destaque

Chegou o “apocalipse do retalho”?

Por a 21 de Maio de 2021



No centro das cidades portuguesas constata-se o impacto da pandemia, mas está também a assistir-se à procura de espaços comerciais para supermercados, clínicas, espaços de estética e lojas de bricolage e decoração

O termo “apocalipse do retalho” foi-se popularizando nos últimos anos para descrever o encerramento das lojas físicas por pressão do comércio online. Já antes da crise da covid-19 se debatia a transformação do centro das cidades nos Estados Unidos e no Reino Unido, com as marcas de referência a abandonarem os espaços de grandes dimensões em localizações centrais (e caras), direccionando- -se para uma nova dinâmica online. A pandemia veio acelerar os encerramentos de lojas físicas das grandes marcas, como Zara, Gap, H&M, Guess, Victoria’s Secret. Um estudo divulgado em Abril pela UBS adianta que, até 2026, nove por cento das lojas físicas dos Estados Unidos vão fechar, sendo que os sectores da moda e dos acessórios serão os mais afectados. Já as lojas da área alimentar e do lar, assim como os stands de automóveis, serão menos impactados.

Em Espanha o debate também está instalado. A título de exemplo, a H&M abandonou localizações de referência como a Gran Vía de Madrid ou as Ramblas de Barcelona. Já a Confederação do Comércio de Espanha assegura que 63 mil lojas, correspondentes a 15 por cento do total, encerraram de vez como consequência da covid-19. No centro das cidades portuguesas multiplicaram-se nos últimos meses as placas a indicar “vende-se”, “aluga-se”, “encerrado” ou “liquidação”. Aos desafios colocados pela pandemia e pela transformação digital, acrescentou-se o desaparecimento dos turistas.

O “apocalipse do retalho” instalou-se em Portugal? Mariana Rosa, head of leasing markets advisory da JLL Portugal, constata que existem mais lojas disponíveis no mercado, principalmente do sector da restauração. Contudo, ressalva, “não se tem verificado a desocupação de espaços de grande dimensão, pois a tendência é a procura desses mesmos espaços para a colocação de estabelecimentos como supermercados, clínicas e lojas de decoração. As zonas prime de Lisboa e Porto, devido à falta de turismo, estão a ser bastante afectadas, mas as marcas maioritariamente internacionais têm capacidade para aguardar que o turismo regresse e a situação aos poucos normalize”, argumenta. Também Sandra Campos, partner e directora de retalho da Cushman & Wakefield, mostra-se cautelosa com a ideia de que o “apocalipse do retalho” seja já uma realidade em Portugal. “Ainda estamos no ‘olho do furacão’, pelo que é muito cedo para tirar qualquer conclusão. O retalho é muito diversificado e temos lojas de proximidade com um bom crescimento de vendas, a par de lojas em zonas turísticas com quebras acentuadas. Este sector tem uma notável capacidade de adaptação, e enquanto alguns conceitos fecham portas, registamos marcas a aproveitarem para crescer a sua rede tirando partido das oportunidades que não existiram nos últimos anos”, considera Sandra Campos, sublinhando que existem zonas da cidade menos voláteis. É que, enquanto o comércio de conveniência quer estar perto de zonas residenciais e dos escritórios, as marcas internacionais de luxo continuam a focar a sua procura na zona da Avenida da Liberdade, em Lisboa, “onde curiosamente temos vindo a realizar alguns negócios de importância relevante”, revela a partner da Cushman & Wakefield. Mariana Rosa ajuda a identificar mais tendências. “O comércio de conveniência de bairro continua com uma grande relevância, uma vez que as pessoas se sentem mais seguras ao comprar nos bairros onde vivem e muitas ainda estão em teletrabalho. Por outro lado, continuamos a ver o segmento dos supermercados com uma expansão bastante dinâmica nos centros da cidade e os sectores do bricolage e decoração também bastante activos, com previsões de crescimento”, refere Mariana Rosa.

Há mais sinais positivos: “Notamos também algum movimento na área de restauração, com alguns operadores sem grandes portfólios a encararem este contexto como uma oportunidade, tanto para encontrar boas localizações, como para negociarem valores de renda mais baixos”. Também surgiu uma nova tendência relacionada com o aumento da procura por espaços para clínicas de estética e de tratamento, “uma vez que surgiu uma maior preocupação com a saúde e bem-estar”, aponta a responsável da JLL Portugal.

Deixe aqui o seu comentário