“Isto é a sério”

Por a 21 de Maio de 2020
Mário Ferreira abertura 2

Mário Ferreira surpreendeu o mercado ao fechar o acordo com a Prisa para a compra, por 10,5 milhões de euros, de 30,22% da Media Capital. Em entrevista ao M&P, o empresário adianta que, para reinventar o grupo, vai injectar, até ao final do ano, até mais 15 milhões. Os objectivos para a televisão, rádio, digital e para a Plural, o modelo e ambições do board, as direcções e a (não) redução do número de colaboradores, o calendário de desinvestimento da Prisa no grupo, o eventual interesse, ou não, em continuar a investir em media e o fim do negócio com a Cofina são alguns dos temas abordados na conversa. A versão integral pode ser lida na próxima edição do M&P. 

Meios & Publicidade (M&P): Quando é que percebeu que ia comprar a Media Capital? Tornar-se o novo “patrão dos media”? Comprar, nos termos conhecidos…

Mário Ferreira (MF): Bem, comprar acções da Media Capital é uma coisa, não quer dizer que me torne um patrão dos media. Sou um investidor nos media, não quero parecer mais do que o que sou. Estou a comprar 30%… São 30%. Neste momento, a Prisa é que continua a grande accionista da Media Capital e quis ter um parceiro estratégico, conhecedor do que é a realidade portuguesa, e que os pudesse ajudar. Na gestão, financiamento, ligação à banca portuguesa. No fundo, um parceiro local estratégico, depois de todos os azares de estar 10 anos neste dilema de perda de valor constante. Uma empresa que está à venda há tanto tempo, obviamente fica com dificuldades, mesmo que não as tivesse, criou-as. Com este culminar, com esta penúltima transacção, com a Cofina, ficaram muito apreensivos e, respondendo à sua pergunta, acabaram por vir falar comigo e pedir-me para ver se eu também não abandonava o barco.

M&P: Foram eles a pedir?

MF: Sim, foram eles. Quando a situação borregou, foram eles que me contactaram e eu disse “vou ver, vou estudar”. Não era o que tinha em mente. Nunca tive em mente entrar nos media, nunca olhei para isso com olhos de ver. Aceitei o convite e o desafio do Paulo (Fernandes), mas foi por isso. Tinha disponível dinheiro para entrar, queria diversificar e foi essa a razão. Se tivesse um amigo que me convidasse para entrar em um outro negócio que achasse que poderia ser interessante e rentável, também teria dito que sim. A razão da entrada foi essa e não foi outra. Agora podem querer inventar histórias diferentes, coisas mais bonitas, mais romantizadas, mas a realidade é muito objectiva. Fiz, no ano passado, diversos negócios que me correram muito bem, acumulei poupanças significativas, quero e tenho investido em alguns negócios que sejam diferentes daqueles em que normalmente tenho investido, para não ter os ovos todos no mesmo cesto. Achei que este era disruptivo, em relação à carteira de investimentos que temos.

M&P: E os media porquê? Ou seja, a Prisa contactou-o, disse “não abandone barco”… Porque é que não o abandonou e avançou?

MF: Não abandonei porque começamos a olhar para as possibilidades, dentro das possibilidades houve alturas de maior e de menor ânimo, de maior ou menor euforia, alturas em que…

M&P: Acabou por ser muito rápido.Mário ferreira 7

MF: Para nós é muito rápido, ou se faz ou não se faz, não há tempo a perder. Há facilidade de decisão, não temos fundos, não temos ninguém connosco, começaram-se logo a criar histórias de que estaríamos a fazer fronting para alguém… Histórias complicadíssimas, porque as pessoas têm dificuldade em perceber que alguém que tem capacidade financeira, de gestão e de decisão, pode fazer coisas rápido. É preciso, por vezes, tomar decisões na hora certa e ter coragem para as tomar. Até familiares e amigos me dizem “numa altura destas, com esta pandemia, seria mais sensato estares sentado nesses grandes lucros de 2019 – que foi um ano em que batemos todos os recordes possíveis em termos de grandes realizações, de grandes vendas, grandes negócios, e que nos libertou muita liquidez. Porque não ficas sentado?”. Eu penso exactamente o contrário, devem-se fazer esses grandes negócios em tempos em que está tudo em alta e é quando existe uma crise que se deve investir o máximo possível. É o que estou a fazer.

M&P: Vender em alta e comprar em baixa.

MF: É, para mim é assim. Porque só comprando em baixa é que se fazem bons negócios.

M&P: Disse, em entrevista à Renascença, que “o valor da loucura já está a desconto”. Quanto é que prevê investir para “reinventar” a Media Capital. Assumo que seja o objectivo, uma vez que já referiu que os media precisam de se reinventar. 

MF: O que lhe posso dizer é que a Prisa e a Pluris terão que investir no negócio, para ele ser reinventado. E vamos investir forte.

M&P: Através de divida ou aumento de capital?

MF: Será o board, o conselho de administração, que terá que ver, e a assembleia de accionistas decidir a estratégia e como se fará. Agora, é ponto assente que terão de entrar umas dezenas de milhão de euros para reinventar, e não no formato de dívida, este novo projecto.

M&P: Aumento de capital?

MF: Vamos ver, podem existir outros formatos. Podem ser empréstimos, dos sócios. O formato não está definido, o que é certo é que terá de entrar dinheiro sem ser em dívida.

M&P: Disse dezenas de milhão.

MF: Podem ser duas… (risos) Mas é mais do que uma. Ou é a sério ou não é a sério. Mas também só é possível, porque a entrada foi a um preço justo. Há muita gente que diz que o preço foi baixo…

M&P: Preço de saldo.Mário Ferreira 4

MF: A nossa entrada é a um preço justo. E obviamente que eles só aceitaram este preço justo porque perceberam que só eu estou contratualmente disponível – só eu, a nossa empresa – em aportar mais 15 milhões de empréstimo para reforçar. Só nós.

M&P: 15 milhões. Vai ser então assim…

MF: Estamos comprometidos, se não for preciso todo, não será todo… Mas estamos disponíveis.

MF: No espaço de quanto tempo?

MF: Este ano. Isto é a sério.

M&P: O que é que ambiciona para a TVI? Aliás, para a Media Capital?

MF: Ainda bem que corrigiu. O que estamos a olhar e a pensar como accionistas, obviamente em conjunto com o grande parceiro que é a Prisa, é criar valor. A ambição é criar valor, num grupo que é o maior grupo de media português e que terá de ter quatro pilares, muito produtivos, autónomos e auto-suficientes: TVI, rádios, digital e a Plural. Para cada um destes está a ser desenvolvido um plano estratégico específico e bastante agressivo, por forma a ser reinventado para aquilo que será um grupo de media no futuro. Não é para tapar buracos. Até agora, uma empresa como a Media Capital, o que estava a fazer era a tapar buracos sucessivamente, porque não havia uma estratégia de futuro… por estar à venda. E saltou de vendedor em vendedor.

M&P: Como é que passaram de vendedor em vendedor, de comprador em comprador, de 440 milhões para 205 e agora 130, de lucros todos os anos para prejuízos de 54 milhões no ano passado?

MF: O que aconteceu foi que tiveram EBITDAs altos e lucros altos, tem a ver com uma conjuntura de mercado. De repente o mercado arrefeceu, este ano toda a gente sabe a razão…

M&P: Os 54 milhões de prejuízo são do ano passado.

MF: Tem a ver com a consolidação e com o registo de imparidades, é um número contabilístico, não é o resultado directo da operação. O resultado directo até acabou por ser até bastante positivo, ainda tiveram mais de 18 milhões de euros de EBITDA. Agora, foram identificadas um conjunto de imparidades que foram assumidas naquele ano – não foi connosco, foi tratado com eles e com a Cofina -, ao serem registadas deram aquele prejuízo. Este ano estamos a falar é de ter um ano difícil, um ano de muita luta, em que os administradores da empresa tenham que fazer um bom trabalho, em que as direcções e equipas tenham de fazer o trabalho de aguentar o impacto negativo desta quebra abrupta de publicidade e de receita, e ultrapassar isto com o menor dano e prejuízo possível. Se no ano passado, fruto dessa questão das imparidades, foram 50 milhões negativos, este ano teremos que ter prejuízo, mas aproximar-se o mais possível do zero. Esse é o objectivo. Mário Ferreira 5

M&P: As perdas aproximarem-se do zero? Recuperar de quase 50 mihões para…

MF: Não, os 50 milhões são contabilísticos, estou a falar só da operação. Temos que ser justos, é muito fácil dizer “vamos passar de 50 milhões negativos para zero”. Era fantástico, mas não é realista. Se digo que é resultado contabilístico, agora também não vou dizer que a nova equipa de repente vai fazer milagres. Temos que ser realistas e ter os pés na terra.

M&P: O plano estratégico, para todas as áreas… É a Boston Consulting Group que o está a traçar? Foram contratados por quem? Pela Media Capital, pela Cofina, por si? Já vem de trás, não é?

MF: A BCG só poderia ser contratada pela Media Capital.

M&P: Mas já por indicação…

MF: Não, eu não disse isso. Eles só podiam ser contratados pela Media Capital.

M&P: Mas por indicação da Cofina?

MF: A Cofina não tem nada a ver com isto. A Cofina tinha escolhido para fazer o estudo a McKinsey.

M&P: A BCG entrou então já depois da Cofina sair.

MF: Sim. A Media Capital decidiu, por sua conta,…

M&P: Quando já estava em conversas consigo?

MF: Sim, quando já estávamos em conversas. Mas não podíamos influenciar nada, porque não tínhamos nada a ver com isso. Era uma decisão total da Prisa.

M&P: Vamos por áreas. Júlio Magalhães dizia, na Revista do Expresso deste fim-de-semana, que o Mário teria de certeza algum trunfo na manga. Isto no sentido de “se diz que vai correr bem, é porque vai”. Qual é o trunfo?

MF: É um voto de confiança que agradeço muito, o Júlio é um amigo de longa data.

M&P: A seguir vou perguntar se foi convidado para director de informação.Mário Ferreira a rir

MF: Pode perguntar à vontade. Pode perguntar tudo o que quiser, mas não tenho que responder (risos).

M&P: Já vamos lá. TVI, estratégia para voltar aos bons resultados económicos… O que é que quer fazer da TVI?

MF: Eu não posso fazer nada da TVI. Os accionistas, da Media Capital, obviamente estão a discutir uma estratégia de futuro para aquilo que pode ser todo o grupo MC, mais numa visão integrada de grupo. O objectivo dos accionistas, do passado e agora do futuro, é olharem para um grupo de media de uma forma mais integrada, não olham só para a TVI. Vêem muito valor nas rádios, muito valor na televisão, muito valor no digital, que está completamente esquecido, já foi maior do que é e tem que avançar imenso, tem que avançar muito. E vêem um incrível valor na produção de conteúdos. O valor que pode ser descoberto na Plural, e na produção de conteúdos, é provavelmente dos activos que existem no grupo MC que tem uma relação de muito pouco aproveitamento.

M&P: A Prisa, já há uns anos, tinha como objectivo a internacionalização de conteúdos, da Plural. Não conseguiu. 

MF: Normalmente diz-se “querer é poder”. Agora, é preciso saber fazer. Todos podemos querer muita coisa… Alguém, um conjunto de accionistas, que tenha menos experiência neste sector, para mim é uma vantagem enorme. A história é que o que os grandes dinossauros conhecedores deste mercado sabem fazer, tem-se mostrado desastrosa para muita da estratégia da Media Capital. Alguém que venha, assim fresquinho como nós, e outros que se juntarão à equipa, o que fazem é ouvir, aprender, analisar e não têm qualquer tipo de compromisso com os poderes estabelecidos dentro deste mundo, que é muito especial. Podemos avaliar e analisar com total isenção e transparência quem é que achamos que é criativo e produtivo e pode ser uma mais-valia, ou não, para o futuro destes quatro pilares. Como não temos compromissos, quem acharmos que é efectivamente produtivo e que vale a pena estar, ficará e será empurrado para a frente.

M&P: Isso nas posições estratégicas.

MF: Claro, nas posições estratégicas. Todas as pessoas são importantes para nós, todas as pessoas serão valorizadas. Todas as pessoas que tragam contributos, que venham para a frente e que apareçam com ideias, mesmo depois da primeira grande transformação e do primeiro grande plano estratégico, assessorado pela BCG, do qual já se começam a ver luzinhas muito muito muito interessantes. Será um processo continuo e queremos valorizar desde o homem que puxa os cabos até ao topo. Isto é muito importante, todos nos podem vir com ideias, dizer “olha, há uma maneira melhor de enrolar os cabos”. A resposta será “então diga lá como é, que vamos olhar para isso”. É a vantagem, se calhar, de alguém que tem um background humilde como o meu, que não se importa de receber uma carta de um electricista ou de um administrador. E respondo às duas da mesma forma e com o mesmo respeito.

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