Uma certa dose de optimismo

Por a 29 de Junho de 2020
Carla Borges Ferreira, directora do Meios&Publicidade

Carla Borges Ferreira, directora do Meios&Publicidade

“Há uma mudança de paradigma, que só significa, acho, que os briefings vão ser diferentes. Mas a necessidade de comunicar vai ser a mesma”. A convicção é de Susana Albuquerque, presidente do Clube de Criativos de Portugal.

Em entrevista ao M&P, a também directora criativa da Uzina fala sobre a forma como a pandemia obrigou o Clube a reinventar-se e como está a impactar a comunicação das marcas e a actividade das agências (págs. 4 a 8). “O pior que pode acontecer é, como consequência desta pandemia, o nosso mercado, a nossa profissão, ser ainda mais desvalorizada, invisível e atirada para baixo”, diz.

Um receio que faz eco no texto do Pedro Durães, que recolheu a opinião de oito responsáveis por produtoras de publicidade. “Ainda a rodagem de 2020 ia no arranque e já a pandemia tinha mudado o guião. O sector da produção publicitária, após uma paragem forçada em que a actividade se manteve sobretudo com recurso a imagens de arquivo, animação e pós-produção, começa agora a desconfinar uma recuperação em slow motion. A retoma será lenta e já ninguém espera crescer: 2020 é um ano para riscar do calendário”, começa por nos contar (págs. 10 a 16).

De facto, como recorda João Paulo Luz, o mercado publicitário irá ter em Portugal uma quebra anunciada por muitos de 15 por cento face a 2019. “Depois de um Abril e Maio muito difíceis e irrecuperáveis, esse valor ainda exige um segundo semestre com quebras inferiores a 10 por cento comparando com o segundo semestre de 2019” (pág. 28). Correr atrás do prejuízo, não haverá grande alternativa. Nos primeiros cinco meses do ano, o mercado perdeu, em publicidade, 50 milhões de euros (-25,4% versus Janeiro/Maio de 2019). Mas, deitar a toalha ao chão não é opção.

“Das coisas que aconteceram de bom, salvo seja, porque é horrível e não há forma de dourar a pílula, mas do ponto de vista de comunicação, as marcas estavam realmente preocupadas em ajudar as pessoas na vida e no seu dia-a-dia. Era bom que isso ficasse depois da pandemia. Talvez as empresas, as marcas e os negócios precisem de se redefinir. O objectivo é dar lucro, mas acima de tudo deveriam ser sustentáveis e deixar um contributo positivo na sociedade. Tão importante como dar lucro ao accionista é serem socialmente lucrativas”, diz-nos a presidente do CCP.

Nuno Pinto Magalhães, por seu turno, lembra um estudo recente da APAN, onde se refere que “cada euro investido gera, em média, 4,4 euros na economia. É pois economicamente importante salvaguardar os investimentos em publicidade e a actual realidade em nada ajuda a economia” (pág. 24). “A APAN, ciente desta situação e numa perspectiva de dinamizar a economia, estimulando a compra de espaço publicitário nos meios de comunicação social como um todo, propôs ao governo um desagravamento fiscal de 30 por cento para todos os investimentos realizados em 2020, situação a ocorrer em alguns países da Europa como Itália e Grécia”, prossegue, e não é demais lembrar, o presidente da Auto Regulação Publicitária.

K_mep-Mont_864Volto a João Paulo Luz. “Não sabemos quando o nevoeiro se irá dissipar, só sabemos que não será para já, mas continuamos a saber onde queremos chegar”. E é isto o mais importante. Não perder o foco. E uma certa dose de optimismo.

“Ok, as condições não são as ideais, estamos no meio da merda, há uma pandemia, não há dinheiro, não há emprego, é tudo terrível. Mas se acordares com a sensação de que é possível agarrar naquilo que tens e tentar virar o barco…”, como diz a Susana Albuquerque. A edição em papel volta daqui a duas semanas. Cuide-se.

 

 

PS: Sobre redes sociais, ou o Algoritmo Depressivo, como lhe chamou o Ricardo Tomé, vale a pena ler a página 30. “Quem sabe um dia, como hoje já felizmente vai começando a surgir em publicações e anúncios de várias marcas, também no cinema, na televisão e nos canais digitais os protagonistas serão gente comum e não gente perfeita. Alimentaremos os algoritmos com feedback que reverterá um mundo mais normal e menos idílico. E, sobretudo, que não assole rapazes e raparigas, homens e mulheres pelo mundo fora, a terem de esconder e encenar o que realmente sentem e querem dizer perante um jogo onde quem manda é um algoritmo que, afinal, só ali está para reter gente e poder servir anúncios para pagar as contas”.

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