Quatro breves lições

Por a 16 de Junho de 2020
Vítor Cunha, administrador da JLM&Associados

Vítor Cunha, administrador da JLM&Associados

Nunca uma Primavera foi tão efémera e nunca o tempo passou como este passou. A crise da covid-19 já nos trouxe mais sabedoria do que 100 anos de experiência e já nos trouxe mais dúvida do que um Tratado da Certeza. Hoje sabemos mais porque nos aproximámos da ficção científica e sabemos menos porque a Ciência nos traiu e nos remeteu às trevas medievais onde também cabe a esperança, mas o espaço maior é preenchido pela ignorância. O que aprendi eu, então?

 

1.O teletrabalho é e não é o futuro. Neste particular confirmámos todas as questões e garantimos algumas respostas. É evidente que um guia turístico ou de museu ou operário da construção não podem fazer o seu trabalho à distância. Queixam-se alto alguns destes das misérias da vida, mas essas misérias não mudam porque se fala alto. Uns perdem e uns ganham e os guias não sobrevivem a pandemias, tal como os velhos e outros doentes de risco. É injusto? É muito injusto, mas ninguém está a falar de justiça, mas da vida. As revoluções industriais podem ser lentas, mas as sanitárias chegam rápido e matam quem persistir no passado. Em relação a tudo o resto, a distância ou a presença não transformam um mau profissional num bom, nem muito menos um bom num mau. Mais uma vez, não deixemos que instrumentos ou plataformas nos confundam e percamos quem faz a diferença: as pessoas – e não há coisa melhor do que trabalhar com pessoas que trabalham bem, seja no aconchego do escritório, ou no remanso do lar.

 

2.Quem depende de espaços públicos perdeu. Sim, músicos, actores, palhaços, técnicos de pirotecnia, pintores, feirantes, organizadores de eventos e criadores de experiências viram as suas receitas descer abaixo de zero e as vidas destruídas. Desconfinar e voltar ao tempo que amávamos vai ser difícil e lento e todos estes vão sofrer ou ter que mudar, como se a mudança fosse coisa fácil e o sofrimento opção. Pode o Estado (ou seja, podemos nós com os nossos impostos) aliviar perpetuamente quem tudo perdeu? Não, não podemos. E corremos o risco de suscitar novos ódios, como se os inadaptados carregassem tinha e lepra. E é bom não esquecer que a precariedade de um feirante não é menos digna do que a de um “agente cultural”.

 

3.Os servidores do Estado não são privilegiados. A tensão entre servidores e pagadores sempre foi alta. Aqueles que pagam só confirmam o esforço daqueles que servem quando caem nas suas mãos. Ser funcionário público em Portugal é viver numa mentira: só eles conhecem o sacrifício que têm de suportar, sabendo que o patrão raramente os valoriza. Um professor que ganhe 1500 euros e tenha que gerir cinco turmas de falhados e delinquentes prefere (e bem) transformar-se também ele em delinquente e iniciar carreira como dealer dos seus ex-alunos. E ainda faz amigos em vez de receber facadas. Esta crise, mais do que exibir as incongruências e deficiências na saúde (o não-covid vai matar silenciosamente milhares de pessoas, basta ver que diagnóstico a certos tipos de cancro desceu 85 por cento no período) mostrou a falência do Ministério da Educação – à atenção de biólogos e arqueólogos: trata-se do único Tyrannosaurus Rex vivo que resta no planeta Terra. A ideologia estatista e a pobreza do dono e patrões (Estado e alguns sindicatos, portanto) deixam à mostra o buraco que só acrescenta visibilidade às diferenças entre ricos e pobres.

 

4.O papão aproveitou a distracção e cresceu. Não vejo nada mais perigoso para os nossos futuros do que o crescimento exponencial do Estado – a que estamos a assistir sentados e sem reacção. As ideologias conservadoras e respectivas agremiações políticas (BE, PCP e parte do PS) têm uma agenda retrógrada de submissão do indivíduo e de toda a sociedade ao Estado e aos seus “capi”. Infelizmente não há quase ninguém que faça ou queira fazer a contradita ao socialismo. Da autocensura em nome do interesse nacional à vulgata da mão estendida, operários, patrões, intelectuais e desempregados assistem sem incómodo à proletarização do país, ao nosso empobrecimento histórico, e com clara noção de que caminhamos para lado nenhum. Obviamente, para esta tarefa de combate não podemos contar com políticos porque a ambição da perpetuidade é inimiga de acção.

 

 

 

 

 

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