Virar de página ou mudar de capítulo?

Por a 21 de Janeiro de 2021
Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

Muitos acham que estamos no dia 40-e-alguma-coisa de Dezembro de 2020. Outros que estamos em período experimental e o mesmo deve ser cancelado de imediato. 2021 chegou. E, ao contrário de outros anos, ao invés de nos fazer imaginar o futuro, parece fazer olhar para um passado recente como se o mesmo estivesse de pedra e cal impedindo o mundo de virar a página. E é bem verdade. Não vai virar a página. Vai mesmo mudar de capítulo completamente com todo um novo enredo.

 

A TV cada vez mais TV

2020 foi o ano do Disney+ em Portugal, da entrada da Amazon Prime Video pela Vodafone, da estreia do Opto da SIC, a expansão do RTP Play e TVI Player nas smart TV e mais se seguirá com mais serviços a caminho. A TV do televisor está mais rica e mais imersiva, mais personalizada e com um universo em expansão de conteúdos. Se outrora passámos dos quatro canais para 100, hoje a noção é mais do que canais e serviços, é de milhares de títulos. As marcas mais fortes e apaixonantes sobreviverão à tirania da confusão e do ruído. E aos anunciantes não será necessário mais do que, em primeiro, seguir quem é mais seguido e anunciar onde há mais olhos a ver, pois claro, e onde a data permita a melhor segmentação. O AVOD é a nova batalha.

 

Apps e websites próprios

O retorno nos canais próprios será brutal aos que melhor tiverem apostado neles, ao invés de tentar lutar por uma frincha de luz por entre a ditadura dos algoritmos das redes sociais e dos milhões de conteúdos user generated content que neles viajam, para além dos já populares influenciadores. As apps continuam a ser um investimento alto e de algum risco, mas aos que apostam de forma pensada, sólida e sustentada, com evoluções ao serviço, o retorno pode ser assegurado e com espectaculares capacidades de obtenção de first-party-data, registos, estratégias pull, subscrições e compra. A profundidade de análise de dados em analytics será também cada vez mais ao detalhe dos comportamentos do consumidor e não apenas a páginas e ecrãs visitados ou ao funil.

 

Cookieapocalipse

Vem a caminho. A corrida para o RGPD foi veloz e a fome de recuperar os dados dos utilizadores perdidos foi voraz. Mas a guerra ainda só agora começou. Os avisos e bloqueios recentes do Google e Apple (basta ver a resposta mediática do Facebook a estes últimos…) já fizeram soar os alertas. As marcas precisarão rodear-se de mais parceiros e ter mais alternativas. Em Portugal, o Nónio pode ser uma delas. No resto do globo vários países oferecem soluções similares. Em suma: ter uma estratégia de data própria e relações com quem tenha data de qualidade será estratégico. Melhor, será crucial.

 

Pesquisas visuais

Depois do Pinterest Lens e do Google Lens chegou a Apple que promete à frente um nível acima, tendo para já lançado o Lidar. No iPhone 12 este sensor agora nas nossas mãos é mais do que um ‘gimmick’ tecnológico, é mais uma porta aberta para o que é o novo normal. A possibilidade de ‘vermos’ (os nossos telefones, melhor dizendo) o mundo de forma aumentada. As pesquisas apenas e só de texto vão dividir espaço com a câmara. Ao invés de pesquisar o vinho com texto já usamos a câmara do Vivino um a um – mas agora imagine passear a câmara pelos rótulos dos 35 vinhos na prateleira e em tempo real obter as reviews. Ou apontar à fila de restaurantes na rua ao invés de procurar um a um no Zomato. Na TVI recuperámos os QRCodes para as emissões de TV e, quando bem usados, são um sucesso – mais do que pesquisar títulos, apontamos a câmara e pagamos, pesquisamos, viajamos. Um novo normal. E será graças a estes sensores e tecnologias que o que vem a seguir evoluirá também.

 

Shopping com realidade aumentada

Em ano de revolução no e-commerce várias marcas já estão desde alguns anos a investir neste cruzamento da imagem com o shopping. Da Ikea com o seu simulador para vermos os móveis à escala na nossa sala ou quarto, à L’Oréal com make-up para videochamadas ou à Sephora e a sua app Visual Artist. O mundo tornou-se mais visual e as compras não vão ficar de lado. Do B2B ao B2C vários projectos mostram que o antes não volta mais.

 

Shoppable posts, shoppable articles

Depois dos websites e apps de e-commerce, as marcas vão acentuar a aposta nestes itens para furar os seus produtos e serviços por entre o barulho. Nas redes sociais a equipa de Zuckerberg fugiu ao imaginado há uns anos, com mini-websites no Facebook, e apostou mais cedo que o esperado com posts de shopping no Instagram, no feed e em stories. O TikTok pode ser o próximo. Quanto aos conteúdos escritos na blogosfera e nos media, todos os dias recebemos dezenas de dicas de compras, orgânicas umas, patrocinadas outras. Gostamos de compras. Gostamos de nos imaginar mais jovens, belos, magros, atléticos, a comer melhor, viajar mais, beber novos néctares e experimentar coisas fantásticas. Mesmo que não o possamos fazer ao vivo, vamos querer ‘ver’ em detalhe quanto custa, como é, o que traz de benefícios para a minha vida quando um dia puder comprar.

2021 não é o prolongamento de 2020 nem o virar da página. É mesmo o prólogo de um novo capítulo.

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