“Speak the Truth”

Por a 29 de Abril de 2020
António Cunha Vaz, presidente da CV&A

António Cunha Vaz, presidente da CV&A

A frase do título não é minha. É de um dos grandes comunicadores do nosso tempo. Disse-a a propósito de Corona Vírus e tenho a certeza que a diria sobre todas as situações da vida. O único caminho é esse. Em matéria de comunicação e em tudo o que que na vida fazemos. Quando estamos em situações complexas nota-se bem quem tem carácter, quem não tem e, entre os que têm, quais os do lado mau e os do lado bom.

Percebo que nem todos comunguemos das mesmas ideias nesta matéria. Por vezes isso tem um custo. Os defensores da mentira chamam-lhe falta de eficácia. Sei bem que quem prevarica prefere jornalismo manso, controlável, obediente. Sei bem que até havia contratos em que se inscrevia uma alínea com valor de viagens a pagar a jornalistas. Claro que, arrisco a dizer, a grande maioria das vezes o dinheiro nunca chegava a jornalista nenhum.

Agora, caro leitor, a máxima deve ser a de Obama: “Speak the truth”.

Tempos houve em que muitos usavam e abusavam dos seus contactos para passar mentiras, criar factos, fazer sair notícias para depois vender serviços de “limpeza reputacional” aos supostamente lesados. Sempre houve bom jornalismo mas a gente mais jovem, até pela formação mais profissional que hoje existe, melhorou muito. Não se deixa ir tanto em amizades e muito menos em interesses. O mesmo se passa com o quem se relaciona com os profissionais de comunicação. Já são muito menos os clientes que pensam que se resolvem coisas comprando, fazendo favores, cobrando amizades. As notícias são o que são. Às vezes incomodam, são inoportunas, mas, se forem verdadeiras, se não mentirem ao destinatário final, são desejáveis.

Outra coisa é a necessidade de dizer tudo a todos os destinatários. Em tempo de guerra, por exemplo, o que se transmite numa conferência de imprensa sobre os próximos dias deve ter em conta a protecção dos segredos estratégicos de cada exército, armada ou força aérea. Num caso como esta pandemia, obviamente que se aconselha prudência na forma de comunicar mas, claro, hoje mais que nunca, é impossível mentir.

E não mentir, em matérias estratégicas, significa respeitar o interlocutor. Explicar-lhe a realidade, deixando de fora qualquer possibilidade de se vir a sentir enganado, mas assegurar que esse interlocutor se sente tão respeitado que nos retribua esse respeito e saiba o que é ou não do interesse público comunicar/revelar.

E Barak Obama acrescentava: “The biggest mistake any of us can make in these situations is to misinform …”. Pois então. É isso mesmo. Não se pode dizer que a comunicação das entidades ligadas à saúde, por exemplo, esteja a sair na perfeição. Mas também não se pode exigir que quem de comunicação pouco sabe seja perfeito a informar. E a sua principal função é cuidar do problema. Não ter tempo para seleccionar quem comunique o que há a comunicar é que se pode recriminar.  Talvez seja o tempo de adoptar o american way: arranjar um porta-voz. Que não minta. Que diga o que sabe e pode. Que possa ser corrigido sem colocar em causa as chefias.

Obama falava numa conferência que terminou instando as autoridades a “cuidar dos mais vulneráveis”. E é isso que quem comunica em matéria de saúde tem tentado fazer.

Ouvindo de novo as palavras de Obama apercebi-me, então, que os mais vulneráveis a que se referia eram, com certeza, aqueles que ainda vivem no mundo da mentira para criar negócio. Há quem por muito que tente sair desse mundo não consiga que esse mundo o abandone: os vulneráveis. Eles andam aí!

*Por António Cunha Vaz, presidente da CV&A

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