#stayhomeforever

Por a 13 de Maio de 2020
Vítor Cunha, administrador da JLM&Associados

Vítor Cunha, administrador da JLM&Associados

Já todos teorizaram sobre a Humanidade, o nosso destino e o futuro da economia, das finanças e das empresas, sobre a desglobalização e o fim das democracias liberais. Já lemos 934 artigos sobre a “mudança”, a “incerteza”, a “disrupção”, o “medo” e a “necessidade de reinvenção”. Eu próprio já o fiz: participei em debates, escrevi posts e comecei a desenhar futuros improváveis – ou não – num frenesi pouco educado, destemperado e nada reflectido: logo agora que devíamos pensar, sem necessidade óbvia de dizer “temos que parar para pensar”, porque parados já estamos.

No dia em que escrevo, fim-de-semana, estão 23 graus, o sol brilha e os pássaros chilreiam sem pudor como num conto de Anäis Nin. As notícias repetem-se como se não tivesse havido ontem. Já conheço todos os lares de Portugal, todos os especialistas em vírus, todas as marcas de Porto e todos os artistas confinados e descafeínados que existem; já assinei todos os jornais e revistas que gosto de ler; já experimentei receitas chiquérrimas e outras simples; já fiz download de todas as aplicações de video-conferências e já conferenciei com o mundo todo; já cortei a barba e o cabelo; já dei banho à Billie; já fiz um cocktail com vodka e sumo de morango; já fui ao supermercado comprar gelo e gelado; já experimentei fazer pão; já percebi que não sei fazer pão, até porque prefiro ir todos os dias ao supermercado comprar pão e dizer “olá” àquela alma simpática que nunca sai e sorri como se fosse feliz; já dei banho à Billie; já andei de bicicleta; já fiz caminhadas matinais de quatro quilómetros e nocturnas de 500 metros; já estive ao luar em conversas sem fim com amigos e a pensar sozinho num tempo que não vem; já bebi 15 litros de água de Monchique; já fiz chá gelado de erva príncipe; já cozinhei bifes com gengibre e peixe com gengibre e gengibre com amêijoas; já li o Dinossauro do José Cardoso Pires e a Barata do Ian McEwan; voltei ao Churchill e ao Stalin e ao Sebald e ao Scruton; eu e os pássaros não perdemos o NYT e o FT às seis e meia da manhã quando o sol está para aparecer, mas às vezes não aparece; já atirei a bola de ténis cerca de três milhões de vezes e a Billie insiste que atire mais uma para ela correr e apanhar; de manhã vou à árvore comer pitangas antes que os pássaros me ganhem porque tinha perdido no campeonato das nêsperas; já plantei uma goiabeira e um pequeno pinheiro e uma flor e mais ervas porque dá sempre jeito ter em casa menta e tomilho e cebolinho porque nunca se sabe quem pode aparecer e precisar de uma erva fresca porque as ervas frescas são sempre melhores do que as outras, as congeladas ou do supermercado, embora eu goste de ir ao supermercado, nem quase seja para comprar pão e dizer “olá”, mas isso eu já tinha dito porque já não tenho muito mais para dizer, eu que já fiz todas as calls, participei em todas as reuniões, falei com todos o que tinha para falar: e agora dizem-me na TV que o confinamento está quase a acabar, e que vou ter que voltar.

Voltar a quê? Não quero voltar. Não quero ter que guiar em filas; não quero usar máscara; não quero ficar no escritório 12 horas; não quero ter quer voltar a ser “social”, pôr sapatos e fatos e fingir que está tudo bem por detrás da tal máscara que tudo esconde. Quero ser declarado oficialmente confinado, quero ficar preso e longe, mesmo que os pássaros irritem e a Billie continue à procura da bola e os livros bons escasseiem ou a Billie precise de mais banho. Estes dias são dias de felicidade e isolamento que o mundo já não nos dava há muito e quero por força ficar aqui: no fundo porque também imagino que depois virão dias que não quero viver.

*Por Vítor Cunha, administrador da JLM&Associados

 

 

 

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