“Como é que o bicho mexe?”

Por a 20 de Maio de 2020
Paulo Esteves Nunes, RTP

Paulo Esteves Nunes, RTP

O início.

Depois da explosão do vírus e o início da obrigatoriedade de quarentena a quem regressava ao país, o Bruno viu-se privado da companhia da sua mulher Beatriz, que estava em Inglaterra a gravar um filme e que voltou para um isolamento de 15 dias, deixando-o sozinho a tratar das 3 filhas do casal.

A primeira emissão é um desabafo: “Estou sozinho com 3 crianças, preciso de falar com adultos senão vou enlouquecer.”

Começou a ligar a pessoas que estavam a ver o directo, a primeira delas Nuno Markl, que a partir daí seria (quase) sempre o primeiro “convidado” das emissões.

O país tinha entrado em quarentena obrigatória, e o mote da conversa era sempre esse: “Como estás?”, “Como te tens aguentado?”, “Como está a ser a tua quarentena?”

A conversa era o mais natural possível, uma conversa de amigos, sem limites e sem barreiras, onde era permitido, tal como na “vida real”, dizer todos e quaisquer disparates.

O Bruno fez questão de reforçar isso várias vezes: “Estou em casa, no meu escritório, de fato de treino, na minha conta de Instagram. Eu digo o que eu quiser.”

Eram umas duas mil pessoas a ver, e esse número não mais ia parar de crescer até ao “dia de Natal”.

 

O conteúdo.

 O que começou por ser um desabafo de alguém que estava confinado, longe da mulher e “preso” a 3 crianças, rapidamente se transformou.

O tempo passou, a Beatriz voltou, mas os directos não acabaram.

Nesta segunda fase, já mais artistas se tinham juntado ao habitual live diário, o estilo de conversa já foi mais leve, sentia-se que o Bruno já não estava tão cansado e que já preparava mais o que iria acontecer durante o directo, e isso ajudou a que o conteúdo fosse ainda mais interessante.

Todo o conceito foi criado ali, em frente a todos os espectadores.

Bruno e Markl, numa das muitas conversas, decidem que a expressão “Como é que o bicho mexe” é engraçada de se dizer e decidem que será esse o nome do “programa” que se estava ali a criar.

Depois de haver um nome, faltava uma música para o genérico, que rapidamente é requisitada ao músico Dillaz que também estava a acompanhar os lives. “Pah, Dillaz, tens de fazer uma música para isto, quero muito que sejas tu”, disse o Bruno. E aconteceu, Dillaz tratou de criar uma  música e o “Como é que o bicho mexe” passou a ter uma música.

Desde o primeiro dia, o Bruno recebia os espectadores com um copo de vinho na mão, e também isso foi aproveitado para a rotina das emissões.

O programa passou a começar então com a cadeira do Bruno vazia, a música do Dillaz, um copo de vinho a entrar em plano e a ser regado por uma qualquer garrafa. Bruno senta-se, prova o vinho, termina a música e começa o programa. A partir daí, estava feito o “genérico” de “Como é que o bicho mexe.”

Foram-se criando hábitos: ligar ao Nuno Markl que cantava sempre uma música em karaoke, fechar a emissão com o piano do Filipe Melo, e pelo meio convidados variados com os quais se foram criando histórias paralelas e que se cruzavam entre todos.

A estratégia de conteúdo.

 Estrategicamente o Bruno no início dos directos, sem saber e sem pensar muito nisso, fez tudo certo.

Vivemos um tempo em que o projecto preparado, ensaiado e distante do espectador está gasto e saturado. A produção de um produto criativo afasta mais do que aproxima o público, e isso tem sido bem vincado pelo crescimento do digital e das plataformas e pelo reduzir de números da televisão.

Dito isto, o caminho que o Bruno escolheu, tendo em conta a altura que estávamos a viver, foi o melhor possível.

De repente, o Bruno, os intervenientes e todos os espectadores estavam no café, a falar com amigos. Algo que naquele momento não era possível para ninguém. Mas ali, durante aquelas duas horas, sentimos isso. Uma conversa fácil e sem os limites morais que normalmente são impostos aos intervenientes, uma atitude descontraída, um safe space que permitia tudo, mesmo tudo.

Isto amarrou o público. Sabíamos que a partir das 23h íamos todos “ao café” com os amigos e que tudo podia acontecer. E aconteceu. Aconteceu muita coisa.

A imprevisibilidade foi um dos factores chave.

Nunca sabíamos se íamos ter duas horas de nonsense, ou se de repente a conversa ia ser séria, mas sabíamos que seria sempre interessante.

Da Maria João Pires a tocar piano em Belgais ao José Castelo Branco de quarentena em Nova Iorque. Do Vhills a fazer uma obra em directo no 25 de Abril ao Gregório Duvivier a falar sobre o estado do Brasil e do Bolsonaro. Do Manzarra com a cabeça rapada à performance de Inês Aires Pereira a interpretar o “Frozen”. Do unboxing de brinquedos sexuais com Nuno Lopes ao Albano Jerónimo numa banheira. Do Bernardo Silva a ligar de Manchester ao Noiserv a fazer música com piaçabas. Da Bumba na Fofinha numa cama cheia de pétalas ao Salvador Martinha de chapéu de palha a fumar uma caneta. Do Nélson Évora com um pepino ao João Quadros de óculos de sol. Da Beatriz Gosta a beber gin à Jessica Athayde na cama.

Num dos diretos, Nuno Markl mencionou Cal Lockwood, um radialista no Pólo Norte que tinha 3 seguidores no Instagram, e controlava uma rádio de onda média que passava clássicos dos anos 30/40. “Vamos todos seguir o Cal, malta. Vamos invadir o Instagram dele”.

Em menos de 10 minutos, Cal Lockwood tinha 60k seguidores no Instagram e passou a incluir música portuguesa nas suas playlists.

Cabia tudo nestes directos. Todos os dias fomos surpreendidos. E isso criou uma sensação de que não podíamos perder nenhum diretco. Fidelizou o público pela imprevisibilidade.

 

A estratégia digital.

A nível digital o Bruno voltou a fazer tudo certo.

O convidar outras pessoas num directo, promove um cruzamento de públicos no Instagram que é benéfico para todos, e todos cresceram com isso.

Cada vez que o Bruno convidava alguém, os seguidores dessa pessoa eram todos notificados que ela estava em directo e com isso passavam a saber da existência dos directos do Bruno.

Um dos poucos pedidos do Bruno foi que não gravassem o directo e que não o publicassem nas redes ou no Youtube. “O que acontece aqui é para quem cá está. Se eu quiser que isto seja perpetuado, eu publico.”

E o público cumpriu.

Isto obviamente ajudou à fidelização. Ninguém queria perder o programa, porque não o ia poder voltar a ver no dia seguinte.

 

O grande final.

Várias vezes o Bruno mencionou que os directos teriam de acabar.

Mais uma vez, a honestidade e naturalidade como isso foi mencionado, não gerou ódio com o público, muito pelo contrário, gerou compreensão.

Ninguém queria o final dos directos, mas todos compreenderam, o que ajudou ao sucesso da última emissão.

Decretou que, naquele último dia, seria Natal. Pediu para colocarem luzes de Natal nas janelas e prometeu andar a circular por Lisboa a mostrar as casas enfeitadas.

Todos aderiram, todos assistiram e até o Cristiano Ronaldo entrou no directo para dar uma força. 175 mil pessoas a ver, parece muito, mas foram mais.

Diria que pelo menos 50% das pessoas não estivessem a ver o directo sozinhas, 50% dos dispositivos pressupõem pelo menos 2 pessoas, o que aumenta o número real para umas 300 mil pessoas ou mais.

Não há registos em Portugal de directos de Instagram com este tipo de alcance, nem no mundo (tirando 2 ou 3 excepções).

A Oprah Winfrey, personalidade americana mundialmente conhecida, por exemplo, fez vários directos nesta quarentena que tinha 8 mil pessoas a ver.

O final foi épico. Luzes de Natal por Lisboa fora, gente na rua, carros a perseguir o Bruno e o Markl, outdoors com mensagens relacionadas com o conteúdo, e um final apoteótico no Coliseu.

Um coliseu vazio nas cadeiras, mas mais cheio que nunca. Foi uma orgia de emoções, não há explicação.

E tudo, desde o primeiro minuto, com um telemóvel. Só com um telemóvel.

 

A monetização.

Não houve, além de algumas coisas que o Bruno foi recebendo e mencionando nos directos, nenhum tipo de monetização feita com o projecto.

O Bruno frisou várias vezes que não queria capitalizar uma situação destas e a partir de certo ponto reverteu tudo o que podia capitalizar para instituições de caridade.

Havia bastantes possibilidades de monetização para ele e para todos os intervenientes, mas ninguém o fez.

Foi bonito e libertou o Bruno, os intervenientes e o público de qualquer influência de obrigação ou censura que provém de uma associação de marca.

 

O crescimento.

Todos cresceram no Instagram com esta acção. Todos ganharam seguidores e visibilidade. Eis alguns exemplos:

 

Nuno Markl:

MARKL

Inês Aires Pereira:

INES_AP

João Manzarra:

MANZARRA

Albano Jerónimo:

ALBANO

Bumba:

BUMBA

E claro, Bruno Nogueira:

BRUNO_NOGUEIRA

Conclusão.

Todos estes ingredientes foram decisivos para o sucesso de “Como é que o bicho mexe?”. Uma média de 60k espectadores diariamente.

Todo o tipo de convidados possíveis.

Uma liberdade criativa que permitiu exacerbar o enorme talento do Bruno e de todos os envolvidos.

Um cruzamento brilhante entre conversas sérias, momentos nonsense e muita “conversa de café” sobre a situação estranha do mundo de hoje.

Verdade. A palavra que define estes directos é “verdade”.

Não haver barreiras, não haver limites, não haver floreados. Poder haver excessos, disparates, momentos falhados, tudo foi permitido a todos. Foi tudo real, humano e autêntico.

Esse foi o segredo do sucesso.

Retiradas todas as necessidades que normalmente existem nos conteúdos “tradicionais” – estúdios, câmaras, iluminação, audio, produtores, realizadores, operadores de câmara, operadores de audio, etc… – é importante reforçar a ideia que para tudo isto acontecer só foi necessária uma coisa:

Um telemóvel.

Fim.
*Por Paulo Esteves Nunes, RTP

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