destaque

O futuro do trabalho criativo é à distância?

Por a 21 de Maio de 2021


Dois talentos internacionais, um do lado da agência e outro do lado do cliente, analisam as transformações que a covid-19 veio trazer aos processos de trabalho criativo

Desde que começou a pandemia que Hugo Veiga vive longe da cidade de São Paulo. Logo em Março de 2020 mudou-se para uma casa de montanha e, no fim do ano, optou por uma vila de pescadores na Bahia. Na AKQA de São Paulo, quando em 2018 deram a possibilidade aos colaboradores de trabalhar a partir de casa, ninguém aceitou. Era este o panorama da agência eleita a mais feliz da network WPP no mundo. A pandemia da covid-19 poderá ter mudado o paradigma, não só na AKQA como no mercado publicitário. “Acredito que agora algumas pessoas gostassem de continuar em teletrabalho. Temos pessoas do Rio de Janeiro que, se calhar, querem ficar a morar no Rio. O mesmo está a acontecer no resto da network da AKQA. O escritório de Nova Iorque tem pessoas espalhadas pelos Estados Unidos e muitos referem que não querem voltar. Existem vários escritórios a falar sobre o assunto, nomeadamente como é que nos vamos adaptar”, diz o criativo português, que ressalva que, “mesmo em trabalho remoto, são necessários rituais de encontros físicos. Pode ser produtivo estar à distância, mas aos poucos vai-se perdendo a cultura da agência”.

Hugo Veiga sublinha que a pandemia veio evidenciar “a questão de que qualquer pessoa pode trabalhar para qualquer parte do mundo. Aprofundou a concorrência com outras geografias”. Outro dos fenómenos que está a acontecer, no Brasil, “é o dos freelancers que estão a trabalhar para os Estados Unidos porque o real está pelas ruas da amargura. O trabalho remoto acaba por dar muitas oportunidades a quem não tinha acesso a essas oportunidades. Podem ser agências de Coimbra a concorrer com as de Lisboa, mas também está a acontecer com agências e empresas da Roménia ou da Argentina que estão a ter acesso aos grandes palcos porque basta um computador e um acesso à internet”, ilustra Hugo Veiga.

O global chief creative officer da AKQA participou no debate Summit Nómada Digital, moderado pelo M&P, com a presença de José Alberto Antunes, que, depois do cargo de director global criativo e de marketing integrado da Coca-Cola, assumiu agora o cargo de director de estratégia para a América Latina. José Alberto Antunes passou o início do confinamento em Atlanta, regressou a Lisboa em Agosto do ano passado e mudou-se agora para o México.

Será que o confinamento e o trabalho à distância impactaram a produtividade no universo da Coca-Cola? “Quem já tinha uma função internacional já vinha com essa dinâmica. O problema é que essa dinâmica multiplicou-se por dez. No online é mais fácil coordenar horas e marcar reuniões e as agendas vão-se enchendo. A intensidade das dinâmicas aumentou exponencialmente, mas a produtividade não. Nós temos de entregar de qualquer maneira. Os deliverables têm sempre de acontecer em determinado projecto ou campanha, seja online ou fisicamente. Agora, em termos gerais, o facto de as pessoas serem mais objectivas e perderem menos tempo nos aspectos pessoais aumentou a cadência de trabalho e a produtividade”. José Alberto Antunes frisa que a relação da Coca-Cola com as agências criativas implicava recorrer aos melhores talentos para responderem a um briefing — independentemente da geografia. “Já vínhamos dessa dinâmica em que a equipa de talento mundial, num momento crítico do projecto, viajava para Atlanta. Já não temos as reuniões de uma semana em Atlanta, mas temos sprints de cinco ou seis horas por dia durante uma semana em que damos um push ao projecto. Funcionamos cada vez mais com estas metodologias agile e estas noções dos sprints, dos fusion points, do scrum master. A aprendizagem de todos estes modelos novos de trabalho na pandemia veio provocar uma mudança na Coca-Cola. Alguns de nós já lá estávamos, por exemplo as equipas criativas ao redor do mundo, mas agora toda a gente tem de saber trabalhar agile. Toda a gente tem de se saber ser gerido por um scrum master, aprender novas ferramentas como o Miro ou Trello para trabalhar agile diante do ecrã. Até as pessoas do departamento técnico, do legal ou de laboratório, que têm uma forma de trabalhar distinta da do marketing, estão a entrar nestes modelos de trabalho. É uma transformação cultural”.

Mas convém não fazer generalizações sobre o que será o futuro. Hugo Veiga exemplifica com o exemplo do Netflix, o primeiro cliente da AKQA em São Paulo, quando a agência abriu em 2014. Durante a pandemia, a agência conquistou a conta global do Netflix, graças à colaboração entre planners de Copenhaga e Milão e de criativos de Tóquio, Berlim, Londres, São Francisco e São Paulo. “Quando produzimos conteúdo global é muito importante ter olhares culturais diferentes. Esses encontros e discussões enriquecem muito o trabalho. Foi um processo muito rico que levou a ganharmos a conta”, recorda. Mesmo tendo sido o escritório de São Paulo a ganhar a conta, a AKQA tem de ter uma presença física em Los Angeles, perto do cliente. E Reed Hastings, CEO do Netflix, já avisou publicamente que não é fã do trabalho remoto. “Como parceiro adaptamo-nos ao cliente”, remata Hugo Veiga.

Deixe aqui o seu comentário