Nada será igual

Por a 19 de Maio de 2020

 

ANF_2018Há três factos resultantes desta pandemia que estamos a viver: há mais portugueses a fazer compras online; quem já comprava online passou a comprar mais em sites portugueses; o sector alimentar foi o que mais cresceu. Uma coisa é certa: nada será igual e muitos destes novos hábitos são mesmo para ficar.

Desde o início da pandemia que grande parte dos portugueses passam a maioria do seu tempo em casa – desde os jovens estudantes aos adultos trabalhadores, passando pelos mais velhos, muitos deles reformados – quer seja para trabalhar, estudar, usar serviços públicos e também para efectuar as suas compras.

Antes da pandemia, grande parte das compras feitas online pelos portugueses eram na sua maioria efectuadas fora de Portugal – maioritariamente na China, Reino Unido e Espanha –, o que fazia com que Portugal se distinguisse de outros países europeus onde os seus cidadãos preferem comprar no pais onde vivem.

Vale a pena ainda referir que as categorias de serviços e produtos mais adquiridas online eram alojamentos e viagens, bilhetes de espectáculos, roupa e acessórios de moda e ainda electrónica/informática.

Segundo o Estudo Anual da Economia Digital da ACEPI, cerca de 50 por cento dos utilizadores de internet em Portugal já faziam compras online antes da pandemia. Algumas análises preliminares apontam para que neste período da pandemia possam ter surgido mais 20 a 25 por cento de utilizadores de internet que fizeram compras online pela primeira vez.

Se esta tendência se mantiver após a crise quererá dizer que a percentagem de compradores online em Portugal poderá estar bastante mais próxima da média europeia – que hoje é de 70 por cento dos utilizadores de internet europeus.

O fecho das fronteiras, bem como o cancelamento da maioria dos voos internacionais, tornou o transporte transfronteiriço dos bens das origens que constituíam a grande parte das compras online dos portugueses mais caro, mais lento e até mesmo impossível de realizar neste período de pandemia.

Grande parte dos portugueses – e na verdade dos europeus – segundo demonstra um estudo recente da Ecommerce Europe, aponta para que o comércio electrónico transfronteiriço tenha praticamente desaparecido neste período de pandemia, tendo-se assistido a um aumento muito substancial do comércio electrónico realizado em cada um dos mercados internos – foi assim também em Portugal.

O confinamento social também alterou os padrões de compras online, tendo-se assistido a um aumento substancial do sector alimentar nacional, nomeadamente na categoria dos supermercados online – que tiveram de ajustar brutalmente as suas operações, mas que será certamente uma boa preparação para o futuro – nomeadamente para a entrega de bens de mercearia em menos de uma hora nas cidades.

Também o comércio local, através de plataformas (tais como a Glovo e a Uber Eats) teve um aumento muito substancial no número de transacções bem como na variedade de oferta. Alguns comerciantes locais conseguiram ainda adaptar-se neste período passando a utilizar algumas ferramentas digitais básicas tais como as encomendas por WhatsApp ou Facebook, alicerçadas em sistemas de pagamentos electrónicos tais como o MB Way.

Outra categoria que cresceu significativamente foi a dos electrodomésticos e equipamentos informáticos e de telecomunicações – o que não é de estranhar quando tantos elementos do agregado familiar passaram a estar em teletrabalho ou escola à distância, de forma simultânea e a utilizar a internet.

Alguns sectores viram, no entanto, uma diminuição drástica da sua aquisição dos seus bens e serviços por meios electrónicos nomeadamente os sectores dos alojamentos e transportes, a bilhética de eventos musicais e desportivos e, em particular, o sector da moda – que até há pouco tempo era uma das categorias mais relevantes a nível internacional e nacional.

Podemos concluir que, após a pandemia, os portugueses em geral terão mais experiência digital e estarão mais habituados a comprar em sites em Portugal por oposição a comprar somente na China, em Espanha e no Reino Unido, que era a norma até agora.

O sector alimentar será um dos que mais beneficiará da necessidade criada durante a crise. Parece também evidente que os portugueses estarão mais habituados a fazer pagamentos electrónicos, de uma forma geral, e que, mesmo no mundo físico, os pagamentos em dinheiro tenderão a desaparecer. Por outro lado, teremos mais empresas – nomeadamente os pequenos comerciantes – mais cientes da necessidade de terem uma presença online e de saberem fazer comércio electrónico.

É no sentido de apoiar os pequenos comerciantes neste momento de crise que a ACEPI disponibiliza o programa Comércio Digital, em parceria com a Confederação do Comércio e Serviços e com o governo português, um programa dirigido às empresas portuguesas, em especial do sector do comércio e dos serviços, com o objectivo de as apoiar gratuitamente a dar os primeiros passos na internet e a desenvolver mais o seu negócio online. Mais informações em comerciodigital.pt.

Uma coisa parece ser certa: nada será igual e muitos destes novos hábitos são mesmo para ficar.

*Por Alexandre Nilo Fonseca, presidente da ACEPI (Associação da Economia Digital em Portugal) e do E-Logistics Working Group – Ecommerce Europe (Associação Europeia de Comércio Electrónico)

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