A mão invisível ainda mexe

Por a 16 de Abril de 2021
João Paulço Luz, director de negócios digitais e publishing da Impresa

João Paulo Luz, director de negócios digitais e publishing da Impresa

Adam Smith foi um filósofo e economista Escocês do século XVIII que introduziu o conceito da “mão invisível”. Segundo esse princípio, se a economia fosse completamente livre, sem qualquer intervenção de agentes externos ou de governos, ela iria regular-se de forma automática, como se houvesse uma mão invisível por trás de tudo. O encontro entre a oferta e a procura iria naturalmente ditar os preços e os diferentes agentes económicos iriam ajustar-se no mercado através da respetiva capacidade competitiva.

Este entusiasmo pelo mercado livre, como a melhor forma de remunerar os melhores e com isso promover a inovação e o desenvolvimento, tem muitas vezes o seu contraditório na necessidade, identificada por liberais menos absolutos, de travar o domínio dos que lideram os mercados para impedir que o “winner takes it all”. As leis da concorrência nascem precisamente pela ideia de que a falta concorrência diminui a inovação prejudicando os consumidores, pois quem lidera pretenderá prolongar o mercado na forma em que o domina.

A internet será um exemplo quase académico de tudo isto. A forma totalmente aberta como nasceu, permitindo que todos competissem contra todos, sem protecionismos, regulações e burocracias de aprovações de produtos ou serviços a lançar, fez da web um dos ecossistemas mais fervilhantes em inovação e prosperidade. Claro que quem teve acesso a capital para poder continuar a investir mesmo sem  gerar qualquer receita teve vantagem, mas foram muitos os que tiveram acesso a capital pois os investidores reconheciam que as oportunidades para vencer eram reais e diversas.

Quando hoje se fala da open web, já se deixa perceber que já não viveremos exatamente o momento inicial. O liberalismo total dos primeiros tempos, em que apenas “web” já era por definição aberta, já terá elegido os seus vencedores que se tornaram, no entender de alguns, demasiado dominantes travando a saudável dinâmica da concorrência. Estes são os momentos em que os Estados tendem a ser protagonistas e em que muitos clamam pela sua intervenção.

Mas quando todos já achavam que o próximo momento seria apenas marcado pela a intervenção dos governos, eis que assistimos a um reacender da concorrência, incentivada pelas eventuais regras em preparação.

Ouvido já este mês em Washington na comissão que está a analisar os temas da concorrência na indústria da media, o presidente da Microsoft, Brad Smith, foi muito duro com a Google, dizendo que esta se alimenta dos conteúdos dos publishers, no seu negócio de search e advertising, e avançou com sugestões de como a Google deveria apoiar a indústria. No mesmo testemunho disse ainda ser favorável à legislação que muitos estados estão a estudar, ou já a aprovar, para obrigarem a Google e o Facebook a acordarem com os publishers alguma partilha dos seus proveitos publicitários como forma de remunerar a utilização dos seus conteúdos. Por fim, e subindo ainda mais o tom, partilhou que ele e o CEO Satya Nadella acreditavam que era importante que todos pudessem prosperar juntos, e que quando empresas começam a ameaçar países dizendo que se estes aprovarem leis de que não gostam abandonarão os seus mercados, algo está errado, pois ninguém deverá estar acima da lei. Nenhuma pessoa, nenhum governo, nenhuma empresa, nenhuma tecnologia.

Tudo isto a propósito da disputa que Google e Facebook protagonizaram com o governo da Austrália em que a Google ameaçou abandonar o país, e em que Satya Nadella de imediato disponibilizou ao primeiro ministro Australiano os bons serviços da Microsoft e do seu Bing se isso se viesse a concretizar.

A resposta da Google veio pelo seu senior VP of Global Affairs, Ken Walker, que num blog da companhia acusou a Microsoft de oportunismo, e que a empresa estava a recuperar o seu comportamento passado pressionando instituições para legislarem a seu favor e contra os seus diretos concorrentes.

Este reacender de tensão entre concorrentes será muito interessante de acompanhar. A reacção ao eventual abuso de posição dominante dos líderes atuais veio abrir uma oportunidade a players que já dávamos por derrotados nesta arena da relação com os media e reanimar a concorrência que todos reconhecemos como necessária.

Não será uma manifestação da “mão invisível” de Adam Smith, em que os agentes económicos sozinhos vão conseguir manter o mercado a funcionar em pleno, mas não deixa de ser curioso que se rompa um equilíbrio até agora muito estável entre os grandes players.

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