova etapa?

JM: Não sei responder mas certamente não é o leitor do Tal & Qual antigo porque a sociedade já é outra. O tempo mudou, nomeadamente em termos comunicacionais. Repare no que aconteceu desde que o Tal & Qual acabou. Há todo um mundo em termos de acesso à informação e ao desenvolvimento de histórias que não existia na altura. Não vamos à procura de um leitor que quer ler as broncas. Pensamos que é um leitor mais refinado do que seria o leitor do Tal & Qual de antigamente. Grande parte das pessoas que acediam ao Tal & Qual faziam-no porque não encontravam aquela informação noutro sítio. Hoje em dia essa informação está já em muitos sítios, nomeadamente nas redes sociais, com toda a falta de rigor que isso possa implicar. Nós vamos explicar, ou tentar explicar, aquilo que não está explicado. Isso não é propriamente um jornalismo de revelação, é um jornalismo de aprofundamento.

M&P: Haverá uma edição online?

JM: Vamos ter uma presença na internet, que se destina sobretudo a dar a conhecer que o jornal está cá e que nessa semana destaca isto ou aquilo. Não vai ser um jornal na internet. Apostamos na leitura em papel, pausada. Há um público do papel que não só se mantém como talvez tenha crescido em qualidade. Comparo-o ao fenómeno do vinil. Hoje temos imensas formas de ouvir música. No entanto, o vinil, que tinha acabado, entre aspas, afinal tem um mercado cada vez maior. O mercado do vinil é diferente do que existia antigamente mas é mais exigente.

M&P: Este projecto do Tal & Qual não interessaria a grandes grupos de media?

JM: É possível, mas este tipo de jornalismo tem muito a ver com quem o faz. Não é um jornalismo que se possa dizer que tem um conceito e que agora vamos procurar as pessoas para o materializar. Não funciona assim. este projecto nasce da equipa. Reflecte-se em cada uma das páginas do jornal mas também na própria sociedade Parem as Máquinas, que é um grupo de repórteres. Este é um jornal de repórteres, não é um projecto empresarial para o qual fossemos angariar jornalistas com este ou aquele perfil.

M&P: A Parem As Máquinas prevê lançar outros projetos?

JPF: Ideias não nos faltam. Agora, da ideia à concretização vão sempre mais passos. Estamos a pensar em algumas coisas, mas tudo a seu tempo. O objecto e o foco da Parem as Maquinas é a segunda série do Tal & Qual.

M&P: O que podemos esperar do Tal & Qual em termos de organização ou de secções?

JM: Será um jornal de reportagens. Vamos ter um determinado número de peças de investigação e vamos ter umas seis ou sete secções. São secções com um sentido de utilidade. Não vamos ter secções para alimentar egos de colunistas, até porque não temos colunistas ou colunas de opinião sobre a semana. As secções têm a ver com prazeres da vida, como gastronomia, vinhos, viagens, mas são coisas pequenas, integradas numa zona do jornal a que vamos chamar Sexta, Sábado e Domingo, com conselhos úteis.

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