Há futuro em Abril? 

Por a 3 de Abril de 2020
Nuno Santana, founder partner da NIU

Nuno Santana, founder partner da NIU

Quase todos nós desvalorizámos o impacto desta pandemia na nossa vida,  poucos foram os que se prepararam, se é que existia forma de o fazer. Naturalmente que ao dia de hoje tudo parece óbvio. Como qualquer acontecimento do passado, parece-nos demasiado previsível e questionamo-nos como é que os grandes líderes mundiais não implementaram medidas imediatas com o objectivo de evitar que o vírus contaminasse as nossas vidas, as nossas mentes e as nossas economias. Bill Gates foi dos poucos que tinha alertado  para uma possível pandemia, mas afinal o que parecia um argumento digno de um filme de Hollywood, tornou-se esta estranha realidade.

Falo-vos numa situação particular, sou empresário, todos os meus negócios dependem de “juntar pessoas”, sejam os eventos, o entretenimento, o turismo ou a restauração. Fomos dos primeiros a sofrer com o vírus e provavelmente vamos ser os últimos a voltar a uma suposta “normalidade”. Algumas destas empresas não vão ter qualquer actividade comercial nos próximos meses. De todas, a menos afectada teve uma quebra de 80% no mês de Março. Em praticamente todas, estamos a implementar o lay-off de forma a manter as equipas que tanto já deram pelas nossas marcas e também, em alguns casos, pelas vossas.

Dou-vos este enquadramento para vos dizer que tenho Medo, Ansiedade e Incerteza, mas não posso permitir que sejam estes a gerir o meu futuro.

Em 25 anos já passei por várias crises. Nas primeiras achei que o mundo ia acabar. Na última, há 10 anos, a acrescer ao facto de o investimento das marcas ter reduzido drasticamente devido à crise do “subprime”, o nosso principal cliente decidiu fechar o escritório em Portugal. De 2010 para 2011 perdemos mais de 50% de receitas, não via luz, achei que era o nosso fim. Hoje, olhando para trás, consigo perceber que todas estas crises nos tornaram mais fortes e mais preparados para nos adaptarmos aos novos paradigmas ou realidades.

Quando tanto se fala do propósito das marcas, de repente um vírus criou as condições para que as marcas provem os seus verdadeiros valores e relevância na relação com as suas comunidades, entenda-se comunidades como todos os seus stakeholders, colaboradores, clientes, fornecedores, bancos, accionistas, Estado, etc.

Esta crise nasce de uma questão de saúde, por isso torna-se tão particular, ao contrário das que assisti no passado. Esta crise tem como protagonista  coronavírus (SARS-CoV-2) , que ceifa vidas, e por isso impõe-se um maior nível de altruísmo e civismo por parte de todos nós.   A dimensão sanitária e social sobrepõe-se a todas as outras.

Vivemos um tempo de grandes mudanças e de desafios globais assustadores. A vitória será amarga e à custa de muitas baixas, com desfechos duros para a sociedade e para cada um de nós. O vírus tira a vida de pessoas que conhecemos ou que nos são próximas, famílias que vão ficar sem rendimentos, amigos que vão passar dificuldades, empresas que vão fechar, e tudo isto quase que nos impede de ver o futuro. Somos seres emocionais, decisões em Abril e Maio sobre um futuro próximo dificilmente serão isentas de MEDO.

Neste momento impera proteger também as empresas. Quando falo das empresas estou-me a referir aos colaboradores que vivem delas. As pessoas que todos os dias dão o seu melhor para que as empresas consigam gerar valor. O estado de emergência prova isso. Os accionistas e os empresários têm a obrigação de participar. Temos o dever de apoiar quem nos apoiou e quem também depende de nós. No nosso caso, provavelmente, vamos perder o que ganhámos no passado, mas não vamos hipotecar o futuro do que construímos.

 Tudo isto é novo e, por muito que tenhamos a capacidade de antecipar o futuro, não existem bolas de cristal. Porque se têm a certeza do futuro, os que agora vaticinam o fim de tudo, deviam ter alertado em Dezembro que tudo isto ia acontecer.

Por mais grave que seja esta pandemia, acredito no futuro. Vamos voltar a abraçar, a sair de casa, a passar tempo com a família, com amigos. Os nossos filhos vão voltar à escola. Vamos voltar a ir jantar fora, a viajar, a ir a eventos. A economia vai voltar a crescer. Novos negócios vão florescer e, depois disto tudo, o que me parece certo é que nos vamos adaptar a uma nova realidade, seja ela qual for.

Se todos os dias nos reinventamos para nos adaptarmos a este estado de emergência, quando tudo serenar teremos de nos adaptar às consequências desta pandemia, reflectindo sobre o nosso molde de consumo, de existência e de preparação para situações idênticas.

Por isso, peço-vos: não tomem decisões drásticas no meio do “nevoeiro”. Não deixem que seja o medo a gerir. O foco está nos clientes, mas protejam as vossas equipas, olhem também pelos vossos parceiros – sejam agências, media, produtores, fornecedores em geral. Tudo isto vai passar e todos precisamos de todos, mais do que nunca.

As marcas, mais do que nunca, têm o momento para provar o seu propósito.

 Há futuro em Abril?
*Por Nuno Santana, founder partner da NIU

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