O adorável mundo da distância e da proximidade

Por a 13 de Junho de 2021

Vítor Cunha, administrador da JLM&Associados

Dizem que a pandemia está mais calma e vamos voltar a ter uma vida mais normal. Não sei bem o que é uma vida normal – e nem sei se a desejo assim tanto -, mas não parece que possamos voltar ao tempo que era antes.

A força normativa da experiência do teletrabalho e do novo comércio electrónico deixaram marcas fortes e o mundo divide-se entre quem gosta, quem não gosta, quem quer combiná-los com o escritório e a loja, outros ainda que têm opiniões escatológicas sobre o tema, o seu impacto na economia, na sociedade e no futuro da humanidade e dos animais domésticos.

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É evidente que há actividades onde o teletrabalho é impossível: na agricultura, na indústria, e mesmo em muito comércio e serviços. Embora não se possa confundir teletrabalho com meios de disponibilização de serviços ou bens à distância, ambos acabam por andar em conjunto. No comércio electrónico ou no teletrabalho o elemento matricial é a distância da prestação ou da escolha para a obtenção de um resultado que anteriormente era obtido presencialmente.

Há serviços ou comércio onde a experiência tele é possível, mas não é agradável. Haverá espetáculo mais degradante do que uma embalagem de comida entregue em casa, fria, metálica, inapresentável?

Já tínhamos tido no passado esta discussão sobre as vantagens do home delivery e do take away vs “experiências reais”. Para quem gosta de cinema: os filmes take away começaram depois da massificação das cassetes e com o aparecimento do “clube de vídeo”. Na altura, alguns desses clubes disponibilizavam a entrega e recolha em casa. A bendita tecnologia, em poucos anos, matou as cassetes e os clubes e passámos a ver cinema em casa em disco, depois em streaming, para além do cabo e do satélite.

Se repararem, a discussão é sempre a mesma: um bife comido no restaurante é melhor do que o mesmo bife entregue em casa? Resposta: é. E um filme visto numa sala é melhor do que no ecrã lá de casa. Resposta: é. Mas, para ambos os casos, a resposta dada só é válida se a carne e o filme forem bons. Um mau bife é sempre um mau bife, um mau filme não passa a bom apenas porque o vemos numa sala boa.

Isto leva-nos ao tema da segmentação. Não foi preciso uma pandemia para comermos trash food entregue em casa, mas foi preciso uma pandemia para encomendarmos para casa um Wellington ou uma salada de caranguejo do Alasca. Será que esta tendência se vai manter, ou continuaremos apenas a pedir pizzas e hambúrgueres? Não tenho resposta, mas tenho preferências, como bom conservador: em casa o que é de casa e na rua o que é da rua.

Deixando a gastronomia: um bom auditor pode fazer bem o seu trabalho à distância, ou tem que estar implantado na empresa auditada? Aqui há muitas dúvidas, na doutrina e na prática, mas tudo indica que no momento em que as empresas forem absolutamente digitais esta discussão deixará de fazer sentido.

Podia continuar com exemplos mais ou menos gráficos sobre possibilidades e vantagens nestes temas da distância. Já todos percebemos que estamos a meio de uma mudança que tinha começado antes, mas que não quisemos ver com atenção, especialmente no mercado de trabalho. Vai ser difícil manter equipas empenhadas quando existe uma enorme divisão dentro das organizações quanto às opções prevalecentes a tomar. Os mais novos, aparentemente, são quem mais prefere o teletrabalho. Serão também esses os mais prejudicados pela falta de apoio na sua formação e acompanhamento. Os menos novos, esses, não aguentam nem a solidão doméstica nem o excesso de família. Conheço alguns casos de pessoas que passaram a odiar os familiares mais próximos por excesso de contacto. Ainda não se soube oficialmente de mortes ou agressões graves que possam ser indiretamente imputadas ao vírus, até porque ninguém quer engordar as estatísticas da dra. Graça. Mas pode ser que o tema nasça e aí teremos mais uns dias de discussão e reflexão sobre a nossa natureza e bondade. Até lá, tenham um bom Verão.

*Por Vítor Cunha, administrador da JLM&Associados

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