Sonho de uma noite de Verão

Por a 15 de Julho de 2020
Vítor Cunha, administrador da JLM&Associados

Vítor Cunha, administrador da JLM&Associados

Dizem que está tudo nos clássicos. “Sonho de uma noite de Verão”, de W. Shakespeare, é uma comédia sobre os desencontros do coração, ou como na floresta de enganos da vida muitas vezes se confundem emoções – e até um burro disfarçado de gente pode ser objecto de amor profundo.

Vem esta evocação e invocação a propósito da mentira que vivemos, neste tempo de pós-confinamento que é, afinal, tempo de confinamento: estamos aprisionados pelo destino e pelo mafarrico. Vem aí o diabo.

As notícias e as previsões andavam por aí há meses, mas só alguns agoirentos tiveram a coragem de contrariar a conversa pérfida.

Consultoras, Universidade Católica, economistas menos dependentes já tinham avisado para os cenários mais adversos. Como em 2007, quando fomos informados para a Tempestade, ninguém quis nem quer ouvir.

Agora preparem-se. Preparemo-nos: estamos a começar a sentir aquela que é a nossa maior crise de sempre. Vamos empobrecer tristemente, admitindo que um indigente pode ficar ainda mais pobre. Vão falir milhares de empresas; o desemprego vai subir vertiginosamente; o desespero, a fome e a miséria vão regressar perante a incredulidade de gerações de portugueses que nunca puderam viver o sonho de uma noite de Verão. Ou só o viveram por uma noite.

Perante a catástrofe que se vê já do outro lado da rua, o que dizem as nossas lideranças? Dizem pouco. Não se percebe se o fazem por ignorância ou medo. Vivem deliciados, como os elfos de Shakespeare, numas disputas insanas, em triângulos amorosos: PSD ama PS, que ama Bloco, que ama PS, mas PS ora ama Bloco ora ama PC, ora ama PSD – todos odeiam Ventura. E na penumbra aproveitam para dar golpe e encerram politicamente a Assembleia da República porque o líder da oposição não quer que o PM se mace muito. O amor ora é estranho, ora perigoso.

Ainda nos lembramos da crise de 2008 e que só terminou em 2015. Pelo meio falimos e a famosa troika impôs um programa violento, que revelou algumas vantagens temporárias. Com dor e sofrimento, o governo da altura aproveitou para emagrecer o Estado (mas, na verdade, boa parte dos recursos libertados foram apropriados pelos credores). O dr. Centeno sabe de que massa somos feitos e descobriu a magia délfica das cativações e o milagre do superavit. Como todos os milagres, durou pouco, porque o vírus chegou e liquidou o conto.

Neste entretanto – até ao diabólico vírus surgir – vivemos a ilusão: Web Summit, geringonça e paz social, reversões em nome do Povo, turistas e fundos de investimento, sol, praia, segurança, simpatia e caldos de galinha. Um mix poderoso. Ao mesmo tempo perdemos mais uma oportunidade. Insistimos em fórmulas gastas, “recuperámos” empresas e sectores do passado, o Estado não se modernizou, o fisco continuou o processo parasitário de nutrição, o serviço da dívida de famílias, empresas e Estado continuou a absorver uma parte gigante do nosso esforço, mas o sol, os brasileiros ricos e artigos simpáticos nas revistas de viagens americanas tudo obliteraram porque o engano é doce e a realidade é dura e inconveniente. Nunca esquecer, contudo, que temos sardinhas e sol e praia e somos seguros e temos muito sol e somos muito simpáticos porque gostamos de receber estrangeiros e dar indicações em inglês aos turistas, porque todos os portugueses falam inglês, precisamente porque aprendemos inglês a falar na praia com turistas inglesas (todas as turistas parecem inglesas) que adoram Portugal e o nosso sol e a nossa gastronomia, desde logo a conhecida paelha de Albufeira.

Aqui chegados, vamos ter que explicar aos nossos filhos o mistério que é Portugal: “So foul and fair a day I have not seen” (Macbeth). Como fomos capazes de falhar tanto e tantas vezes, por que razão os condenámos a serem pobres, que o sol radioso da planície não é para todos, que a liberdade não está garantida, que o Estado não é sério, e, mais do que um sonho de Verão, resta-lhes um perpétuo Inverno de descontentamento. “Hell is empty and all the devils are here” (A Tempestade).

*Por Vítor Cunha, administrador da JLM&Associados

 

 

 

 

 

 

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