Um pesadelo com olhos bem abertos

Por a 20 de Abril de 2020
Luís Santana, administrador Cofina Media

Em apenas algumas semanas o mundo mudou. Primeiro era apenas mais um vírus da gripe, semelhante a outros que no passado surgiram na longínqua China, depois as dúvidas sobre a sua transmissibilidade ou não aos seres humanos. Enquanto as organizações internacionais discutiam e menorizavam a epidemia, a epidemia silenciosa já lavrava no norte de Itália e, eventualmente em outros locais. Em poucos dias, tudo se transformou. Primeiro a surpresa, depois o avassalador medo que colocou o mundo em casa.

 Ainda antes dos governos, nomeadamente o português, terem sugerido o recolhimento, as empresas – as que podem – e as escolas mandaram os seus trabalhadores e alunos para casa. Num instante tudo mudou. As dinâmicas familiares, o teletrabalho, a adopção de novas ferramentas de comunicação como as videochamadas.

 À estupefacção geral e ao medo sanitário, juntou-se um outro medo. Como e quando vamos regressar ao dia-a-dia? Como retomar o rumo normal da economia? Sectores inteiros fecharam, afectando centenas de milhares de empresas e postos de trabalho, atingindo de uma forma brutal os rendimentos das famílias expostas a estes sectores. Mais de um milhão de pessoas em lay-off, dezenas de milhares que perderão os seus empregos. Há porém sectores que sendo afectados de forma violente, tentam resistir em fazer lay-offs e continuam na sua missão de diariamente informar e entreter os portugueses, como o sector dos media.

 A comunicação social, que vinha de décadas de crises, está a enfrentar a sua pior crise de sempre. A concorrência hegemónica e desleal dos grandes agregadores, que sugam as receitas digitais e vivem instalados em paraísos fiscais que os inibem de pagar impostos locais, o sistemático assobiar para o lado dos anunciantes locais que, fazendo juras de amor aos meios nacionais, continuam a colocar o grosso dos seus investimentos digitais no Google ou no Facebook, são realidades que contribuem para o florescimento de uma indústria de fake news que ali se produz e reproduz e que comprometem severamente a capacidade de subsistência dos grupos de media nacionais.

 Não temos visto, por parte destes anunciantes, uma mudança que assegure na sociedade onde realizam as suas actividades, o reconhecimento pelo serviço prestado aos milhões de portugueses que diariamente consomem informação com rigor e independência. A liberdade de expressão é absolutamente crítica para um regime democrático, e ela não existe sem a existência de meios de comunicação solventes e sustentáveis.

 Enquanto sector, pensávamos que já tínhamos visto e assistido a tudo na comunicação social. Estávamos enganados. De um momento para o outro esta situação desconhecida levou a quebras a pique das receitas, quer da publicidade quer de circulação. Perante este cenário de catástrofe, é  com tristeza que assistimos da parte dos Governos à falta de reconhecimento do valor e da importância dos media.  Até agora nunca se viu um repórter do Google ou do Facebook, ou mesmo do Instagram, nas conferências de imprensa da Direcção-Geral de Saúde, ou a cobrir as dezenas de acções políticas do Primeiro-Ministro ou do Presidente da República. Será necessário os media deixarem de cobrir as suas actividades políticas para se darem conta de que palavras ocas, sem substância, não pagam salários?

 Os tempos são sombrios, mas temos força, vontade e esperança que a Comunicação Social saia vencedora do maior desafio que jamais enfrentou. Será a vitória da informação rigorosa, essencial e com valor.

 Os consumidores vão perceber que o jornalismo com critério não pode ser esquecido e os anunciantes têm, nestes dias, a oportunidade de reconhecer o valor dos meios de comunicação social nacionais, para além do valor que lhe reconhecem para publicação de comunicados.

*Por Luís Santana, administrador da Cofina Media

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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