Faleceu Rosalina Machado, a primeira mulher a dirigir uma agência Ogilvy no mundo

Por a 25 de Janeiro de 2021

Rosalina MachadoFaleceu aos 80 anos Rosalina Machado, nome histórico da publicidade nacional e a primeira mulher portuguesa presidente de uma multinacional. Esteve duas décadas ligada à gestão da Ogilvy.

A gestora e publicitária, que era presença frequente nas revistas do social, recordou em 2010 em entrevista à revista VIP como entrou no mundo dos negócios e da comunicação. “Havia um primo direito da minha sogra, o Manuel Queiroz Pereira, que tinha nessa altura o jornal A Capital e convidou-me para estar à frente do suplemento feminino. Nessa altura contratámos uma agência de publicidade para divulgar aquele que foi o primeiro suplemento a cores. Eu tinha 23 anos. O suplemento era sobre a mulher na vertente política, desportiva, etc., e foi um  sucesso. Entretanto, veio o 25 de Abril e essa agência que trabalhava connosco abriu falência. Várias pessoas amigas, entre elas o António Dias da Cunha, que era administrador do Entreposto, e o presidente da Varig perguntaram-me porque é que eu não começávamos uma agência. Logo ali escolhemos o nome: DC3, os aviões em que a Varig começou a voar antes de passar para Boings”, disse.  Segundo contou Rosalina Machado na mesma entrevista, a DC3, que abriu portas em 1976, esteve durante “cinco ou seis anos entre as dez maiores agências de publicidade. Nessa altura, a multinacional Ogilvy andava em Portugal a estudar a compra de uma agência ou começar uma de raiz. Uma prima minha que conhecia o presidente europeu pediu-me para dar informações sobre as pessoas e empresas que eles já tinham seleccionado. A meio do processo, o presidente da empresa disse-me que gostava de fazer essa empresa comigo”.

Estávamos em 1986. Rosalina Machado acabaria por se tornar na primeira mulher a dirigir uma agência de publicidade Ogilvy no mundo, um cargo que ocupou durante duas décadas.  Além disso, foi  a primeira mulher a gerir uma multinacional em Portugal. Rosalina Machado contou várias vezes como foi recebida na primeira reunião internacional da network da Ogilvy & Mather em que participou em Milão. Quando disse à recepcionista que era a presidente da agência em Portugal, a mesma duvidou: “Mas é secretária de quem?” Nunca antes uma mulher tinha estado, de igual para igual, à mesa com outros homens de uma das principais networks de publicidade do mundo.

Na mesma entrevista à VIP Rosalina Machado admitia que  nunca tinha pensado em dirigir uma agência. “Havia alguns problemas entre as multinacionais e as empresas locais e eu não estava interessada em entrar nesse conflito. A verdade é que acabei por aceitar. Ainda hoje não sei qual o grau de inconsciência, mas foi um risco que resultou. Hoje, que estou retirada, sinto mais que fui uma referência no feminino do que sentia na altura. Tinha a perfeita noção de que a minha carreira podia ter acabado ali e de que muitas pessoas que estão à frente das empresas têm um reconhecimento interno, mas não têm reconhecimento do outro lado da rua. Eu consegui, felizmente, ter os dois”.

Foi em 2009 que, após quatro anos no cargo de chairwoman da Ogilvy, vendeu a sua participação de 12,5 por cento na agência à WPP, que passou a controlar 100 por cento da unidade em Portugal. A partir daí não voltou ao sector da publicidade. “Eu não quero estar em nada em que não conheça em pleno a estratégia. E o cargo que eu ocupava nos últimos anos, chairwoman, não me dava qualquer poder. Quando me propuseram o lugar aceitei-o talvez por uma questão de ego. Hoje não o teria feito”, admitiu então ao Diário de Notícias.

“O seu legado para a história nacional, e para a história da publicidade em Portugal, ficará para sempre ligado ao pioneirismo e emancipação feminina e também ao nascimento e crescimento da Ogilvy no nosso país”, refere a agência BAR Ogilvy (ex-Ogilvy), em comunicado enviado às redacções.

 

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