Budget ou compromisso?

Por a 5 de Agosto de 2020
Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

Que budget vamos todos nós criar este ano? Num cenário apocalíptico, estaremos enraivecidos pelo facto de o Elon Musk ainda não ter descoberto uma forma de nos permitir fugir e nos pôr a viver em Marte (não fugir do planeta, entenda-se, mas sim do exercício do budget!). Já num cenário idílico… Um momento: ainda há quem acredite em cenários idílicos como prováveis!?

As nossas vidas regem-se por rotas. Imaginárias umas, efectivas outras. Desenhamos na nossa mente ou no papel um caminho que, achamos, nos levará ao resultado (mais ou menos claro, isso já depende) e vamo-nos orientando, medindo a distância a que estamos do caminho (e aqui jaz por vezes o problema, pois há quem se preocupe mais em medir a distância para o caminho do que aquilo que mais interessa, a distância para o objectivo; ao que por vezes percebemos que por aquele caminho não vamos lá e criamos outro rapidamente, mais eficaz).

O cenário (para quem se rege pelos anos civis) deste próximo budget não poderia ser mais VUCA  (volatility, uncertainty, complexity, ambiguity). Aliás, façamos uma pausa. Aproveitemos este segundo para nos rirmos, quando outrora dizíamos que nesse tempo é que era VUCA (!). Urge, portanto, reflectir sobre esse exercício. Ao invés de recriá-lo. Talvez refundá-lo. Com a maior honestidade intelectual e profissional ninguém poderá traçar um caminho. Aliás, pode, o caminho da sobrevivência, ‘lato senso’ falando. Mas percebemos todos que a alternativa deve ser debruçarmo-nos por vários cenários, caminhos, hipóteses, e fecharmos num número reduzido para nos prepararmos.

Fácil, na aparência… só na aparência.

Quando começamos a conjugar todos os factores imponderáveis e a estimar, as variáveis multiplicam-se e somos derrotados pela miríade de variações em que já estamos e nas dezenas de cenários. Qual a resposta então? Como simplificar?

Voltei atrás uns anos. Duas situações me ocorreram no nosso contexto: uma, com mais de 10 anos, quando traçávamos cenários na chegada do Facebook e do Twitter e ambicionávamos saber qual venceria (pois claro, para logo apostar cedo nessa); a segunda, já mais tarde e em meados da década passada, na estimativa de quando achávamos que o vídeo-mobile irromperia (de novo para dele podermos tirar partido mais cedo do que a concorrência, mas não demasiado cedo para não esbanjar sem proveitos justificáveis os nossos… lá está, budgets).

Uma das ajudas aos vários especialistas – sobretudo nestes dois casos – foi identificar os vectores principais. E a chave esteve aqui mesmo nessa palavra: Vector.

Há três componentes a ter em consideração num vector: a sua magnitude, a sua direcção e o seu sentido (não confundir: podemos ter direcções iguais mas o sentido ser oposto).

Nos casos passados, e agora para os casos futuros, a identificação dos vectores que impactarão é relevante, mas sobretudo atentar e seleccionar quais os que efectivamente terão força para serem considerados, bem como a direcção e sentido que impactem a nossa empresa ou sector (ou nos bolsos dos nossos clientes). Aos restantes vectores (de menor força e direcção e sentido) que se cruzam com o nosso caminho, é ignorá-los, ou não sairemos de um exercício teórico que tende ao infinito.

O passo seguinte será juntar os vários vectores identificados e, só aí, traçar os vários cenários para os quais fazer, de raiz e não recriando exercícios que tiveram de base outros vectores, os nossos caminhos possíveis para os próximos 12 meses.

Não se afigura fácil. E é, sem dúvida, um exercício que será sempre em parte errado – só saberemos quanto dali a 12 meses. Mas lembremos um dos reptos que Jeff Bezos lança várias vezes aos seus colaboradores mais próximos: “Ainda que eu possa estar errado, é o que temos – mas estás comigo?”.

Será crítico este compromisso de todos para os difíceis tempos que se avizinham. E bem mais útil do que qualquer budget.

 

*Por Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

 

 

 

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