O algoritmo depressivo

Por a 30 de Junho de 2020
Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

Na última década não podemos estar alheios à aproximação que as plataformas sociais digitais nos vieram permitir – descobrir velhos amigos perdidos, comunicar com todos em pleno confinamento, encontrar a cara metade. Reforçámos o seu uso. Surgiram mais. Adoptámos mais. Reforçámos o uso ainda mais. Colocámo-las no primeiro ecrã do telemóvel. Não vivemos sem elas. Dizemos que nos ajudam a ver o mundo, estreitar laços com os outros e até viver mais divertidamente. Mas, então, por que nos questionamos cada vez mais sobre esta ‘dependência’?

Em 2004 Portugal recebeu de forma exemplar o Campeonato Europeu de Futebol, Mark Zuckerberg lançou a rede Facebook e, para não pensar que foi tudo perfeito, em Novembro desse ano George W. Bush foi reeleito presidente dos EUA. É também nesse ano que Tim O’Reilly populariza o conceito de Web 2.0 – uma nova fase para a internet, mais participativa e interactiva. E o seu máximo esplendor são as redes sociais, que vieram para nos alegrar os dias.

16 anos depois, o mundo habituou-se a elas e aos seus ‘feeds’, às ‘stories’ e aos ‘tiktoks’ e aos ‘lives’ e ‘likes’ e emojis e ‘memes’. Tudo é arco-íris e cor e alegria. E com o passar dos anos, mais utilizadores e mais tempo de uso.

Uma questão é: porquê?

A ironia parece agora estar a consolidar-se. Percebendo o volume de horas que milhões de seres humanos passam ligados, Google e Apple lançaram aplicações que controlam o tempo que nelas passamos e nos avisam se excedemos o normal. De novo, porquê a preocupação?

Voltemos à génese – na concepção dos algoritmos que gerem os conteúdos que nos são servidos em cada rede está um princípio base dos negócios = servir o cliente com aquilo que o cliente quer e retê-lo na loja. Mas, só isto não chega. Precisamos de interacções para ajudar à selecção. E aqui começa a parte interessante, a viciação dos resultados onde o prémio de jogo somos nós.

Em 2017, a Emotional Intelligence Agency descobriu que o conteúdo nas redes sociais que obtinha mais interacções era conteúdo ‘bonito’ ou ‘inspirador’ ou ‘divertido’. Mas, já em 2013, Jonah Berger descobriu que o conteúdo mais partilhado é o que está nos extremos das emoções: raiva, ansiedade, espanto, excitação e humor. Curiosamente, no final da década, outros estudos descobrem um ponto pertinente (em linha com o mundo offline) – os cliques nos anúncios nas redes sociais são maiores quanto mais positivo o ambiente e conteúdos que as pessoas vêem. Em sumárias palavras: um feed de gente e coisas bonitas faz-nos ficar mais tempo e com mais propensão para clicar em mais anúncios.

Provocadoramente, o meu ex-colega de faculdade Hugo Veiga resolveu atirar uma gota de loucura num mundo infestado de gente bonita, e manchar o lençol branco. Vejam lá, uma campanha com pessoas reais. Mulheres reais. Sem medidas perfeitas. A Dove marcou o mundo e não foi apenas o da publicidade. Ah, e sabem em que ano foi? Certeiro, 2004!

Mas, de novo, 16 anos depois, os galãs na televisão ainda têm de ser bonitos, as manequins maravilhosas e os apresentadores deslumbrantes. Nem todos. Felizmente, marcas há que já teimam (essas hereges) em buscar mais do que a estereotipagem da perfeição, uma aproximação à realidade.

Em 16 anos, os mesmos algoritmos que tentam mostrar-nos belos feeds (supostamente) inspiradores levaram ao surgimento de centenas de apps para ‘optimizar’ as nossas fotos e remover borbulhas, aumentar os olhos, clarear as retinas, emagrecer a barriga e o rabo e, magia, sermos pelo menos nalguns pixéis de ecrã aos olhos dos outros quase perfeitos, gerar mais cliques, gerar mais espanto – mas também, não raras vezes, mais frustração. Em quem vê, mas ironicamente até nos próprios que se publicam.

Viciados no feedback e na dopamina libertada por se verem mais aceites e ‘gostados’ (são incontáveis os estudos realizados na última década sobre este tópico) entram num loop de constante reforço de criação e partilha de conteúdos bonitos e ‘perfeitos’, obtendo mais likes e comentários. Quem quer receber no seu feed uma história triste? Ou pelo menos, recorrentemente? Quem vai ousar fazer like? Ainda que no Facebook possamos endereçar uma cara triste, no Instagram tal nem existe. E no TikTok o mundo é simplesmente alegre e divertido – sempre! Percebemos hoje, 16 anos depois, que os feeds e os seus algoritmos alimentam um mundo de escape, onde vamos sonhar, descobrir, tentando aí fugir da realidade (dura para milhões).

Esta para-realidade é, contudo, silenciosamente atroz aos que nela convergem sem perceberem as regras do casino. Aos mais expostos publicamente, sobretudo, é-lhes ‘pedido’ para manter a ficção – das capas de revista, dos papéis na telenovela, no filme, no concerto. Ali devem continuar a ser felizes, inspiradores, belos. Caso não o façam, a cruel descida de likes, seguidores, comentários e o ‘desinteresse’ da plataforma vetá-los-á. Um post mais sentimental é bem-vindo. Mas a persistência será cruelmente renegada ao esquecimento pelo algoritmo.

Quem sabe um dia, como hoje já felizmente vai começando a surgir em publicações e anúncios de várias marcas, também no cinema, na televisão e nos canais digitais os protagonistas serão gente comum e não gente perfeita. Alimentaremos os algoritmos com feedback que reverterá um mundo mais normal e menos idílico. E, sobretudo, que não assole rapazes e raparigas, homens e mulheres pelo mundo fora, a terem de esconder e encenar o que realmente sentem e querem dizer perante um jogo onde quem manda é um algoritmo que, afinal, só ali está para reter gente e poder servir anúncios para pagar as contas.

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