Defender as marcas, criar valor

Por a 4 de Maio de 2021
Marco Galinha, presidente do conselho de administração do Global Media Group

Marco Galinha, presidente do conselho de administração do Global Media Group

A 3 de Abril comemora-se o Dia Mundial dos Direitos de Autor, momento propício para invocar o papel insubstituível dos media nas relações de cidadania e na preservação da democracia. Mas é também a oportunidade para reclamarmos do governo, sobretudo agora que Portugal preside ao Conselho da União Europeia, mais respeito pelos direitos autorais e celeridade na transposição da directiva que reconhece aos editores o direito de serem ressarcidos pela utilização dos seus conteúdos nas plataformas dos gigantes da internet.

A prolongada crise sanitária e as consequências resultantes das medidas de contenção lançadas no âmbito de sucessivos estados de emergência afectam gravemente toda a cadeia de valor do mercado dos media. Os sinais mais visíveis revelam a drástica redução das receitas, provocada por uma massiva contracção do investimento publicitário e por uma violenta quebra na circulação de jornais e revistas, face ao confinamento generalizado dos portugueses.

Acresce que a antecipação de compra de escassas campanhas de publicidade por parte do Estado beneficiou sobretudo as televisões, exactamente as que menos sofreram com a pandemia e que, ao contrário, viram aumentar os seus consumos durante os períodos de maior clausura da população e do mercado.

Combate à pirataria

Há pelo menos duas coisas que a pandemia deixou mais claras. Em primeiro lugar, a importância do jornalismo de qualidade, diante da torrente de notícias falsas e desinformação que circulam nas redes. A segunda, a fragilidade das empresas de comunicação, que – devido à concorrência desleal das plataformas de internet e à pirataria, toleradas e até reproduzidas por inúmeras instituições do Estado – ao invés de aumentarem os seus investimentos em jornalismo e ferramentas de investigação, tiveram que reduzir as suas equipas e diminuir a sua capacidade de contribuir com mais e melhor informação de interesse público.

De cada vez que toleramos receber, via WhatsApp ou Telegram, edições inteiras de jornais e revistas que são o ganha-pão dos editores, somos cúmplices do roubo e diminuímos a capacidade do jornalismo. De cada vez que o leitor procura uma notícia no Google, ou partilha e comenta a notícia no Facebook, gera rendimento para essas empresas multinacionais e não para aqueles que investigam e produzem informação. Um estudo publicado pelo The New York Times estima que, só em 2018, o Google sozinho arrecadou quase cinco mil milhões de euros com base na exploração dos conteúdos dos media tradicionais.

Diante desta situação, que fragiliza gravemente os meios de comunicação social como pilares da democracia e escrutinadores dos diferentes poderes, é urgente que os governos, em particular o nosso, cumpram e façam cumprir as leis que eles próprios criaram.

E que, ao menos, ponham os olhos nos exemplos dos seus congéneres da Austrália e agora de França, que obrigam os gigantes da internet a negociar com os media tradicionais uma repartição equitativa das receitas pela utilização dos seus conteúdos informativos.

No Global Media Group acreditamos que o aumento da literacia digital e a defesa e valorização das melhores marcas de informação tradicionais é, certamente, a melhor forma de combater as falsas notícias e preservar a liberdade. E é aí que estamos, produzindo informação com independência, rigor e pluralismo, as pedras basilares que norteiam este grupo.

 

Prioridade ao digital

Com mais de 3,5 milhões de consumidores únicos, as marcas do Global Media Group – entre as quais o Jornal de Notícias, a TSF, o Diário de Notícias (regressado diariamente às bancas), o Açoriano Oriental, a Volta ao Mundo, O Jogo, o Dinheiro Vivo, e várias outras – disputam as preferências dos portugueses para ler notícias nas plataformas digitais. São marcas de informação de grande prestígio, portadoras de memória e guardiãs do maior e mais relevante acervo noticioso e documental dos meios de comunicação em Portugal.

Aí está como procuramos combinar, ao mesmo tempo, a responsabilidade de assumir o valor de títulos que cruzaram muitas décadas, guerras e revoluções, centenas de governos, enfim, o legado de várias gerações dedicadas à informação e, no mesmo passo, assegurar a sua sustentabilidade e projectar o seu rejuvenescimento.

Em quase dois séculos, tantos quantos os de algumas das nossas marcas, foram os laços de confiança e de credibilidade que nos trouxeram até aqui.

Hoje, fazemos do longe, perto: às limitações físicas da distribuição e do papel, respondemos cada dia e cada vez mais em tempo real, com novo impulso nas edições electrónicas, em todas as plataformas digitais e com a maior audiência global junto das comunidades, onde estamos a crescer, sem fronteiras.

Em quase dois séculos, mudaram as ferramentas, os canais e os meios de informação. Mas o jornalismo que praticamos continua fiel aos princípios que nortearam a fundação de cada uma das nossas marcas: buscar a notícia, avaliar e decidir da sua relevância, confrontá-la com rigor, contá-la bem e publicá-la com liberdade. É essa a nossa vocação e o nosso destino.

*Por Marco Galinha, presidente do conselho de administração do Global Media Group

** Este artigo faz parte da edição nº 882 do M&P

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