Pelo preço de um café

Por a 23 de Fevereiro de 2021
Vítor Cunha, administrador da JLM&Associados

Vítor Cunha, administrador da JLM&Associados

Em Fevereiro o ano ainda vai curto e a agenda dos meios continua esmagadoramente virada para o tema que nos ocupa e vai matando: a vida, o ânimo, e a esperança imaginada para depois da coisa-bicho.

Essa compreensível imposição faz-nos perder a noção da hierarquia das importâncias, do tempo e do espaço (há quem garanta que são a mesma coisa, mas isso é matéria quântica reservada a físicos da especialidade). As nossas vidas reduzem-se a buracos fechados e a ar dividido com ecrãs; faltam-nos as outras pessoas, a começar por aquelas que não conhecemos.

Em era de confinamento obrigatório, os sem-abrigo parecem multiplicar-se numa contradição insanável: andam nas ruas como zombies, mas ninguém os quer obrigar a ter um tecto porque não há tecto onde os deixar; e os outros, os que têm abrigo, são detidos em suas casas porque o tal vírus a isso força. Curta e injusta distância essa, entre “obrigo” e abrigo.

No meio desta melancolia dramática o mundo ajusta-se e sofre. Excepto, talvez, entre os jornais, onde impera a felicidade e velhos títulos regressam. Depois do Diário de Notícias, deverá aparecer um novo Sol e um novo i, que concorrem com os actuais Nascer do Sol e lnevitável, e ainda o Tal & Qual.  E há também empresas a mudar de mãos, criando-se emprego como há muito não se via. Tresanda a novo ciclo.

Não posso deixar de me impressionar com o voluntarismo e optimismo de todos aqueles que investem o seu dinheiro, tempo e talento no lançamento de jornais em papel. Quando nos disseram que os jornais iam acabar não acreditámos, porque era como se nos tirassem o ar que se respira, uma brincadeira com consequências potencialmente graves, como é sabido. Entretanto, o mundo tem dado algumas voltas e mais voltas e as famosas redes sociais mostraram os ‘perigos’ da liberdade e como a liberdade permite a manipulação e a descrença naquilo que sabemos ser o “certo”.

Fabricar e divulgar teorias da conspiração era emprego de desequilibrados mentais, mas agora a função é ocupada por criatura legitimamente eleita na Câmara dos Representantes. Twitter, Facebook e os seus modelos matemáticos com origem humana (algoritmos, ou máquinas da verdade) arrogam-se o direito de fechar contas de utilizadores porque a democracia está em perigo e ninguém lhes diz (excepto a ex-bruxa Merkel) que o perigo começa quando se fecham contas, mesmo sendo do malvado Donald Trump e dos seus malvados seguidores.

Restam-nos, pois, os jornais. Os jornais livres fazem-nos falta. A nossa liberdade nunca estará em perigo enquanto houver imprensa que nos defenda de investigadores, polícias, espiões, magistrados, jornalistas, cientistas, políticos com agenda, tarados e negacionistas do bom senso.

Por tudo isto, permitam-me voltar ao tema da independência e do financiamento da Comunicação Social. Os senhores do Twitter fecham contas porque têm meios ($) para o fazer. Os jornais, apesar do referido voluntarismo, não têm. Para além de investidores, precisam de nós, e nós somos poucos.

Restam as políticas públicas e alguma coragem. Pagamos mensalmente 2,85 euros+IVA em Contribuição Audiovisual (cerca de 180 milhões de euros por ano dedicados à RTP e ao serviço público). Se estivermos dispostos a beber menos um café todos os meses, com custo aproximado de 60 cêntimos, poderíamos gerar cerca de 37 milhões de euros para distribuir de forma equitativa e justa por rádios, televisões e jornais nacionais e locais.

Não é caro. Um café por mês para manter a democracia é preço módico. Caro será não querer parar os ventos porque se ache que os ventos não se param. Param – desde que não se usem apenas as mãos.

*Por Vítor Cunha, administrador da JLM&Associados

Deixe aqui o seu comentário