O outro lado do rio

Por a 2 de Abril de 2020
Edson Athayde, CEO/CCO FCB Lisboa

Edson Athayde, CEO/CCO FCB Lisboa

Começo com um texto escrito há mais de 100 anos pela escritora irlandesa-francesa Kathleen O’Meara.

O poema “Curar” diz assim: “E as pessoas ficaram em casa / E leram livros e ouviram / E descansaram e se exercitaram / E fizeram arte e brincaram / E aprenderam novas maneiras de ser / E pararam / E ouviram fundo / Alguém meditou / Alguém orou / Alguém dançou / Alguém conheceu sua sombra / E as pessoas começaram a pensar de forma diferente / E pessoas se curaram / E na ausência de pessoas que viviam de maneiras ignorantes, / Perigosas, sem sentido e sem coração, / Até a Terra começou a se curar / E quando o perigo terminou / E as pessoas se encontraram / Lamentaram pelas pessoas mortas / E fizeram novas escolhas / E sonharam com novas visões / E criaram novos modos de vida / E curaram a Terra completamente”.

“Curar”. Palavra bonita, conceito necessário neste momento. Precisamos curar esta enfermidade avassaladora, que sequestrou o nosso presente e exige o nosso futuro como resgate.

Mas “curar” tem vários significados. Um deles é o que remete para “curadoria”, um olhar atento sobre as coisas, um cuidado especial na escolha, uma necessidade de separar o joio do trigo.

Precisamos “curar” o que fazemos enquanto profissionais de comunicação. Precisamos ser cuidadosos (não confundir com ser medrosos, covardes, atónitos, afónicos) no papel de consultores preferenciais na construção dos discursos das marcas.

Precisamos “curar” hábitos, manias, culturas. Temos a obrigação de sermos conscientes, relevantes, consequentes.

Numa guerra cada um tem o seu papel. Há quem trabalhe dias seguidos sem dormir num hospital. A nós só é pedido que fiquemos em casa a pensar em como ser úteis às empresas que atendemos.

Não creio que existe uma receita única em como comunicar neste momento. Acredito que um silêncio honesto é mais recomendado, em muitos casos, do que uma fala atabalhoada, fora de tom ou de contexto.

Por outro lado, admiro quem encontra um ponto de vista certo, algo o que dizer mesmo nos momentos mais difíceis.

Recomendo respeito pelas pessoas a quem normalmente chamamos de consumidor. Eles são pais, mães, filhos de alguém. Estão ansiosos, tensos, a lutar pela vida, a refazer todos os planos. Trate-os como adultos, parceiros, membros de uma mesma comunidade, a nossa comunidade. Acredite: uma pandemia é uma tragédia colectiva, não é uma oportunidade promocional para si.

Não sei o que nos aguarda ao fim deste túnel escuro onde todos entrámos. Sei que experiências do tamanho desta que vivemos são capazes de transformar tudo.

É cedo para dizer se será uma transformação mais benéfica que maléfica. Estamos no olho do furacão, não é hora de ter certezas de nada.

Sei apenas o que quero fazer como publicitário, como comunicador, como empresário, como colaborador de uma empresa e, principalmente, como ser humano.

Muitos não vão sobreviver a esta epidemia. Teremos um pós-guerra duro, inédito, complicado.

Tentarei ser um vector de positividade no meu entorno. Procurarei manter-me optimista mesmo nas horas mais duras. Tentarei ser gentil, mais gentil. Gentileza gera gentileza, já dizia o meu Tio Olavo a citar um poeta popular.

Vou fazer a minha parte. Manterei o máximo de empregos, pelo maior tempo que der, cortando primeiro na minha própria pele sem nenhum pudor (não se é empreendedor só nos tempos bons).

O mundo que está ali na esquina é diferente, é outro. Como tudo o que é novo, assusta. Ficará mais fácil se estivermos juntos, a remar para o mesmo lado enquanto portugueses, mas, principalmente, enquanto ser humanos.

Termino com mais um texto alheio, escrito pelo cantautor uruguaio Jorge Drexler: “Cravo meu remo na água / Levo o teu remo no meu / Creio ter visto uma luz no outro lado do rio / Sobre tudo creio que nem tudo está perdido / Tanta lágrima, tanta lágrima e eu, sou um copo vazio / Ouço uma voz que me chama, quase um suspiro / Rema, rema, rema, rema, rema, rema / Eu, muito sério vou remando, e bem lá dentro sorrio / Creio ter visto uma luz no outro lado do rio”.

*Por Edson Athayde, CEO/CCO da FCB Lisboa

Deixe aqui o seu comentário