Money talks

Por a 24 de Junho de 2020
Jorge Faustino, Fullsix Portugal

Jorge Faustino, Fullsix Portugal

Com Money talks poderia estar a referir-me a um ciclo de conferências online, como muitas das “talks” digitais que surgiram nos últimos meses, mas uso esta expressão no seu sentido mais básico e cruel: é o dinheiro que manda. É ele que manda nisto tudo. É ele a razão pela qual tanta coisa voltou tão rapidamente a acontecer neste regresso à vida pós-isolamento.

Olhemos para o desporto, por exemplo, onde quase todas as modalidades que envolvem contacto físico e que, por isso, implicam algum grau de risco para os atletas, foram canceladas. Ligas profissionais e/ou campeonatos nacionais já não vão ser retomados. A saúde e segurança dos atletas está acima de tudo. Quase… No futebol, em particular na I Liga, e porque estão em causa muitos milhões de euros de direitos televisivos e de classificações para competições europeias para a próxima época, o dinheiro falou mais alto e a competição foi retomada. Money talks!

Já na área da cultura, a compra de bilhetes para assistir a espectáculos ao vivo é o que dá sustento a tantos artistas, promotores e outros profissionais dependentes desta actividade. Sem espectáculos ao vivo, boa parte da economia ligada à cultura seca e milhares de pessoas, muitos deles profissionais independentes sem rendimentos fixos e seguros, correm o risco de cair na miséria. Por uma questão de saúde pública e para reduzir os riscos que ainda vivemos nesta fase, o ideal seria que não acontecessem ajuntamentos de pessoas numa sala de espectáculos. Mas a economia fala mais alto e, mesmo que com limitações, já as salas de espectáculos estão a receber concertos, teatros e outras actividades culturais. Moneys talks!

Escolhi olhar para os dois casos acima por terem algo em comum que está a ser tratado de forma antagónica: a possibilidade da existência de público. No futebol, com estádios abertos e com capacidade para milhares de pessoas, não é permitido público. Nos espectáculos de música, teatro e outros, que acontecem em salas fechadas e com lotações bem inferiores, está a ser permitida a presença, com limitações, de público.

Qual a lógica? Money talks!

Na economia do futebol, a venda de bilhetes, sendo naturalmente importante, não tem peso crucial. A economia do mundo artístico, por sua vez, está maioritariamente dependente das bilheteiras. Quando nos questionamos sobre onde e como se pode encontrar o equilíbrio entre saúde pública e economia, temos nestes dois casos um excelente exemplo. Aceitar e gerir o risco até um ponto mínimo de viabilização de uma actividade.

Isto (a pandemia) ainda não acabou. E se não tivermos, todos, cuidado as consequências poderão ainda vir a ser mais graves do que as que já enfrentamos. A economia tem de “desconfinar”, mas de forma responsável.

É assim para o futebol e para a cultura, com medidas equilibradas entre cuidados de saúde pública e cuidados de saúde da economia. E deverá ser assim nas restantes áreas da nossa sociedade.

Uma última nota sobre o futebol porque me é um tema querido: Os dirigentes dos clubes (que também são marcas apesar de estes se esquecerem tantas vezes desse facto) têm de perceber que, no contexto actual, eles não são uns coitadinhos que não podem ter público a apoiar as suas equipas. Eles são privilegiados porque lhes foi permitido retomar a competição de forma a que, à custa de algum risco de saúde de jogadores, árbitros e outros intervenientes, possam receber os seus milhões de euros dos direitos televisivos. Money talks! E bem! Mas só até certo ponto.

*Por Jorge Faustino, Fullsix Portugal

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