Liberdade e Sobrevivência

Por a 29 de Maio de 2020
António Cunha Vaz, presidente da CV&A

António Cunha Vaz, presidente da CV&A

Muito se tem escrito sobre os media e o apoio que o governo lhes atribuiu. Digo, propositadamente, o governo porque se dissesse o secretário de Estado da Cultura (SEC) teria de concordar que os critérios de decisão poderiam não ser claros, isto é, entendíveis.

O facto é que o governo atribuiu verbas aos media, ou melhor, a alguns grupos de media, baseado em altos critérios definidos por um SEC que ainda não conseguiu explicar como consegue estar na função em que está. Recordam-se todos das saídas do governo de três secretários de Estado que foram acompanhar a seleccção nacional de futebol. O valor das viagens à bola pesou mais que a venda da empresa do actual SEC ao sobrinho. Se o SEC se guiasse pelos critérios dos anteriores… Assim, é difícil exigir que os critérios de distribuição de verbas pelos media sejam respeitados. Até porque nem três dias se tinham passado sobre o anúncio do apoio e já vinha o SEC dizer que se tinham enganado nas contas. Alguns meios não foram contemplados, outros não aceitaram receber e outros receberam o que lhes foi prometido. A cada um a sua decisão, mas foram escolhidos filhos e excluídos enteados.

Quero deixar claro que não alinho em teorias da conspiração e, muito menos, em “compras de opinião” como por aí muito se aventou, nomeadamente nas redes sociais. Que isto fique bem claro. Como não acredito que os maiores beneficiados venham a mudar a sua política editorial para a tornar mais suave. Conheço demasiados jornalistas nesses meios para acreditar que tal inflexão seja feita. Mas, como cidadão atento aos meios de comunicação social, espanta-me a ligeireza da escolha dos preteridos e o cálculo das verbas distribuídas.

Os media têm alguma culpa? Têm! Nunca estão unidos. Falando dos que receberam os donativos do Governo, todos são líderes, todos são “o maior no online”, o maior no papel, o que tem mais audiências, o que cresceu mais e assim por diante. Uns dizem que bateram recordes de facturação, outros afirmam a pés juntos que os outros estão falidos e, no final do dia, quase nenhum dos seus proprietários encontrou um modelo de negócio sustentável. Nem o caminho por áreas de intervenção laterais, como as conferências, os suplementos comerciais, as assinaturas de pacote, etc, consegue assegurar a sobrevivência dos meios, com o modelo de negócio que actualmente praticam.

Não deixa, contudo, de ser curioso que os meios de comunicação social de “nicho”, todos eles excluídos do apoio do Governo são dos poucos que têm modelos de negócio menos ruinosos. Como se costuma dizer, não é importante se a empresa é grande ou pequena. É importante é que seja boa. E é isto que também deveria ter pesado na distribuição de aspirinas feita pelo SEC.

E, tenho a certeza, tal como no caso dos contemplados, nenhum se venderia por seis reis de mel coado. Porque é apenas disso que se trata. Ou alguém acredita que o que receberam vai solucionar as dívidas que têm no mercado ou assegurar a sobrevivência das empresas?

Desiludido ficaria se o SEC achasse que estava a comprar opinião. Apesar da pouca conta em que o tenho não creio que vá por aí. Até porque a regra é para cumprir: patrão que se preze não quer interferir nas notícias e jornalista que se preze, mesmo que o patrão não saiba comportar-se, nunca aceitará escrever a pedido. A sobrevivência do meio cabe ao patrão, mas a Liberdade é a arma inalienável do jornalista.

*Por António Cunha Vaz, presidente da CV&A

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