Eles são Judas

Por a 14 de Junho de 2020

Judas sitePedro Lima, Vasco Thomaz e João Pereira deixaram, no início de Maio, a Partners, agência onde estavam há 15, 17 e 13 anos, respectivamente, para lançarem um projecto próprio. Em entrevista ao M&P, apresentam agora a Judas.  Mais paixão, mais rock and roll, saber dizer que sim mas, sobretudo poder dizer “não”, são três dos objectivos de uma agência que promete mexer com o mercado. As motivações, o conceito, as ambições, o que pretendem fazer, os clientes, o modelo das agências e o que vai mudar na comunicação são alguns dos temas abordados na conversa.

 

Meios&Publicidade (M&P): Judas… Neste contexto, não é uma ofensa e assumem a “traição” no nome da agência. Como é que surgiu este nome? O que é que querem dizer com ele?

Pedo Lima (PL): Que outro nome podia ter uma agência de três pessoas que em conjunto dedicaram mais de 40 anos a ajudar a construir uma das mais bem sucedidas agências de publicidade em Portugal e que de um dia para o outro decidem abrir a sua agência? JUDA$ é um nome português, mas internacional, tem conceito, tem humor e tem o stopping power que gostamos de colocar em tudo o que fazemos. Como tivemos uma saída imaculada da Partners achamos o nome perfeito. Além disso, ao investigarmos a personagem histórica percebemos que mais do que uma traição, o beijo de judas é visto por muitos estudiosos como um momento crucial de mudança de destino, “o acto que originou a salvação da humanidade”. Há quem diga até que Jesus e Judas fizeram dupla nesse briefing. Esta ideia de gestos que mudam os acontecimentos e levam a algo maior é também uma ideia que queremos importar para a nossa agência.

M&P: Porque é que saíram da Partners? Como é que se dá o encontro de vontades, dos três, para o lançamento da nova agência?

João Pereira (JP): Vou começar pelo fim para contar a história na ordem certa. Encontrámos vontades numa mesa corrida, onde trabalhámos lado a lado durante 3 anos. Este encontro deu para nos conhecermos muito bem e para testar o que viria a ser mais tarde a base do nosso modelo de agência. Apesar de sermos totalmente diferentes, encontramos nessa diferença uma complementaridade que possibilitou uma forma de trabalho assente no respeito, na partilha e na transparência. Onde não nos atropelamos, onde acrescentamos ao raciocínio da pessoa anterior. Onde sentimos as ideias que construímos em conjunto, como sendo realmente dos três.

Ao fim de algum tempo percebemos que esta dinâmica tinha um enorme potencial e era muito valorizada internamente, e pelos clientes. Porque as boas ideias apareciam rapidamente, porque tínhamos grande vontade em resolver os problemas concretos de comunicação das marcas. Mas porque acima de tudo as pessoas achavam divertido trabalhar connosco. E como quase tudo na vida, o momento de viragem surge inesperadamente. Enquanto estávamos a resolver um briefing em conjunto, um de nós disse que depois de tantos anos “a pagar um aluguer a um senhorio” tinha chegado finalmente a altura de “pagar a prestação da nossa casa”. Uma frase a brincar que foi ganhando força até se transformar num caminho irreversível. Na Partners trabalhámos com os melhores profissionais, ganhámos prémios nos melhores festivais, conquistámos pequenos e grandes clientes em Portugal e pelo mundo fora. Mas se já fizemos quase tudo, agora vamos fazer tudo o que falta.

M&P: O que é que falta?

Vasco Thomaz: Falta rock and roll. Muito mais rock and roll, mais colaborações, mais cruzamentos com outros criativos, agências, com outros artistas, mais mistura de disciplinas, saber dizer que sim mas acima de tudo saber dizer que não, termos liberdade para criarmos um ADN nosso que seja sempre a somar com quem nos cruzamos.

M&P: Na prática, como é que se consegue?

PL: Tendo um papel activo e pró activo. A Judas vai apostar na formação de talento, vai ter um board de convidados de diversas áreas, vai assumir parcerias com escolas, universidades, vai dar talks, formação e workshops / activações motivacionais nas marcas e nos clientes. Vamos-nos assumir como um player activo e isso vai trazer rock and roll ao mercado. E judas rocks (risos).

M&P: São objectivos ambiciosos… Vamos por partes. “Saber dizer que sim, mas acima de tudo saber dizer que não”, dizia o Vasco. Saber dizer que não a quê? Ou a quem?

VT: Em primeiro lugar a nós próprios, uns aos outros, ao nosso pipeline, internamente quando achamos que já estamos a sacrificar ou a comprometer a ideia, ou o projecto. Em segundo lugar aos clientes, que aquele caminho não é bom, que a outra linha que era boa não se faz com aquele orçamento nem com aqueles timings, que não funciona ou que até não precisam de nós para fazer aquilo que querem. No fundo dizer que não, ou saber ouvir um não, também é uma questão de liberdade e no meio desta pandemia não deixa de ter graça ser a sensação que nós mais sentimos; Liberdade e responsabilidade.

M&P: No meio desta pandemia, liberdade também para arriscar… Já falaram mais de uma vez em rock and roll. Aliás, “rocks” está nos endereços de email. Tem faltado rock and roll ao mercado? Por responsabilidade de quem? Dos clientes ou das agências?

JP: A responsabilidade não é das agências nem dos clientes. É das pessoas que trabalham nesta área sem serem apaixonados por ela. Esta área precisa de quem se sente feliz em trabalhar em publicidade, de quem tem vontade de contagiar os outros. De pessoas que gostem de ser contagiadas por esse entusiasmo. A responsabilidade neste ponto recai no indivíduo, em cada um de nós que trabalhamos nesta área e que temos obrigação de a viver com a paixão que um artista tem ao compor uma música ou um rockstar ao entrar em palco.

M&P: Tem faltado paixão, à publicidade nacional? À comunicação?

PL: Sem entrar em generalizações acho que se percebe bem quem é que no mercado publicitário coloca paixão no que faz e a regularidade com que o faz. Nota-se nas ideias, na forma como são materializadas, comunicadas, na gestão das equipas, dos clientes e até nos prémios que ganham. Nos últimos tempos temos assistido a um conjunto de pessoas talentosas desde o design, à realização, a estúdios de som, que começam projectos próprios em estruturas mais pequenas, mas onde conseguem colocar mais intensidade e paixão nos seus projectos. O próprio Clube de Criativos tem tido um papel fundamental nos últimos anos em devolver paixão à nossa área através das acções que tem levado a cabo. Muitas vezes dizemos nesses eventos “são sempre os mesmos maluquinhos”, mas é bom ver que o número de maluquinhos está a aumentar.

M&P: A Partners, tem ganho uma série de prémios, vários com campanhas vossas. Estou a pensar, por exemplo, no Turismo de Portugal, com quem parecias ter uma relação próxima. Falo sem informação privilegiada, era o que transparecia em palco. Os clientes escolhem as agências pelo histórico, pelo nome da agência, pelos criativos/equipa, pelos “maluquinhos” que tem ou não tem?…

VT: A Partners tem ganho uma série de prémios com campanhas da Partners. Nada mais normal do que com o sucesso que se vai tendo as relações se estreitem e se tornem mais próximas. Mais desafiante do que ganhar clientes é saber mantê-los e para isso o histórico, os criativos /equipa e “maluquinhos” contam. Um bom nome de agência já temos (risos).

M&P: E clientes? Quais são as perspectivas?

VT: O expectável era sairmos com um grande cliente. Mas desde o princípio que combinamos que após muito tempo a trabalhar grandes marcas queríamos que o arranque desta aventura fosse a trabalhar marcas mais pequenas, de operação e de orçamentos (mas não de ambição), clientes mais “da rua por assim dizer”, que nos tão a dar muita tesão. Uma coisa é certa, a Judas não levou clientes da Partners.

*A entrevista completa faz parte da edição desta quinzena do M&P

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