Comunicação, jornalismo, pós-verdade e fake news

Por a 22 de Maio de 2020

Luís Paulo RodriguesQuando o canadiano Marshall Mcluhan afirmou que “o meio é a mensagem”, estava a dizer que o veículo de comunicação utilizado determina o caminho da informação e a maneira como essa informação chega ao destinatário – ou não.

Antes da Internet – uma circunstância temporal que soa a história do tempo das cavernas nos ouvidos das gerações mais novas –, o assessor do líder de um Governo, quando tinha uma notícia importante para dar, escolhia previamente um jornal especializado em política, de preferência o mais influente. E a informação seguia o seu caminho até chegar ao público que o Governo pretendia atingir.

Actualmente, o mesmo assessor vai ao Twitter do líder do Governo e lança a informação que os jornalistas de todos os meios vão replicar. Quando está em causa um tuíte de Donald Trump, por exemplo, a repercussão pode ser internacional.

Na era digital, em que a informação circula a uma velocidade estonteante, a velha ordem foi subvertida.

Todas as notícias são para ontem porque têm de ficar imediatamente online. É o preço da concorrência alucinante e feroz no espaço digital.

Quando há um acidente, a notícia é lançada na rede ainda sem que o jornalista saiba o número de mortos e feridos. Ou mesmo se há mortos ou feridos.

À escala planetária, em cada segundo são milhares e milhares de notícias e outros conteúdos que são lançados na rede. E todos comunicam com todos. Todos produzem notícias: governos, empresas, instituições e cidadãos. Todos, sem escrutínio, podem lançar conteúdos na rede, sejam verdadeiros ou falsos.

Esta pandemia do coronavírus, por exemplo, veio demonstrar que as redes sociais são cada vez mais concorrentes da televisão e do jornalismo livre e responsável.

De repente, políticos, líderes de opinião, empresas, outras organizações e os cidadãos mais activos nas redes descobriram as virtualidades das transmissões ao vivo. E, assim, criaram os seus próprios programas de debate ou entrevista, como se estivessem na televisão. Para grandes ou pequenas audiências, mas, seguramente, para audiências muito atentas, porque interessadas e próximas. No fundo, nichos de audiência, ou não estivéssemos agora numa era em que muitos comunicam para poucos. Ao contrário da era anterior à Internet, em que poucos comunicavam para muitos, através dos meios de comunicação tradicionais.

André Ventura foi dispensado esta semana da função de comentador de futebol e de justiça da CMTV e do jornal Correio da Manhã, mas pode abrir o seu canal no Youtube ou fazer a sua live no Facebook e continuar a educar a sua audiência com as ideias da extrema-direita, sem estar condicionado pela estratégia de um grupo de comunicação.

Líderes políticos como Donald Trump ou Jair Bolsonaro ignoram os jornalistas e comunicam directamente para os eleitores – e não com os eleitores… – através das redes sociais.

São famosos os tuítes de Donald Trump. O Twitter é uma rede social que o Presidente norte-americano gosta de utilizar, porque emite o que quer e tem a garantia da difusão por parte dos meios de comunicação, sem ter a maçada de ser contraditado por um jornalista interessado em tirar dúvidas.

O Presidente brasileiro Jair Bolsonaro está no Twitter, no Facebook e no Instagram. E fala quase diariamente, ao fim do dia, em transmissões em directo, alimentando, assim, as crenças e o argumentário dos seus seguidores em todo o país. São monólogos que têm repercussão garantida nos meios de comunicação e que escapam ao filtro do jornalismo.

Esta comunicação directa entre o político e os seus eleitores, veio dispensar o papel dos jornalistas e da comunicação social. O que veio agudizar a crise do jornalismo, a braços com a falência do velho modelo de negócio.

O problema do jornalismo é sobretudo um problema de financiamento. Porque a Internet e, sobretudo, as redes sociais vieram facilitar a vida aos políticos, mas também às empresas, às marcas e às instituições.

As empresas, as marcas e as instituições tornaram-se editoras da sua própria informação e tornaram-se criadoras da sua própria publicidade. Logo, deixaram de gastar somas gastronómicas em publicidade que antigamente alimentavam jornais, rádios, revistas e televisões.

Também por isso, uma parte da pouca publicidade que resta, e ainda assim, a título excepcional, é a publicidade pública, como ainda esta semana o Governo português decidiu atribuir aos meios de comunicação social no montante de 15 milhões de euros. É um apoio artificial que não vai resolver nenhum problema aos meios de comunicação. Daqui a três meses vão precisar de uma nova injecção de 15 milhões.

É neste contexto de enfraquecimento do jornalismo e das instituições reguladoras que se desenvolveu a era da pós-verdade e que prosperaram as fake news.

Não há nenhuma novidade na tentativa de falsificação da política através da distorção de factos e da informação. O que é novo é que estamos numa nova era em que as notícias falsas são exponenciadas pela Internet e pelas redes sociais. O crescimento é viral e o efeito é explosivo.

A novidade está nos palcos proporcionados pela tecnologia: o Facebook, o Google e o Twitter. Porque a tentativa de contar mentiras, o boato ou a falsificação da informação sempre existiu, desde os primórdios da Humanidade.

A pós-verdade é uma ironia do nosso tempo. Porque vivemos num tempo em que nunca houve tanta informação disponível. E, no entanto, os factos são cada vez mais desvalorizados, enquanto que as paixões e as crenças ganham força.

Mais: há quem seja capaz de convencer outras pessoas apelando a emoções ou crenças pessoais, tornando-as essas crenças mais importantes do que os factos objectivos.

No fundo estamos perante uma inversão da ordem das coisas. O normal seria, a partir de factos objectivos ou a partir de uma notícia, formar a nossa opinião.

Na pós-verdade acontece o inverso: a opinião das pessoas ou a sua crença sobrepõem-se aos factos e à verdade objectiva. É neste contexto que proliferam as notícias falsas.

Uma autêntica pandemia que tem feito com que os cidadãos tomem decisões equivocadas nas escolhas eleitorais, baseadas na emoção e em crenças pessoais, ao invés de decidirem com base em factos objetivos.

A atitude de líderes mundiais perante o coronavírus insere-se neste quadro da pós-verdade e das fake news.

Donald Trump não deu importância e queria reabrir a economia na última Páscoa. Bolsonaro, no Brasil, dizia que era “uma gripezinha”. O que é certo é que a gripezinha já provocou a demissão de dois ministros da Saúde e a morte de milhares de brasileiros – que são enterrados em valas comuns por falta de lugares nos cemitérios.

Como escreveram Fernando Esteves e Gustavo Sampaio no livro “Viral : A Epidemia de Fake News e a Guerra da Desinformação” (Edições Desassossego, 2019), as notícias falsas são “como uma indústria poluente”: é lucrativa para quem as produz – tão lucrativa que dá para ganhar eleições –, mas nociva para os eleitores que depois sofrem as consequências de políticas que, afinal, não queriam.

 

*Por Luís Paulo Rodrigues, consultor de comunicação e autor do blogue Comunicação Integrada

 

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