Ser bom não basta

Por a 8 de Maio de 2020
Francisco Teixeira, parter WPP e CEO da Hill+Knowlton Strategies

Francisco Teixeira, parter WPP e CEO da Hill+Knowlton Strategies

Dei por mim há dias sentado a reler ‘A primeira vila global – Como Portugal mudou o Mundo’, 18 anos depois da sua 1.ª edição. Em 2002, à boa maneira portuguesa, sempre com alguma parolice à mistura, enchemo-nos de orgulho porque vinha de fora quem nos dizia o que gostamos tanto de ouvir: somos bons (“specials”), sabemos fazer coisas notáveis e, no passado, fizemos muito mais do que nos lembramos no presente.

Este best seller do historiador inglês, Martin Page, já vendeu meio milhão a evangelizar o Mundo com os nossos feitos, explicando que – embora tenhamos “metade do tamanho da Flórida” – fomos  nós, os portugueses, que levámos “o chá das 5 para Inglaterra, as túlipas para a Holanda, as chamuças para a Índia e a tempura para o Japão”. Já para não falar no Ronaldo para Manchester…

No meio da quarentena, confinado e sem cartilha para perceber o que está a acontecer, ou até mesmo o que nos acontecerá, lia o livro à medida que choviam os elogios internacionais à forma como reagimos ao Covid-19.

Mais de mil mortes é sempre uma tragédia, mas é óbvio para todos que ganhámos o primeiro round ao vírus por mérito do Governo e do Estado que tomaram as decisões acertadas. E dos portugueses, convém nunca esquecer, que as respeitaram. Podia ter sido melhor, como pode sempre, mas no essencial o País reagiu bem.

Agora que sabemos como tudo começou, temos todos a mesma pergunta a piscar nas nossas cabeças: como e quando vai isto acabar? Como ninguém sabe ao certo quando teremos vacina, vamos colocar de lado o que não depende de nós e vamos ao que podemos fazer diferente.

Desde logo, ‘more lego, less ego’. Somos pequenos e periféricos, não podemos dar-nos ao luxo de não partilhar, não trabalhar em equipa, não alinhar oferta. Mais uma vez, não basta sermos bons a fazer uma peça do puzzle quando todas as outras dependem de terceiros porque se há coisa que se tornou ainda mais evidente durante esta pandemia é que precisamos, mesmo (!), de controlar a produção de tudo o que são bens e serviços essenciais. Quando estes escasseiam é a lei da selva e os mais fracos, onde inevitavelmente estamos pela nossa dimensão, saem sempre prejudicados.

Boas ideias não custam dinheiro, mas valem ouro. Ser disruptivo não paga imposto, pensar antes e mais longe do que a maioria é uma vantagem dos ágeis e dos focados. E os portugueses devem ser tudo isto porque temos de nos habituar às evidências de que temos um mercado interno pequeno (10 milhões de consumidores), uma Europa menos solidária do que ambicionamos, um Estado com recursos bastante limitados e um sector privado, com méritos notáveis, mas, também, com pouca escala.

Por fim, ambição e criatividade. Nos momentos-chave da nossa História centenária quer a ambição, quer a criatividade vieram sempre ao de cima. Aqui ou ali, reza que somos desenrascados (uma visão light de criativos) e destemidos (uma visão distorcida de ambiciosos). Seja como for, o ADN é como o algodão: não engana.

Na semana em que o Mundo celebra, pela primeira vez, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, uma comunidade de engenheiros, cientistas, médicos e mecenas portugueses fez o feito notável de em 45 dias transformar uma boa ideia num produto em processo de certificação, made in Portugal, pronto para salvar vidas. Falo do Atena, o ventilador que a comunidade 4LIFE desenvolveu a partir do CEiiA, em Matosinhos.

Perguntam: o que tem tudo isto que ver com Relações Públicas? Nada e tudo. Nada, porque de facto isto não é Relações Públicas. Tudo, porque se aplicarmos a mesma receita às Relações Públicas alcançaremos, certamente, o mesmo nível de sucesso. Na comunicação, como em tudo o resto, o Covid-19 tornou evidente que o nosso petróleo são neurónios. Temos de os proteger, alimentando-os.

*Por Francisco Teixeira, partner WPP e  CEO da Hill+Knowlton Strategies 

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