“O país precisa cada vez mais dos media e os media precisam da ajuda do país”

Por a 5 de Junho de 2020
Américo Aguiar, presidente do conselho de administração do grupo Renascença Multimédia

Américo Aguiar, presidente do conselho de administração do grupo Renascença Multimédia

A forma como a pandemia está a impactar a rádio, o pacote de ajudas do Estado, os anunciantes, as marcas do grupo, o panorama e desafios da rádio em Portugal, os players internacionais e a transparência, ou não, dos GCS, são alguns dos temas abordados em entrevista ao padre Américo Aguiar, presidente do grupo Renascença Multimédia e, desde Maio do último ano, também bispo auxiliar de Lisboa. A entrevista completa foi publicada na edição 861 no M&P.

 

“Quando se defende os media, defende-se a sociedade democrática, protege-se a comunidade, evitam-se as fake news e aprofunda-se a cidadania. Não queremos mais, mas também não queremos menos do que isto”. É assim que o padre Américo Aguiar, presidente do grupo Renascença Multimédia desde 2016 e, desde Maio do último ano, também bispo auxiliar de Lisboa, justifica o apoio que deve ser dado aos media, muito afectados pelas consequências da pandemia.

Meios&Publicidade (M&P): É inevitável começar pela actualidade. O governo anunciou um “pacote” de 15 milhões de apoio aos media, embora ainda não esteja definido como vai ser distribuído. Como é que vê o apoio anunciado?

Américo Aguiar (AA): Efectivamente, nestes tempos inéditos, vivemos mais do que nunca a par com o mundo. A actualidade conquista a nossa atenção, pelo que é natural que esta pergunta venha em primeiro lugar, uma vez que a notícia dos incentivos às empresas de comunicação social foi anunciada recentemente pelo governo. Neste tempo especial a pandemia ameaça a saúde e põe em causa a economia e, desse modo, a subsistência dos modelos de vida das pessoas e das famílias. Neste contexto, percebeu-se, finalmente, que a informação séria é indispensável ao equilíbrio e à recuperação do país. Os media, e a rádio em particular, são essenciais no acompanhamento de proximidade – informativo, independente, interactivo. Como teria decorrido toda esta situação de emergência sem comunicação social credível, de resposta eficaz e permanentemente disponível?

O país precisa cada vez mais dos media; e os media precisam da ajuda do país. Neste quadro, o mecanismo da compra de espaço publicitário parece constituir um meio adequado para o Estado reconhecer a importância dos media na sociedade democrática. Mas o valor apontado é manifestamente insuficiente.

Se apoiar o jornalismo de referência, como factor de esclarecimento e ajuda à população, é um aspecto de tão grande importância, é indispensável que o apoio corresponda a essa urgência e constitua uma ajuda robusta. A uma situação de emergência é necessário responder com medidas de emergência. E, a menos que as próximas semanas nos tragam outros dados (e era bom que tal sucedesse), a ajuda anunciada é ainda tímida.

Quando se defende os media, defende-se a sociedade democrática, protege-se a comunidade, evitam-se as fakenews e aprofunda-se a cidadania. Não queremos mais, mas também não queremos menos do que isto.

 

M&P: Como é que as consequências da pandemia se estão a reflectir no grupo Renascença?

AA: Essencialmente a dois níveis. Em primeiro lugar, imprimindo uma acelerada dinâmica de transformação de processos e, em segundo, criando forte pressão financeira.

Em poucos dias foi necessário utilizar todo o know how tecnológico do grupo, bem como a capacidade de adaptação das pessoas para alterar profundamente a forma como desenvolvemos a nossa actividade. Fomos, de resto, o primeiro grupo de rádios a fazer todas as suas emissões integralmente a partir de casa dos seus profissionais. Não foi só necessário salvaguardar as pessoas, mas, com isso em primeiro plano, garantir a qualidade do nosso produto. O grupo preparava-se para apresentar excelentes resultados no primeiro trimestre do ano, com crescimento acentuado do investimento em todas as nossas rádios, não só nos produtos tradicionais como também no digital. Esta pandemia inverteu o ciclo.

Cabe-nos agora, com o nosso público que se manteve fiel e não dispensa a rádio, e em conjunto com os nossos parceiros – anunciantes, marcas e agências -, trabalhar fortemente para achatar a curva desta depressão.

 

M&P: O investimento em rádio, em Janeiro/Fevereiro, estava a crescer nove por cento e fechou Março com uma quebra de 7,7 por cento. A depressão foi de quanto no grupo Renascença?

AA: Como já tinha referido, o grupo entra em 2020 com muito bons resultados. Estivemos a crescer acima do mercado nos primeiros dois meses e perdemos menos do que o mercado. Ainda assim, a travagem a fundo da economia levou a uma perda muito significativa da nossa receita, com impacto profundo e irreversível nos resultados deste ano. Mas seremos certamente capazes de reverter a situação, apoiados nas nossas equipas, nos nossos parceiros e na relação inabalável com os nossos públicos, pela qual trabalhamos hora a hora, todos os dias e em todas as nossas marcas e serviços.

 

M&P: “A história da rádio é uma história de resiliência: muda e reinventa-se”. E agora, vai ser necessário voltar a reinventar-se? 

AA: A rádio vive desde sempre uma história de reinvenção permanente. Inicialmente impulsionada pela transformação dos meios de difusão e de recepção, e mais tarde pela transformação digital. Esta reinvenção da rádio, até aqui muito motivada por evoluções importantes na tecnologia, sofre agora múltiplos impulsos: ainda a tecnologia, que continua a acrescentar dimensões à comunicação, como é o caso das emissões de vídeo ao vivo, em streaming, ou a integração das redes sociais, que altera o alcance e o momento em que os conteúdos são consumidos, mas com alterações também importantes nos conteúdos, muito influenciados pela vida das pessoas que os fazem e consomem. A rádio deixou de ser música e informação, são agora também conteúdos originais de entretenimento, com humor, informação, actualidade e música, combinados e distribuídos de forma original. A grande reinvenção da rádio está já há algum tempo a acontecer e vai continuar, na forma como se integram neste ecossistema as personalidades, que cada vez procuram mais as rádios como alavanca da sua notoriedade, os ouvintes que querem estar cada vez mais por dentro das histórias, e as marcas que querem estar mesmo dentro destas histórias. Se, ao longo desta crise, estivemos no centro a contar a história, no regresso voltaremos com criatividade redobrada, com novas histórias para contar, com personalidades e marcas dentro e os portugueses no centro.

 

M&P: “Com personalidades e marcas dentro”. Como é que as marcas têm estado a reagir? Após a audiência com Marcelo Rebelo de Sousa, voltou a referir que as ajudas anunciadas não eram suficientes, perante a quebra de receitas. Já consegue estimar quanto vai ser a quebra nos próximos meses? Ou se as marcas, de alguma forma, estarão dispostas a manter o investimento, até como forma de responsabilidade social?

AA: As perdas têm sido muito significativas, irrecuperáveis e transversais aos media. Todos se queixam. E claro que, dada a escala a que essas perdas acontecem, as ajudas não vão ser suficientes. Mas há esperança. Cremos na capacidade de o país sair com passos sólidos desta situação e de que esta esteja no fim. Por outro lado, se num primeiro momento as marcas fizeram parar praticamente toda a sua comunicação, o que se entende por ser necessário repensar e adequar a mensagem, logo a seguir tivemos uma reação positiva de algumas marcas no apoio e na retoma da actividade. Nesta fase começamos a encontrar uma forte vontade de retomar actividade. E sabemos que podemos ajudar. As marcas também sabem. Em linha com a minha resposta anterior, sabem o valor de conteúdos com gente dentro, que envolvem e se envolvem com os seus públicos. E já sentimos no mercado essa intenção e mesmo algumas acções. Mas ainda temos todos de trabalhar muito para chegar aos valores de receita que permitam sustentar a actividade da empresa. Como dizia, há esperança. Assim o desconfinamento ocorra da forma prevista, sem sobressaltos, sólido, etapa a etapa. Se isso acontecer, tenho a certeza de que sairemos com os portugueses da crise, desempenhando o nosso papel de catalisadores de retoma. Se isso acontecer, estimamos terminar o ano com os níveis de facturação abaixo do nosso plano inicial e ainda levará mais de um ano para recuperarmos as perdas que teremos em 2020. Assim aconteça.

 

M&P: O grupo terminou 2019 com resultados positivos?

AA: O grupo Renascença Multimédia foi fortemente afectado pela séria crise económica de 2012, que teve acentuado impacto no mercado publicitário e nos media. Estávamos já nessa altura a adoptar uma série de medidas, numa estratégia de optimização de recursos e processos, procurando melhorar a nossa eficiência, aproveitando simultaneamente para executar um processo de transformação digital e melhorar a criação e distribuição de conteúdos. No decorrer deste processo, fizemos investimentos em recursos humanos e tecnológicos, evoluindo para um novo edifico sede onde pudemos pôr em prática toda a estratégia delineada: evolução do produto, alargamento das plataformas de distribuição, melhoria de todas as infraestruturas de produção de áudio e vídeo, para sermos mais rápidos, mais ágeis, mais completos nos conteúdos e mais económicos na operação. Dessa transformação, que implicou um forte esforço e investimento, começávamos recentemente a ver resultados. Terminámos 2019 com resultados claramente positivos, depois de mais um ano de investimentos importantes em recursos humanos e tecnológicos. São esses investimentos e todo esse processo que nos permitem hoje estar à altura de desafios como este da covid-19. Se não tivéssemos feito este percurso, não seria possível lidar com esta crise, nem manter todas as equipas a trabalhar, nem executar a muito rápida mudança que operámos nas últimas oito semanas, levando a quase totalidade das equipas a trabalhar remotamente, com mínimo impacto na produção e distribuição de conteúdos, cumprindo todas as nossas obrigações com marcas e parceiros e, acima de tudo, salvaguardando a segurança dos colaboradores do grupo.

 

M&P: As rádios do grupo tinham uma série de eventos fora de antena, como o RFM Somnii ou concertos da Mega Hits. Quanto é que essas receitas representavam?

AA: Os concertos e festivais são para o nosso grupo uma importante oportunidade de ligação com a música, e com os públicos que nos são comuns. Somos certamente o grupo de media em Portugal com maior envolvimento com eventos de música, sejam concertos ou festivais. Associações com o RFM Somnii, Rock in Rio, Meo Sudoeste, Super Bock Super Rock, Sumol Summer Fest, mas também o nosso Fado In Chiado e Fado in Porto, ou o apoio a múltiplos eventos culturais, representam, mais do que receita, um valor importante em termos de investimento em promoção das nossas marcas. As recentes notícias significam a perda de uma componente da nossa facturação mas, mais ainda, a perda do contacto directo, num ambiente de partilha, de festa, de proximidade com os ouvintes. Contudo, a rádio move-se. Seremos pró-activos na busca de soluções.

 

M&P: Alguma em concreto?

AA: Há muitas ideias, todas com uma coisa em comum: os portugueses estão no centro.

 

M&P: Em Portugal temos o grupo Renascença, a MCR, o grupo RDP, a TSF e, no último ano, surgiu a Rádio Observador. Como descreveria o panorama das rádios nacionais?

AA: Portugal é um mercado pequeno. Em termos de população somos mais pequenos do que muitas cidades do mundo. Mas, em compensação, temos uma diversidade cultural importante e uma dispersão geográfica assinalável. É também impressionante a quantidade de tradições vivas. Tradições gastronómicas, culturais, religiosas e até mesmo familiares. São muitas vivências que coexistem, enriquecendo o nosso povo, mas um desafio quando se programam rádios. Nas rádios nacionais temos tido um incrível sucesso com as principais rádios musicais, que se apresentam num território comum – a música e humor, pontuadas por informação e desafios, que unem os ouvintes à volta de uma cultura urbana comum. Pela dimensão de mercado que as escolhe, conseguem uma rentabilidade mais significativa e um sucesso que eu diria único na história da rádio portuguesa. São inclusivamente alavanca do crescimento da escuta de rádio, que tem atingido valores recorde. Ao contrário de outros países, as rádios “de palavra” não lideram, mas para aqueles que resolvem bem a difícil equação de combinar música e palavra, há também espaço e território para unir públicos com dimensão crítica.

Depois, penso que, muito motivada pela diversidade cultural, existe uma miríade de projectos, mais ou menos regionais, mais ou menos segmentados, que trabalham para mercados mais pequenos e cuja sustentabilidade é seguramente um desafio, pois a dimensão dos mercados em que operam nem sempre assegura a sustentabilidade económica, ainda que possam ter mérito. Acresce que, neste nosso tempo, os públicos são exigentes. São os tais do aqui, agora, o que eu quiser, como eu quiser, exigindo equipas muito esclarecidas, com conhecimentos técnicos sólidos, always on, multimédia, hiperactivas. O panorama para as rádios nacionais é desafiante. Disputamos a atenção com todos os outros meios, mais mass media ou mais de nicho, mais ou menos intrusivos. No grupo Renascença estamos preparados. Queremos ganhar essa disputa e manter a liderança do mercado. Mas não podemos esquecer que o nosso maior activo é, como sempre foi, a relação única e especial com as pessoas.

*A entrevista completa pode ser lida na edição 861 do M&P, com data de 15 de Maio

 

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