O efeito dos feitos

Por a 17 de Setembro de 2020

ricardo mirandaPessoas precisam de heróis. Dão-nos um shot de estamina. Fazem-nos sentir que hoje pode ser o dia em que tudo muda. Antes tínhamos o Cristiano Ronaldo. Mas o Cristiano já não é um herói. É um semideus. Inimitável. Inalcançável. Miguel Oliveira é de outro desporto. Outra geração. Outro mundo. Ainda sentimos que trava a luta do dia-dia. Ainda nos faz sentir que é como nós. Se ele pode, eu posso. Na verdade, não é. Mas parece. E marcas são um jogo de percepções.

Tal como CR7, o seu talento é reconhecido há muito. Com 10 anos ganhou logo uma prova internacional no estrangeiro.

Tal como CR7, Miguel Oliveira já é trabalhado como uma marca. MO88. Teve o cuidado de ir construindo a sua marca pessoal, ao longo dos anos. O seu agente sempre teve a preocupação de procurar patrocínios – tal como Jorge Mendes o fez com CR7, quando este entrou na fase adulta. Em 2012, com 17 anos, Miguel Oliveira já era patrocinado pela Repsol, que lançou a acção “Corre, Miguel, corre” para o apoiar a competir no mundial de motociclismo. Várias outras marcas acompanharam o seu percurso. Hyundai, Meo, Cofidis, ACP, Autódromo Internacional do Algarve, entre outras.

Ou seja, Miguel Oliveira sempre foi tratado como uma marca.

A vitória dramática obtida em Agosto não muda tudo. Mas muda muito. Foi um grande feito.

De repente, Miguel Oliveira entrou no nosso imaginário colectivo. A sala de tronos dos nossos heróis ganhou mais uma cadeira. Não é para todos.

Ao ganhar aquela prova, ganhou escala. O seu feito tornou-se viral. Cá dentro. Lá fora. E “lá fora” é o grande critério pelo qual os portugueses medem o sucesso dos portugueses.

Miguel Oliveira é agora uma marca (bem) mais forte. Qual o efeito que isso tem?

Pode agora negociar e renegociar contratos de uma posição mais elevada.

Pode aspirar a patrocínios de empresas que não estão directamente ligadas ao seu sector de actividade, mas que podem estabelecer uma relação com o seu espírito engenhoso de conquista. Antes era sobretudo patrocinado por marcas ligadas ao sector automóvel. Era aqui que era reconhecido. Agora ganhou transcendência. Pode pensar em associar-se a marcas desportivas, relógios, bancos, seguradoras, ginásios, suplementos alimentares, barras energéticas, entre outras. O foco deve estar na existência de uma relação real de relevância de parte a parte, seja pela actividade, valores, discurso, imagem.

Deve também continuar a valorizar as marcas que o ajudaram a dar o salto. Foram elas que o fizeram acelerar. A fidelidade deve ser premiada.

Mas precisa de ter atenção, porque o esquecimento pode estar ao virar da curva. Foi uma grande vitória, mas a este feito deve suceder-se outro e outro e outro. Miguel Oliveira deve continuar a dar cartas na estrada para se manter no top-of-mind dos heróis nacionais.

Artigo de opinião de Ricardo Miranda, creative founder da Wonder\Why

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