Deixem-me enganar, p.f.

Por a 6 de Abril de 2021
Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

Saí de um pesadelo recentemente. Não falo da covid. Já chega. Falo de um outro medo. O de errar. Ou melhor – falo do medo que o ser humano ganhou de errar e, como tal, passando a idolatrar os apoios à decisão. Nesse pesadelo, acompanhe-me, não erramos, mas também não vivemos, pois passámos a depositar todas as escolhas nos mecanismos que por nós escolhem o que devemos fazer.

O pesadelo rodeava-se de contornos de realismo. Primeiro, no Spotify, recomendavam-me música e eu aceitava as playlists com base nos meus gostos e no que tenho ouvido, sem arriscar em pesquisas e álbuns desconhecidos. A seguir, com a música já a tocar, na pesquisa do vinho fiquei interessado numa garrafa dessas pouco habituais reservadas só aos entendidos da zona do Tejo, mas eis que o Vivino me diz que só corresponde a 63 por cento do meu perfil. Hesitei, pois claro. A seguir, visitando algumas lojas online, recebo feeds com a curadoria de fantásticos e elaborados algoritmos que me “conhecem” e recomendam a roupa que eu poderei gostar e que são (asseguram eles) o ‘meu’ estilo. E nisto, quando questiono toda esta parafernália de sugestões preditivas, eis que uma voz me lembra que já todos usávamos na década passada o botão “I’m Feeling Lucky” do Google, indo directos ao primeiro resultado de pesquisa sem “pensar”, nem ver e nem analisar os restantes nove.

Deixaremos de tomar decisões?
E o prazer do risco? Como é que o algoritmo sabe do que ainda não sabe? Como sabe do que não gosto e vou gostar ou deixar de gostar? E o estranhar, como ferramenta provocadora a tirar-nos do conforto? Bem dizemos aos nossos filhos que “tens de provar pelo menos três vezes até poderes dizer que não gostas”, pois o hábito também treina o palato, bem como treina o cérebro.

Vivemos rodeados de aplicações açucaradas
A culpa, em parte, é nossa, que queremos soluções certeiras e vivemos mal com a desilusão. Vejamos os inúmeros estudos na área da neurociência que tão oportunamente são usados pelos designers de algoritmos de tantas aplicações. Uma má experiência dificilmente é apagada. Várias experiências bem sucedidas são simplesmente uma rotina. E quão difícil é quebrar a rotina… Mas ao lembrarmos Nassim Taleb e o seu icónico “Anti-Frágil”, aprendemos (lembramos) que são as experiências que nos tiram do conforto que nos fazem crescer, que errar nos faz conhecer, que é só quando o músculo rasga com o esforço acima do normal que este se desenvolve.

Sejamos rebeldes. Forcemos a escolha. Qual é o problema de falhar cinco vinhos em 20? Quatro músicas em 50? Duas peças de roupa em 10? Devolve-se a caixa. Passa-se à frente a faixa. Aprende-se a não errar na próxima garrafa. Com o tempo esquecemos o que se tornou regular, mas vamos certamente lembrar das lições dos erros cometidos.

Caso deixemos de exercitar a escolha, dependendo ou aprendendo a delegar a mesma cada vez mais em algoritmos, não podemos esperar que a plasticidade do cérebro se desenvolva da mesma forma. Não se trata de uma idolatria do erro e da dor. Mas do livre arbítrio. Fomentar a escolha é saber lidar com a ansiedade do desconhecido. E, quanto mais se escolhe, melhor se escolhe. Esse é, banalmente, o método de refinamento dos algoritmos.

Só que passaram a ser eles a evoluir velozmente. Eu cá por mim, despeço-me enquanto vou ali pesquisar uma garrafa que tenha menos de 50 por cento de compatibilidade e aprender com os erros… ou, se calhar, descobrir do que vou gostar mais ainda.

Artigo de opinião assinado por Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

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