Cada um em sua casa, todos juntos

Por a 20 de Março de 2020
Susana Albuquerque, presidente do Clube de Criativos de Portugal

Susana Albuquerque, presidente do Clube de Criativos de Portugal

Não sabemos o que pensar. Não sabemos a dimensão da epidemia, quanto dura e que consequências vai ter. É provável que mude o mundo, o país, a economia, é provável que transforme a forma como vivemos, compramos e nos relacionamos com os outros. O que sabemos agora será muito diferente do que saberemos amanhã, com certeza. Por enquanto, vivemos com a sensação de ter entrado na sala a meio de um filme mau, mas sem adivinhar ainda como acaba a história. Neste panorama, ajuda fixarmo-nos em duas coisas. Primeiro, que os acontecimentos também estão a ser escritos por nós. E para mudarmos o curso da história para já devemos ficar em casa, quantos mais melhor, quanto mais tempo melhor. É a única coisa que podemos fazer agora para diminuir as cadeias de contágio, aliviar o sistema nacional de saúde, ganhar tempo e achatar a curva de vítimas. Depois, é bom lembrarmo-nos que esta guerra tem uma vantagem sobre outras. Estamos todos do mesmo lado, todos contra o mesmo inimigo, e as cadeias de solidariedade, para já, são mais que as de contágio. Aproveitemos este espírito para nos mantermos juntos nas decisões, com tolerância, com sentido do colectivo, façamo-lo da forma mais humana que conseguirmos. Entretanto, comecemos a trabalhar já no que é preciso fazer agora e no que vai ser preciso fazer mais à frente. Desde já, é importante continuar a trabalhar durante esta fase de isolamento. É importante não cancelar o que pode não ser cancelado. O desafio mais imediato é o do teletrabalho. Como nos adaptamos todos ao trabalho à distância, ao WhatsApp, mail, Skype, Zoom, Google Docs, Messenger, Facebook, Instagram, Público, El País e NY Times, tudo a notificar ao mesmo tempo. Como conciliamos esse trabalho com a família em casa, a trabalhar para empresas diferentes e a precisar de ser alimentada. Mas essa é a parte mais fácil. É igualmente importante ajudarmos os negócios dos clientes a adaptarem-se a uma nova realidade. Estou a pensar em companhias aéreas, centros comerciais, retalho em geral, eventos, turismo, e tantas outras actividades que dependem de que as pessoas saiam de casa. Depois da suspensão temporária, como vai ser a nova realidade? Procuremos soluções juntos, enquanto agradecemos viver num estado social europeu. Protejamos as pessoas e o seu rendimento mínimo, mas também as empresas, as nossas e as dos nossos clientes, porque são elas que dão trabalho à maioria das pessoas. A seguir, vai ser importante recuperar alguma normalidade. Isso significa ajudar as pessoas a recuperar segurança e confiança, imagino que esses serão os territórios mais concorridos no futuro, os que mais nos ajudarão a destruir as cadeias de medo. Vai ser preciso criar ambientes seguros. Vamos precisar de boas ideias para criar esses ambientes e para os contar. Muita coisa terá que ser repensada, e esse é o maior contributo que poderemos dar à sociedade. Não somos médicos nem enfermeiros, não repomos leite no supermercado, mas somos peritos em comunicar, em mudar atitudes e comportamentos, em provocar emoções positivas como auto-estima, segurança e confiança, em resolver problemas e levar as pessoas a agir, por isso podemos e devemos usar as nossas aptidões para pensar em soluções para os problemas de agora. Podemos e devemos ajudar as pessoas a protegerem-se de futuras epidemias, nós como criativos e comunicadores e as marcas como actores. Podemos e devemos ajudar a desenhar costumer journeys mais seguras, por exemplo. Criaremos lojas para uma só pessoa de cada vez? Um sistema de entrega ao domicílio 100 por cento desinfectado? Podemos e devemos ajudar a criar experiências de entretenimento seguras, para tempos de maior recato social. De um dia para o outro, a Time Out mudou o seu nome para Time In. Ontem, éramos mais de 10 mil pessoas a ver o Branko dar um concerto em casa no festival Eu Fico Em Casa. De uma forma ainda tosca, estávamos ali todos juntos, à distância. Creio que vai ser importante aproveitar esta paragem obrigatória para reflectir. O solavanco vai ser enorme, mas deve ser encarado como a oportunidade sempre adiada de criarmos uma sociedade mais sustentável, mais humana, ainda que com menos contacto físico, mais limpa, menos desigual, menos obcecada com o crescimento, com o consumo de recursos e com o lucro de meia dúzia, mais comprometida com o bem-estar de todos. Aproveitemos este filme catástrofe para ajudar a escrever a história que queremos viver nas próximas décadas.

*Susana Albuquerque, presidente do Clube de Criativos de Portugal

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