Assim se vê a força do PC

Por a 28 de Maio de 2021

Vítor Cunha, administrador da JLM&Associados

A pobreza e os rendimentos baixos são a maior vergonha de Portugal. Porque atingem a dignidade de cada um e exibem o falhanço de todos.

Nestas centenas de anos de vida nunca fomos especialmente ricos. Nos últimos 500 anos o PIB per capita dos portugueses só deu um salto significativo ao longo do século XX. Já sabemos que a estatística sem explicação mente desavergonhadamente, por isso também constatamos que esse salto só tem sido bom para alguns.

Nos dias de hoje, sabemos que Lisboa, Oeiras e Cascais são concelhos onde se vive bem considerando padrões europeus, mas, por exemplo, Montijo ou Barreiro (e todo o distrito de Setúbal) são significativamente mais pobres – e apenas um rio os separa. Como estão na mesma unidade estatística que os concelhos ricos, sofrem duas vezes: sofrem porque são pobres e sofrem porque são considerados ricos, ficando fora do acesso a programas europeus. Esta circunstância demonstra a ilusão das unidades estatísticas (chamam-lhe NUTS, e deve ser lido em português; em inglês também faria sentido dada a tolice) e não se percebe porque é que governo e parlamento não terminam com isto, sabendo-se que há consenso político ultra alargado.

Mas era sobre a Lisboa rica e a sua pobreza (pouco) escondida de que gostava de falar neste Maio primaveril. Das cidades do mundo que conheço, Lisboa deve ser das mais “interessantes” para viver. É verdade que não tem um museu, uma ópera, ou um teatro como Londres, Nova Ioque, Boston, Berlim, Paris, Madrid, Milão, Roma, Viena, Washington, Lyon, São Paulo, Barcelona, Moscovo, Varsóvia ou muitas outras terras de que se fala e onde se vai. É verdade que é suja e decadente e desordenada. Mas é a cidade da minha vida.

Por muitos anos Lisboa se fechou, deixou que os velhos morressem e as suas casas caíssem, abandonou o centro. As periferias mostraram dinamismo e concorreram no preço e no estilo de vida de fim de semana (sol, mar, oferta razoável de serviços, explosão dos centros comerciais, mais acessos e estradas, etc).

Foi o turismo e a promoção mobiliária quem muito ajudou Lisboa a mudar nos últimos anos. A gestão maioritariamente socialista da câmara compreendeu que sem privados não haveria turismo, reabilitação, investimento, gente e crescimento – e fez bem. O facto de o aeroporto de Lisboa estar no centro garante competição com a maioria das cidades europeias (é certo que o comboio de alta velocidade aproxima as cidades do centro da Europa, mas cá não serve para chegar a Zagreb ou Viena). É por isso estranho não se ouvir em voz alta a defesa daquele aeroporto pela autarquia e pelos candidatos que se conhecem.

O sucesso estatístico de Lisboa tem correspondência em grande medida com o sucesso que se sente e vê, apesar da pandemia e do encerramento forçado. Mas, depois, há uma outra Lisboa insuportável, de que não se quer falar, por isso escondida: pobres, sem abrigo, velhos isolados, passeios onde pessoas com deficiência não se movem, passeios esburacados, buracos nas casas, empenas a cair, prédios habitados abandonados por incúria ou falta de meios, filas de trânsito, dejetos de humanos e de animais nas ruas, lixo, beatas, jardins mal tratados, água de rega desperdiçada em dias de chuva, falta de casas, falta de pessoas.

Esta Lisboa real não vem nas redes sociais oficiais, na imprensa ou no discurso das elites. Essa Lisboa que vivemos e a que nos habituamos exibe a nossa pobreza e misérias. Não peço desculpa pelo exemplo: a indignação a que temos direito não precisa de autorização para ser convocada:  sim, tenho vergonha de viver numa capital onde há cada vez mais sem abrigo e em que essas pessoas deixam nas ruas excrementos (fezes, estercos) que a chuva não varre. Capital verde? Triste capital.

Lá para o Outono vamos escolher o novo presidente da câmara (pc), as suas equipas e as juntas de freguesia. Um pc com ideias claras, sem medo de enfrentar, que não dependa das lógicas internas dos partidos e que goste de Lisboa pode fazer a diferença que precisamos. Moedas e Medina vão polarizar o debate e a ambos se exige que não abandonem os lisboetas, os pobres, e os outros, os que perderam a paciência para a degradação e exigem que a riqueza estatística tenha uma revelação na vida de todos nós. É essa a força do pc.

Deixe aqui o seu comentário