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Google endurece discurso face às exigências dos publishers portugueses

Por a 21 de Maio de 2021


Após um ano de interregno, o Estado da Nação dos Media voltou a debate no congresso da APDC e os grupos de media nacionais retomaram a pressão sobre as plataformas internacionais para uma “compensação justa” de quem produz informação. A perder terreno em várias geografias, o Google endureceu o discurso, com o responsável do gigante em Portugal a defender que “não há pote de ouro no final do arco-íris”

Numa altura em que as gigantes tecnológicas enfrentam pressão crescente em vários mercados, tendo sido forçadas a aceitar acordos com vista à partilha de receitas com publishers na Austrália, em França e noutros países europeus, os responsáveis dos grupos de media nacionais presentes no painel Estado da Nação dos Media, do congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), retomaram as exigências que já vêm defendendo há vários anos neste palco, agora com novo ímpeto, manifestando a expectativa de que este tipo de acordos venha a ser transposto para a realidade do mercado português a breve prazo.

“Queremos que um valor seja atribuído aos nossos conteúdos. Um valor justo, digno, pago pela grandes plataformas pela utilização que fazem dos conteúdos que produzimos”, defendeu Francisco Pedro Balsemão, CEO da Impresa, para quem este tipo de acordos para a partilha de receitas entre as plataformas e os grupos de media, a par do debate em curso ao nível dos organismos europeus para a implementação do press publishers right, “só vêm dar razão” às exigências que o próprio e outros responsáveis de publishers portugueses têm vindo a fazer ao longo dos últimos anos. “Há um domínio muito grande destes dois players na cadeia de valor, são gatekeepers quase de acesso único”, afirma, acusando Google e Facebook de serem “árbitros” de um mercado onde também entram em campo como “players”. “Ao mesmo tempo que são árbitros estão a concorrer com as plataformas dos media”, aponta o CEO da Impresa, argumentando que esta “hegemonia” tem vindo a “destruir” o modelo de negócio dos media. “Os conteúdos têm naturalmente um custo em termos de investimento em pessoas e em tecnologia. E estas plataformas crescem à custa dos nossos conteúdos”, reforçou Francisco Pedro Balsemão, referindo que, neste primeiro trimestre de 2021, por exemplo, o Google registou um crescimento na ordem dos 36 por cento comparativamente ao período homólogo em 2020. “O que defendemos é que haja uma compensação justa”, sustenta o CEO da Impresa.

“O mercado publicitário caiu 15 por cento em consequência da pandemia, o que é muito para um mercado como o nosso. Os conteúdos cada vez mais vão ser o foco principal, custam dinheiro e precisam de ser pagos”, concorda Luís Cunha Velho, CEO da Media Capital, sublinhando ser fundamental “encontrar modelos que trabalhem os algoritmos no sentido de não desviar os conteúdos em que investimentos para outros sites e devices que fogem ao nosso controlo”. “Para os canais privados claro que há uma preocupação com os conteúdos, com uma remuneração justa pelo real valor desses conteúdos”, acrescentou o responsável, lembrando que “o Parlamento Europeu já está a aprovar medidas nesse sentido”. “Temos a expectativa de que em Portugal isso também seja tido em consideração”, concluiu.

“É um tema que transcende o mercado português”, reconhece Hugo Figueiredo, partilhando igualmente a posição de que “os media e o jornalismo carecem de modelos novos” e que “a defesa dos interesses do jornalismo deveria estar nas prioridades dos governos ocidentais” já que este é “um dos principais garantes da democracia”. “Todas as medidas que contribuam para que a qualidade do jornalismo e o pluralismo sejam assegurados são bem-vindas. Não interessa a ninguém que os meios de comunicação social sejam obrigados a cortar custos repetidamente com consequências na qualidade do jornalismo e das próprias democracias”, argumentou o administrador da RTP.

“Não há um pote de ouro no final do arco-íris”

Representado no painel por Bernardo Correia, o Google rejeita liminarmente as exigências feitas pelos grupos de media nacionais e rebate todos estes argumentos, que considera estarem assentes em “vários mitos que importa esclarecer”. Trocando o habitual tom diplomático por uma postura mais assertiva, o director-geral do Google para o mercado português desmontou, um por um, os argumentos apresentados pelos responsáveis dos grupos de media nacionais, revelando um claro endurecer do discurso por parte do gigante norte-americano numa altura em que enfrenta pressões crescentes em diversas geografias. “O Google não rouba conteúdos a ninguém, o Google cria links para os conteúdos dos outros e envia tráfego para esses sites”, começou por sublinhar Bernardo Correia, contestando “a ideia de que o Google rouba conteúdos ou está a fazer dinheiro com o conteúdo dos outros”. “Na Europa enviamos qualquer coisa como oito mil milhões de cliques por mês para sites de notícias. As pessoas não lêem as notícias no nosso site. Esses oito mil milhões de cliques são muitas vezes desvalorizados pela própria indústria, mas isso representa um valor económico brutal que entregamos aos publishers”, sustenta o director-geral do Google para o mercado nacional.

“Em segundo lugar, existe alguma obrigatoriedade de estar no Google?”, questionou, respondendo de imediato: “Não existe. Qualquer publisher pode, pura e simplesmente, deixar de ter o seu conteúdo indexado no Google”. “Basta pôr no site uma coisa muito simples chamada ‘no follow’. Nós lemos”, prossegue Bernardo Correia, afirmando que “não se pode ao mesmo tempo estar a dizer que não tem valor económico mas que não podemos deixar de lá estar”. “Nós não usamos conteúdo, nós pomos links para as pessoas irem a esse conteúdo e fazêmo-lo em massa, ou seja, geramos tráfego. O valor desse tráfego é enorme para a indústria dos media e é bom que seja valorizado”, rematou.

Quanto à ideia de que o Google cresce à custa dos publishers, Bernardo Correia é peremptório: “Não fazemos imenso dinheiro com os conteúdos noticiosos como se diz, o conteúdo noticioso é algo que promovemos em termos de investimento em inovação e porque achamos que é relevante para o utilizador. Não é, nem de perto nem de longe, o conteúdo onde pomos mais anúncios, o Google News não tem anúncios. Zero”. “Não é dos conteúdos noticiosos que vem a maioria das nossas receitas, não existe aquele pote de ouro no final do arco-íris que muitas vezes a indústria [dos media] acha que existe”, afiança o director-geral da plataforma para o mercado português, considerando que este braço de ferro “é uma pena porque o valor económico é simbiótico, nós linkamos para as empresas de media, que absorvem esse tráfego e transformam-no em dinheiro através de publicidade”.

A par daquilo que considera ser uma mais-valia da plataforma para os grupos de media, Bernardo Correia aproveitou ainda para recordar que o Google tem vindo a investir em projectos de jornalismo em vários grupos nacionais. “Só em Portugal já investimos mais de oito milhões de euros para ajudar os publishers”, frisou, dando como exemplos o estúdio de rádio do Observador ou estúdio de vídeo do Jornal de Notícias no Porto, que beneficiaram de financiamento no âmbito do programa Digital News Initiative. Por fim, lembrou, “também não é verdade que o Google não pague por notícias, há uma partilha de valor económico gerado pelo software de gestão de publicidade com publishers em todo o mundo”.

Por onde passa o futuro dos media

Os caminhos por onde se percorrerá o futuro do jornalismo e dos media foram também trilhados pelo debate, com Francisco Pedro Balsemão a descrever um percurso que “passará pela qualidade e pelas marcas de referência, por uma aposta cada vez mais omnicanal, estar em diferentes canais e plataformas mas não só isso, passa por trabalharmos em função de cada uma dessas plataformas, criando conteúdos específicos para o público de cada uma”. “É importante haver uma relação directa com o nosso consumidor final, conhecê-lo melhor, sem qualquer atentado à privacidade, de modo a que isso nos possa ajudar a fazer recomendações, através de algoritmos, e desenvolver uma oferta cada vez mais on demand, dar às pessoas aquilo que querem”, explica o CEO da Impresa.

No mesmo sentido, Luís Cunha Velho afirma que o futuro da Media Capital passará por “ter o engenho e a habilidade para criar conteúdos para vários devices. Quantos mais melhor, é preciso estarmos acessíveis em todos eles”. “É importante dizer que esta lógica multiplataforma veio para ficar, é preciso trabalhar os conteúdos numa perspectiva multiplataforma”, concorda Hugo Figueiredo, defendendo que é preciso “encontrar mais parcerias, seja ao nível da inovação seja com produtoras, entidades culturais ou outras que nem sequer estamos a ver agora”. “Vamos encontrar cada vez mais modelos híbridos, que tragam inovação e conteúdos cada vez mais originais”, prossegue, alertando que esse caminho tem de ser feito sob pena dos meios perderem a atenção das pessoas e, com isso, a sua própria relevância. “Essa derivação entre conteúdos, plataformas, parcerias e segmentação é o futuro”, aponta o administrador da estação pública, para quem isso implica “adquirir novas competências, não ficarmos presos aos modelos do passado, e é também um dos grandes desafios, a partilha de métodos, de parcerias, de sinergias”.

“Aquilo em que apostamos é no apoio à internacionalização, não só no retalho e no comércio mas também nos media”, indicou, por sua vez, Bernardo Correia, considerando que, no mercado português, esse “é o grande salto qualitativo que nos falta dar”. “Temos um potencial de mercado na língua portuguesa do qual só arranhamos a superfície”, afirma, sustentando que “são mercados que deveriam ser naturalmente nossos”. “Somos muito bons na produção de conteúdo à escala que temos, mas é muito difícil, num mercado global de três mil milhões de pessoas ligadas à internet, sermos competitivos num mercado doméstico com uma escala de 10 milhões de pessoas. Temos de olhar para fora, internacionalização de conteúdos é fundamental”, acredita o director-geral da Google para Portugal.

Após manifestar a intenção do gigante tecnológico em manter a sua política de investimento ao nível dos projectos de inovação nos media, Bernardo Correia chamou a atenção para outra área em que a empresa pretende concentrar os seus investimentos na indústria. “Estamos aqui com grandes grupos representados mas às vezes falta que represente o jornalismo mais local, dito mais pequeno mas se calhar, na prática, ainda mais importante. O futuro das plataformas passa também por apoiar o jornalismo local, que fica um pouco mais esquecido”, referiu, deixando mais um recado aos companheiros de painel ao afirmar que não são os grandes grupos de media que enfrentam dificuldades mas que “o jornalismo local é o que está, de facto, mais ameaçado”. “Vou passar muito tempo dedicado nisso” nos próximos tempos, prometeu, antecipando que a estratégia do Google para Portugal passará por “assumir o compromisso de apoiar cada vez mais o jornalismo local e independente.”

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