Os Pequenos Grandes

Por a 27 de Abril de 2020
Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

Tendencialmente, olhamos nestas colunas para o que de melhor os melhores fazem. Tenho por aqui trazido macro-tendências e dicas para melhorar o seu negócio e a presença da sua marca no digital, tomando como referência nomes fortes do meio. Mas como resolver a crise nesta crise? Como superar a fatalidade de uma eventual falência? E como fazê-lo sem os orçamentos de um GAFA ou de uma das maiores marcas nacionais? Parece impossível. Mas felizmente somos um povo de engenho. Quando a necessidade assim obriga reforça-se a nossa capacidade de resiliência e superação. Infelizmente, nem a todos este engenho está a chegar a tempo. Mas segue uma ajuda dentro de algumas linhas:

Temos andado a apregoar a transformação digital durante 20 anos. Muito foi mudando. Mas em vez de transformação tem sido mais de modernização. Não ficou de fora dos ‘papers’ e ‘case studies’ e palestras, a inspirar todos, mas sempre esbarrando com um espesso muro: o do desconhecimento. E esse, gerando o receio. E esse, adiando a transformação dos negócios. Quanto devo investir? Quando verei o retorno? Como fazê-lo?

A urgência, bem sabemos nestes dias, propôs-se a terraplanar montanhas e o que vemos são pequenos negócios – B2C e B2B – a expandirem-se para actuais e novos clientes. É a transformação em curso em tempo recorde. Mas porque não a todas as empresas?

Tomo como exemplo o nosso caso na Media Capital. No grupo temos uma das empresas que actua no mercado das PME’s, que é o IOL Negócios. Desde os primórdios, com os agregadores e indexadores, até aos dias de hoje com o maior refinamento digital, entre desenvolvimento de websites, estratégias de geração de leads, presença e gestão de comunidades, etc. Este é o mercado não do grande retalho, das grandes insígnias de 5000 e 10.000 colaboradores, mas das farmácias, dos cabeleireiros, dos stands de automóvel, agências de viagem, restaurantes, vendedores de imobiliário, produção e venda de acrílicos, alimentação para animais de estimação, etc. São centenas de empresas. Da unipessoal à equipa que não ultrapassa duas mãos de gente e outras ainda com algumas dezenas de colaboradores. A todos une um vector comum: o mundo vai mudar e eu quero fazer parte dele.

Mas esta é uma realidade ínfima. Mais de metade das empresas portuguesas (já o alerta há vários anos no relatório anual a ACEPI) não tem sequer presença digital. Quanto mais uma abordagem ao eCommerce. Então como vão estas empresas sobreviver a uma das maiores recessões nos próximos 12 a 24 meses?

 A primeira reacção e lição aprendida: o eCommerce não é complicado. E funciona. E veio para ficar. Desenganem-se os que ainda acham que conseguem gerir um negócio pelo simples email, como aliás temos vistos nestes últimos 15 dias. A geração de um bom CRM com capacidade para analisar os seus clientes e faturação é essencial. Bem como as devidas e ajustadas campanhas de captação e conversão, ao invés de fazer disparar uns Whatsapps desesperados aos amigos que, 5 reencaminhamentos depois, fez esgotar o material da loja e deixar o pequeno empresário contente nesta Páscoa. Ajudar o comércio local sim, mas os que acreditam neste “processo” como a solucção corrente, vão-se aperceber em breve do erro…

Onde estão as dificuldades, então? Primeiro, em não encontrar parceiros de confiança. Segundo, em conseguir suportar o pequeno investimento inicial, estando muitos dos pequenos negócios já de si com tesourarias débeis antes da crise. Em terceiro, na falta de literacia de gestão, conseguindo por isso sentar-se à mesa com o seu parceiro e estruturar planos de médio prazo com passos de controlo, para afinação do investimento e movimentos táticos (lembra-se por exemplo do nosso “Pesadelo na Cozinha”, com o chef Ljubomir? em muitos dos casos tão importante as dicas na gestão do negócio como na melhor confecção dos pratos). Por fim, uma contradição – o falso conhecimento do meio. Usar o meio digital não é o mesmo que saber trabalhar com o meio. Sem profissionalização não haverá do lado do cliente a confiança no relacionamento online com a sua empresa/marca.

Terminou, por fim, o medo e a insegurança: “Não vai aguentar”. “As pessoas ainda só usam para ir às redes sociais”. “Ninguém sabe pagar online”. Eis que de repente todos conseguimos estudar e trabalhar a partir de casa. Encomendar fruta à mercearia do bairro. Comprar cabrito de Trás-os-Montes para a Páscoa em Peniche. Iniciar e fechar negócios com 6 algarismos sem um único contacto físico (apenas visual, via digital).

Agora que já sabemos que tudo funciona e que há soluções – não espere pelo fim da crise. A única certeza que sabemos é que esta ainda vai durar e haverá sempre outra a seguir. O seu negócio pode estar preparado para dar a volta. Ser pequeno não implica pensar pequeno.  Como qualquer bom português, desenrasque-se, mas ao invés de um movimento improvisado avance com um plano. Se num mês conseguiu tudo isto, imagine num ano.

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